O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 11 – por Raúl Iturra

A obra de Alice Miller abre o jogo da teoria, expondo frontalmente essa forma dolorosa e brutal da verdade, que está por detrás das sempre referidas “fantasias infantis”, esse conceito conveniente e adequado, como gosto de denominar ao que espanta e não tem nome nem perdão ao referir.

 

Miller estuda e analisa casos de infância apresentados nas suas consultas, estuda as histórias que lhe são contadas, estuda a infância de autores através dos seus textos literários, analisa os sonhos dos seus pacientes infantis e dos que retira de diários de vida de autores afamados paralelamente com as suas histórias de vida: Franz Kafka , Virginia Woolf , Gustave Flaubert , e Samuel Beckett .

 

Actualmente, com o novo prefácio de Lloyd de Mause e uma nova introdução da autora, o texto Thou Shalt Not Be Aware , continua a ser essencial para o entendimento e o confronto necessários à recuperação de menores abusados e entender a mente dos abusadores de menores. Hoje em dia, delito punido com duras penas pelos efeitos devastadores que causam na infância, especialmente na vida adulta desse infante, abusos que estragam a vida da pessoa e da sua família, retiram a facilidade de interacção social, desaparece a noção de género, por causa de doença e não de opção, do menor abusado.

 

Abuso que o leva a confrontos com os outros e com a vida social. A pena é leve, a meu ver. Condenam o divórcio em Portugal, não permitiam o aborto (a legislação foi, felizmente, alterada quanto ao aborto), mas a pedofilia continua feliz a cantar, como veremos adiante. Chegados aqui, torna-se imperioso, escrever no texto central, o comentário sobre o livro, para entender os processos analíticos de Miller, especialmente para os que dedicam o seu tempo à análise dessa mente cultural em vias de desenvolvimento. A interrogação que se coloca é a de saber qual o motivo que leva pessoas de sucesso a viver os seus dias invadidos de sentimentos de vazio e alienação? Este livro, inteligente e profundo, tem fornecido respostas a milhares de pessoas, ajudando-as no enriquecimento e calma para as suas próprias vidas.

 

Muitos de nós fomos ensinados, ao longo das nossas curtas vidas de infância a esconder de forma pericial, habilidosa e destra, os nossos sentimentos, necessidades e lembranças, para satisfazermos as expectativas dos nossos ascendentes. Alice Miller diz-nos que o uso da palavra gift, dotado em português, não se aplica às crianças que obtêm notas altas nos seus estudos ou que são pequenos talentos noutros desempenhos das suas vidas. Gift, deve simplesmente ser utilizado em crianças capazes de sobreviver a situações de abusos, adaptando-se a crueldades que nem são possíveis nomear, ao ficarem dormentes perante esses ataques às suas emoções. Sem essa capacidade que a natureza nos dá éramos incapazes de sobreviver. Mas, sobreviver apenas, não é suficiente. O seu livro traduzido em Castelhano como Drama da Criança Dotada ajuda-nos a descobrir as nossas necessidades cruciais, importantes para nós, para a nossa própria verdade.

 

As análises de Alice Miller, são de pessoas que viveram a sua infância ou puberdade com sofrimento emotivo e em permanente depressão, mas que, ultrapassadas essas descompensações emotivas, tornam-se pessoas de saber, essas que eu denomino da cultura doutoral, ou, então, são pessoas que não conseguem aceitar esse ser de forma diferente ou de simples mente cultural.

 

Não se sabe se foram sexualmente abusadas nem é o mais interessante das suas histórias de vida. É suficiente saber que Beckett, adolescente ainda, teve de tomar conta da família, que Flaubert fracassou nos projectos criados pelos próprios pais para ele, Virgínia Woolf não resistiu ao sucesso das suas obras, teve um colapso nervoso, como diz a sua história, e acabou por morrer, tal como o actor dos nossos dias, Keith Ledger.

