D. HENRIQUE (reinou de 1578 a 1580)
D. Henrique tinha 65 anos quando subiu ao trono. Nascera em Lisboa, em 1512. Era de débil saúde, casto, severo de costumes, calado, frio, avaro e por tudo isto impopular.
D. Henrique era filho de D. Manuel e, portanto, irmão de D. João III. Foi arcebispo de Braga e de Évora. Nunca pensou ser rei, mas por duas vezes foi chamado a dirigir o país. Da segunda pediu ao Papa que o dispensasse das ordens para poder casar e dar um sucessor a Portugal. O Papa não consentiu e ele aceitou os humores do Sumo Pontífice.
Ao trono português aparecem vários pretendentes: Filipe II de Espanha, neto de D. Manuel. D. Catarina, duquesa de Bragança, neta de D. Manuel, por via masculina. D. António, Prior do Crato, filho bastardo de D. Luís e de Violante Gomes, a «Pelicana». D. Luís foi o quarto filho de D. Manuel. O duque de Sabóia, o príncipe de Parma e Henrique III de França.
A figura do cardeal D. Henrique ergue-se em meio do coro de lamentações e no oceano de lágrimas provocadas pelas notícias chegadas a Lisboa, da catástrofe de Alcácer Quibir: a morte do rei e a perda de milhares de portugueses, nobres e gente do povo, uns mortos e outros cativos, em poder dos Mouros.
Cumpria resgatar os cativos. Faltavam os recursos necessários. D. Francisco da Costa vendera suas jóias e fazendas para libertar os de Fez. Não chegara! À desolação daqueles que, por tal escassez, teriam de ficar, acudiu a generosidade do fidalgo, ficando ele próprio como refém do dinheiro que faltava. Todos foram libertos, e o nobre libertador, de todos eles esquecido, lá morreu a expiar sua ingénua e generosa confiança. O vazio das cabeças e dos corações era ainda maior do que o vazio do cofre público e dos particulares.
O problema da sucessão, dada a idade e a condição clerical de D. Henrique, transformou-se rapidamente no centro de todos os debates do breve reinado, limitando progressivamente a margem de actuação do cardeal-rei e desgastando a sua base de apoio. Com efeito, o isolamento progressivo do rei deve ser relacionado com a deslocação do jogo político para a constituição de grupos de apoio aos três principais pretendentes (D. Catarina de Bragança, Filipe II e D. António).xxx Daí a linha legalista escolhida pelo cardeal até praticamente à sua morte: convida publicamente os pretendentes a apresentarem os fundamentos jurídicos das suas razões.
Febo Moniz (Procurador de Lisboa às cortes de Almeirim) demonstra que Filipe II não serve ao país mas, a nobreza e o clero votam a favor de Filipe II.
A preocupação dominante no momento histórico, era a questão da sucessão do cardeal-rei, velho e doente, ante as ambições do seu sobrinho Filipe II. No cofre do espanhol podia faltar dinheiro para pagar aos soldados da Flandres, mas chegava à larga para ganhar vontades em Portugal. O único meio que os patriotas criam eficaz para obviar às ambições filipinas, era o casamento do cardeal, sexagenário e doente. Este mesmo o reconhecia necessário, o aceitava e, por todas as formas e longamente, insistia perante o papa Gregório XIII pela dispensa das ordens sacerdotais. Invocava a razão de que era o maior serviço que à consciência lhe exigiria o dever de monarca para com o seu povo. Ao próprio Filipe II revelou o seu propósito, pedindo-lhe a interferência para o realizar, casando com uma sua filha ou com sua sobrinha e cunhada, ex-rainha de França.
Esta insistência teimosa de D. Henrique levou as ambições de Filipe II a duas linhas de combate: uma em Portugal, entregue à sagacidade e ao dinheiro com que Cristóvão de Moura conquistava para a sua causa os membros mais ilustres do clero e da nobreza, e os mais eficazes das forças armadas, e ainda os conselheiros de Estado que rodeavam o trono real. A outra frente de batalha era em Roma, junto dum pontífice hesitante perante a solicitação de D. Henrique. Não faltavam exemplos de dispensa de ordens em circunstâncias análogas, mas era tentadora a perspectiva que a embaixada de Espanha lhe franqueava, dum império ultramarino de incomparável grandeza em defesa da Igreja, ainda abalada pelo movimento da Reforma.
Vizinha de Nação, vibrava no anseio de domínio a Espanha, governada pelo Demónio do Meio-Dia (Filipe II) que, na qualidade de neto de D. Manuel, não podia deixar de patentear suas ambições de herdeiro e de, para as satisfazer, mandar o renegado Cristóvão de Moura a Portugal, com a missão explícita de reunir os dois reinos. Entretanto, o cardeal-rei começara a exercer o seu reinado, logo de entrada, pela demissão de dois ministros: Pedro de Alcáçova Carneiro e D. Luís da Silva, o primeiro acusado de inconfidências de duvidoso patriotismo, e o segundo de responsabilidades na catástrofe, pelos maus conselhos dados a D. Sebastião. Revogam-se duras leis, promulgadas para obter recursos para a desastrosa loucura da conquista marroquina: uma, odiosa ao povo – o imposto sobre o sal; outras, odiosas ao cardeal, ex-inquisidor-mor – como a que, a troco de 40 000 cruzados para o mesmo destino, libertava dos confiscos do Santo Ofício os cristãos-novos, pelo espaço de dez anos.
