O saudoso tempo do fascismo – 31 – por Hélder Costa

O senhor de roupão amante dos pássaros

 

Manhã cedo, sobem as persianas, ouve-se correr o reposreiro, abre-se a porra-janela e ele surge na varanda.

 

Totalmente calvo, de olhar inquieto e frio, este velho com ar de velho, enfarpela¬do num roupão beije com lencinho branco na algibeira, usando um eterno lenço azul de seda ao pescoço, tresandando a perfume a quilómetros de distancia, despertava a curiosidade das várias gentes que – já era a força do hábito -, costu¬mavam espreitá-lo e gasravam horas a imaginar quem seria aquela pouco tranquilizante personagem.

 

 – “Vê-se logo que é pessoa fina!”

 

Um jovem estudante, ainda por cima cinéfilo, refilava: com aquele estilo, parece um oficial nazi.

 

– Se calhar, nem é português!

 

O homem respirava o ar puro, via-se que tinha um cerco bom gosto ecológico, per-corria vagarosamente a rua e o parque com o olhar, voltava para dentro de casa, e reaparecia minutos mais tarde com uma gaiola onde um lindíssimo canário solta¬va trinados de fazer inveja ao Pavarotti.

 

O homem espalhava bocadinhos de pão ao longo do parapeito, deixando ao cen¬tro uma pequena clareira onde pousava delicadamente a gaiola.

 

Começava então um ritual estranho: aterravam na varanda pombos, pardais e outra passarada de mais difícil identificação, e debicavam ° pão generosamente oferecido pelo homem. Mas este quadro idílico e pastoral tinha um contraponto terrível: dentro da gaiola, o pobre canário, lutando por conquistar também a sua migalha, atirava-se violentamente contra as grades da gaiola e piava com aflição. Perdia o belo canto e ganhava a dor e a revolta.

 

Este ritual durava vários minutos. Até ° pão acabar no parapeito, e as aves esvoaçarem de novo alegremente.

 

Nessa altura, exausto e, com certeza indignado, o canário acocorava-se na base da gaiola.

 

O homem, satisfeito, sorria e levava o seu pássaro de estimação para dentro de casa.

 

 – Curioso, parece que ele está a ensinar qualquer coisa ao pássaro!

 

 – Coitado do canário, deve estar cheio de fome!

 

– Isso não acredito. O senhor deve dar-lhe boa comida. Tomara eu.

 

 – Olha, se calhar isto é para o canário perceber que há pássaros que não são tão felizes como ele, e por isso deve portar-se bem.

 

– Pode ser, o senhor deve ser boa pessoa e está a preparar o canário para a vida.

 

 – Nunca se sabe o dia de amanhã.

 

E assim continuavam as conversas e as mais variadas sugestões, que, como vimos, provinham de diferentes campos ideológicos, o que só abona em favor da democracia.

 

Anos mais tarde, o senhor morreu.

 

O velório e o funeral foram discretamente concorridos, mas quem lá estava era gente da mais fina água: o bispo, uns padres, altos dignitários do antigo regime, industriais, oficiais do Exército com brilhantes condecorações da guerra colonial, cavaleiros rauromáquicos, umas viúvas, e alguma “gente anónima” mas que, curiosamente, não parecia povo.

 

Pelo menos, não era o tal “povo humilde” tão generosamente cantado pela fadis-tagem de antigamente.

 

AJguém informou mui lacrimejante, que o senhor tinha sido um digno reformado da função pública. De brilhante folha de serviços como célebre director da Pide.

 

Percebeu-se então o motivo do esrranho ritual do pão e dos pássaros. Como funcionário digno e íntegro, é evidente que o senhor não queria perder o hábito e o prazer de torturar. É mesmo possível que ele pensasse que o país pode¬ria voltar a ser aquele, já longínquo, que ele sempre tinha idolatrado e defendido, e, quem sabe? poderiam precisar outra vez dele … por isso, não havia como conri- nuar a praticar a sua reconhecida e respeitada especialização policial.

 

E o canário?

 

Dizem que alguém abriu a gaiola e o deixou voar.

 

Finalmente, em liberdade.

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