 

NOTAS:

 

Franz Kafka, língua tcheca: František Kafka, (Praga, 3 de julho de 1883 – Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um dos maiores escritores de ficção da Língua alemã do século XX, em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Kafka#Fam.C3.ADlia Virgínia Woolf, (Londres, 25 de Janeiro de 1882 — Lewes, 28 de Março de 1941) foi uma das mais importantes escritoras britânicas. Estreou-se na literatura em 1915 com o romance (The Voyage Out) e posteriormente realizou uma série de obras notáveis, as quais lhe valeram o título de “a Proust inglesa”. Em 1941, faleceu (suicídio). A história completa pode ser consultada em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Virginia_Woolf. Gustave Flaubert (nasceu no dia 12 de dezembro de 1821, em Ruão, morreu dia 8 de maio de 1880, em Croisset), escritor francês, é considerado um dos maiores autores ocidentais. Em 1844, com epilepsia, isola-se num local pertencente a seu pai. Em 1856, após cinco anos de trabalho, publica Madame Bovary, o seu romance realista mais conhecido, no qual critica os valores românticos e burgueses da época. http://pt.wikipedia.org/wiki/Gustave_Flaubert Samuel Beckett (Dublin, 13 de abril de 1906, Paris, 22 de dezembro de 1989), dramaturgo e escritor irlandês, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1969, utiliza nas suas obras, traduzidas em mais de trinta línguas, uma imensa riqueza metafórica, privilegiando uma visão pessimista acerca do fenómeno humano. É considerado um dos principais autores do denominado teatro do absurdo. A sua obra mais famosa no Brasil é a peça Esperando Godot. Depois da eclosão da Segunda Grande Guerra, adere, com a sua mulher, à resistência francesa, aquando da invasão de Paris pelo exército nazista, em 1941. Afasta-se da resistência em 1942, quando ambos foram obrigados a fugir de França. Morre em 1989, cinco meses depois da sua esposa, de enfisema pulmonar, contra o qual já lutava há cerca de três anos. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse. História completa em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Beckett. A introdução de Lloyd de Mause pode ser lida em: http://www.amazon.com/Thou-Shalt-Not-Be-Aware/dp/0374525439, com versão completa em: http://www.amazon.com/gp/reader/0374525439/ref=sib_fs_top?ie=UTF8&p=S00I&checkSum=WcuffE6FYNY7WaBeT5jC%2BVsEsSxsZWF4XWiLXxIMWA4%3D#reader-link, comentando os dois tipos de psicanálise que podem ser usadas no estudo das crianças. Livro difícil de ler, é possível consultar um outro texto sobre a temática em: http://www.psychohistory.com/childhood/writech1.htm, com o título On Writting Chilhood History, publicado na Revista The Journal of Psychohistory 16 (2) Fall, 1988, texto que comenta os trabalhos de Alice Miller e o trabalho pesado que é escrever sobre crianças. Por isso, em minha opinião, merece uma citação separada. de Mause diz: “Os textos de Alice Miller sobre a história da vida infantil, são, talvez, os mais conhecidos e procurados no dia de hoje e conhecidos do grande público” (94). Esta nota do texto, refere livros da autora que têm causado um profundo sentimento de saber e emoção no comentador: Alice Miller, Prisoners of Childhood, New York: Basic Books, 1981, ampliado e aumentado com o título: The Drama of the Gifted Child, comigo em versão castelhana: El saber proscrito, Tusquets, Barcelona, 226 página. For Your Own Good:Hidden Cruelty in Child-Rearing and the Roots of Violence, New York: Far-rar/Straus/Giroux, 1983, ou 2ª Edição, Virago Press, Londres, 289 páginas, Thou ShaIt Not Be Aware. Society’s Betrayal of the Child, New York: Farrar/Straus/Giroux, 1984, edição renovada com a introdução referida de Lloyd deMause, 331 páginas. Largamente documentados e argumentados com paixão, os seus livros referem detalhadamente o abuso emotivo e sexual como a realidade quotidiana de uma grande proporção de crianças, de ontem e de hoje. Textos documentados com base na sua própria prática analítica e das descobertas feitas nas histórias de vida de educadores e analistas. Katharina