Começava o ano fatal de 1580. A peste e a fome assolaram Portugal. Mais de 25 000 pessoas morreram desta epidemia. O rei e a corte foram para Almeirim, e foi ali que a 9 de Janeiro se realizou nova sessão de cortes, sendo o cardealrei conduzido à sala numa cadeira. D. Henrique passou os últimos dias muito atormentados. Estava moribundo. D. António, prior do Crato, que ele expulsara do reino, achava-se em Almeirim. Perseguido pelos remorsos, revolvendo-se com amargura no leito de espinhos que ele mesmo preparara, D. Henrique entregou a administração do reino aos 5 governadores nomeados. Pouco tempo sobreviveu. A sua morte não foi lamentada por ninguém. Quis a fatalidade que na ocasião mais critica da vida de Portugal, fosse chamado a reger os destinos do país um homem, sempre incapaz de reinar, e ainda muito mais incapaz, por estar à beira do túmulo.
A notícia do desaparecimento de D. Sebastião nos cruéis combates travados, bem como da perda do numeroso exército que o acompanhava, foi um rude golpe para Portugal. Desaparecera a esperança do reino e do futuro. A economia tornou-se suicida e o trono foi ocupado por um velho decrépito, sem esperanças de sucessão. Sobre o reino se espalhavam nuvens de maus presságios crescentes que, culminando com a morte do cardeal D. Henrique, sem esposa nem filhos legítimos ou ilegítimos, abriram a porta ao jugo filipino.
D. Henrique faleceu praticamente isolado, manietado do ponto de vista da acção política por um jogo de poderes que escapara completamente ao seu controle. Os Jesuítas constituem o seu último suporte, numa relação de patrocínio e de fidelidade que se prolonga para além da morte através da composição da memória.
O reinado do Cardeal D. Henrique durara apenas um ano e cinco meses, desde 28 de Agosto de 1578, data em que foi aclamado rei, depois do desastre de Alcácer Quibir, até 31 de Janeiro de 1580, data da sua morte.xxx D. Henrique morre sem sucessor e amaldiçoado pelo povo que não lhe perdoa ele ter querido entregar o trono aos espanhóis. Pedro Nunes e Lourenço Pires de Távora foram homens do rei D. Henrique.
Pedro Nunes (1502-1578)
Matemático português nascido em Alcácer do Sal e falecido em Coimbra. Dito de ascendência judaica, fez em Salamanca os estudos de artes, matemática e medicina.
Bacharel em 1526 foi um dos maiores vultos científicos do seu tempo, que contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da navegação, essencial para as Descobertas portuguesas. Dedicou-se ainda aos problemas matemáticos da cartografia. Foi também o inventor de vários aparelhos de medida, incluindo o nónio.
Cosmógrafo do reino a 16 de Novembro de 1529 obteve por concurso, a cadeira de filosofia moral na Universidade de Lisboa, onde também ensinou lógica e metafísica. Mais tarde prestou provas, em Lisboa, para a licenciatura em medicina. Renunciou ao ensino oficial, em 1532, continuando, porém, a educar e ensinar os infantes D. Luís e D. Henrique e consagrando-se à investigação.
Entre 1538 até 1559 recebeu da fazenda do infante D. Henrique – futuro cardeal-rei – uma pensão anual de 20 000 réis. A 12 de Dezembro de 1547 passou a cosmógrafo-mor tendo também a seu cargo a cadeira de matemática na Universidade de Coimbra até 1562.
Entre 1562 e 1572 afastou-se da corte e viveu em Coimbra, mas D. Sebastião voltou a chamá-lo, em 1572, para exercer o cargo de cosmógrafo.
Pedro Nunes deixou obra científica que o coloca entre os maiores matemáticos do seu século. Nele o espírito utilitário predomina sobre o especulativo, embora o seu espírito de teórico eminente se mostre mais à vontade nos campos da ciência pura do que na aplicada.
O De Crepusculis é por vários comentadores considerado a obra-prima de Pedro Nunes. Nele o matemático analisa, em resposta a uma pergunta do príncipe D. Henrique – o futuro Cardeal-Rei –, o problema da «extensão do crepúsculo em diferentes climas», a que aplica o rigor do seu poderoso raciocínio. Entre outros resultados, determinou a data e a duração do crepúsculo mínimo para cada lugar no globo. O mesmo problema ocupou os irmãos Bernoulli século e meio mais tarde. É neste livro que Pedro Nunes concebe o engenhoso instrumento para medidas de precisão a que mais tarde se veio a chamar «nónio». O instrumento terá sido usado por Tycho Brahe nas suas extensas observações astronómicas. Pedro Nunes foi um cientista atento e interveniente, crítico, actualizado, inovador. Esteve ligado à “fase madura” do esforço das navegações portuguesas, com contribuições decisivas, conhecidas na Europa das décadas seguintes, nas áreas da cartografia, da teoria da navegação e do conhecimento da terra. A sua maior dimensão é de cientista “puro” e rigoroso, que intervém e publica, com impacto internacional, em temas de Matemática e Física. Mas não esquecemos, entre outros instrumentos que concebeu, o nónio e a sua utilização por cientistas eminentes de outros países Subsistem ainda hoje dúvidas sobre a origem familiar de Pedro Nunes. Judeu ou não, certo é que os seus netos Matias Pereira e Pedro Nunes Pereira foram presos e condenados pela Inquisição acusados de serem judeus. O primeiro esteve preso entre 31 de Maio 1623 e 4 de Junho de 1631 o segundo em Lisboa, entre 6 de Junho de 1623 e 1632.
Pedro Nunes foi um dos mais importantes cientistas portugueses de todos os tempos, e um dos grandes nomes da ciência europeia no século XVI. Como imagem histórica, tem no nosso país um grau de reconhecimento comparável a Luís de Camões e Vasco da Gama. Mas, ao contrário do que acontece com o poeta e o navegador, das obras e actividades de Pedro Nunes pouco sabe.
Morreu em 1578, em Coimbra.
A seguir. Lourenço Pires de Távora