Rutschky, educadora, Helm Stierlin, psicanalista desencantada com o tipo de análise feita na Alemanha do pós guerra, Florence Rush, analista que escreveu o texto: The best kept secret: sexual abuse of children, 1980, Prentice Hall, 216 páginas, eu próprio e outros. Para além da riqueza das suas fontes clínicas e históricas, a mais rica é a do seu olhar interpretativo, esse do nosso não reconhecer ou negar a realidade da criança abusada. Ela denomina o Primeiro Mandamento para uma criança, imposto sobre ela pelos adultos que a abusam, thou shalt not be aware,ou: não devereis ser conscientes, um não falado mandamento que requer da criança o segredo do sofrimento recebido pelos seus guardadores ou adultos custódios dos mais novos. Os meus comentários resultam das leituras e análise das seguintes fontes: The truth laid bare in… The History of Childhood, em português: A verdade crua fica despida… na História da Infância, na qual deMause analisa a Obra de Alice Miller, sítios como: http://en.wikipedia.org/wiki/Katharina_Rutschky ou: The Drama of the Gifted Child: The Search for the True Self, de Alice Miller, New York, HarperCollins, 1996 (3ª edição), 136 páginas, que pode ser consultado em: http://www.alibris.com/booksearch?qsort=&page=1&matches=87&browse=1&qwork=1811647&full=1 , bem como da minha memória. O texto, em inglês, traduzi-o para o presente trabalho tornando-se, assim possível, acrescentar algumas ideias e modificar outras. O original, define as seguintes ideias: “Why are many of the most successful people plagued by feelings of emptiness and alienation? This wise and profound book has provided thousands of readers with an answer and has helped them to apply it to their own lives. Far too many of us had to learn as children to hide our own feelings, needs, and memories skilfully in order to meet our parent’s expectations and win their love”. Alice Miller comenta:” When I used the word gifted in the title, I had in mind neither children who receive high grades in school nor children talented in a special way. I simply meant all of us who have survived an abusive childhood thanks to an ability to adapt even to unspeakable cruelty by becoming numb. Without this gift offered us by nature, we would not have survived. However, merely surviving is not enough. The Drama of the Gifted Child helps us to reclaim our life by discovering our own crucial needs and our own truth”. Quem quiser ler mais, pode visitar a ligação: http://www.alibris.com/booksearch?qsort=&page=1&matches=87&browse=1&qwork=1811647&full=1. A sua vida e obra pode ser lida em: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Keith+Ledger%2C+actor&meta=&aq=f&oq= Incapaz de aceitar o seu sucesso, faleceu por ingestão de calmantes anti-depressivos em demasia, essa doença denominada dose excessiva de drogas. O sucesso também pode ser trágico, como os dois casos a que aludo, é, pois, um abuso emotivo da população e da família, por apenas falarem de glória e de sucesso, sem, as pessoas, serem tratadas como seres humanos normais, que realizam um trabalho que passa a ser público. Não há equilíbrio entre o sucesso de poucos e o trabalho rotineiro de muitos, rotina compensada com a glória alheia. A prova está nas denominadas telenovelas, transmitidas ao meio dia, observadas pelas pessoas que nem comem para verem a novela ou o filme dessa televisão que acabou por trazer o pior dos venenos para a inteligência ao criar entretenimentos entre eles, e para a paz e a interacção familiar. Tenho referido noutros livros, como me era impossível, aquando da realização de trabalho de campo, falar com as pessoas à hora do almoço. Estavam todos a ver televisão, nem comiam nem falavam. Desisti de usar essa hora para a minha pesquisa; mais tarde pensei que seria interessante ouvir as opiniões dos meus observados sobre o narrado nas telenovelas. Deu imensos frutos à minha pesquisa e um grande pulo às minhas ideias e hipóteses: os meus observados usavam os nomes das novelas e vestiam como os actores.

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