A economia em risco de uma queda rápida – 2, por Satyajit Das. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota.

(conclusão)

 

Economias irreais

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As acções de governo afectariam a economia financeira muito mais do que a economia real. As taxas de juros baixas impulsionaram os preços dos activos financeiros, enquanto a actividade económica subjacente permaneceu fraca.

Tendo diminuído em mais de 12% em 2008 e 2009, a produção americana está longe do seu pico alcançado em 2007. Numa base do rendimento per capita, ajustado pela taxa de inflação, a produção está praticamente ao mesmo nível que no segundo trimestre de 2005 – na verdade a América ficou parece ter assim ficado parada por um período de seis anos. O mesmo se pode dizer de muitos outros países.

 

Dado o peso do consumo de 60 a 70% nas economias desenvolvidas individualmente consideradas, o desemprego, o sub-emprego e a ausência de crescimento económico irão reduzir a taxa de crescimento económico. O crescimento do rendimento reduzirá o crescimento.


Em quatro anos desde o início da recessão, a população dos EUA em idade activa cresceu cerca de 3% mas a economia tem 5% a menos em termos de postos de trabalho – 6, 8 milhões de empregos. A taxa de desemprego real – pessoas sem trabalho, as pessoas a trabalharem a tempo parcial involuntariamente, as pessoas que já não procuram trabalho, porque já não acreditavam que possam encontrar algum – é de cerca de 15-20% nos Estados Unidos. O desemprego de longa duração deixou milhões de pessoas sem trabalho ou com muito poucas perspectivas de encontrar qualquer emprego.


Geralmente os americanos a trabalhar estão a trabalhar menos e tendo em conta a taxa de inflação o rendimento pessoal está em queda , sem contar com os transferências sociais vindas do governo, como o subsídio de desemprego. Os rendimentos familiares americanos diminuíram desde o início da recessão, em Dezembro 2007, caindo para 49, 445 dólares em 2010, ou seja uma quebra total de 6, 4%.

 

Segundo os últimos dados, o número de famílias norte-americanas que vivem na pobreza aumentou cerca de 2. 6 alcançando agora cerca de 46. 2 milhões, o maior aumento desde que o Censo começou a fazer registos o que aconteceu desde há 52 anos. A queda dos rendimentos per capita foi particularmente grande para os menos abastados.


Em 2010, o último quintil no inquérito às famílias que ganham $ 20. 000 ou menos viu os seus rendimentos com um declínio de 3, 8%, pós ajustamento à taxa de inflação. As pessoas pobres, as minorias, foram os mais atingido pela crise. Segundo o National Women’s Law Center, a taxa de pobreza para as mulheres subiu de 13,9% em 2009 para 14, 5% em 2010, o maior nível em 17 anos. A taxa de extrema pobreza nas mulheres saltou durante todo o ano de 5, 9% em 2009 para a alta taxa de 6, 3% em 2010. Os níveis de pobreza alcançaram o seu maior nível desde há de 15 anos.

O mesmo é verdadeiro para a Europa onde a taxa de desemprego oficial está para lá dos 10%. Em muitos países como a Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, o desemprego é cerca de 20%, o desemprego juvenil é de cerca de 40-50%, e as economias comprimiram-se em cerca de 10 a 20%. Compreensivelmente, as despesas em consumo é fraco.

Sectores-chave em termos de postos de trabalho ocupados, como a habitação, estão fortemente em baixa. Nos Estados Unidos o imobiliário tem em média anualmente 400, 000-600, 000 de novas unidades, valor este bem abaixo do nível da década de 1960, até com uma desconcertante taxa de redução de 70% a partir de valores de pico e de 50% quando calculada a partir de níveis mais normais.


Com os preços das casas a descerem cerca de 35% relativamente aos valores de pico e com previsões ainda mais pessimistas, os americanos não dispõem de uma riqueza tampão, de segurança diremos, em termos de investimento do imóvel para poder continuar a cair. Baixas taxas de juros e rendimentos semelhantes nos investimentos significam que a capacidade de consumir dos reformados também ela continuará a cair. O mesmo é verdade em muitas economias desenvolvidas.

Problemas emergentes . . . .

Depois de uma queda acentuada na actividade económica em 2008, os países emergentes – China, Índia, Brasil e Rússia – recuperam através de investimentos internos em massa, de uma expansão agressiva do crédito interno e, em alguns casos, de fortes preços ou dos produtos de base, ou seja, genericamente, das matérias primas. Eles também beneficiaram do pacote de estímulo das nações desenvolvidas, o que ajudou as exportações do petróleo. Entretanto, o dinheiro em fuga dos países desenvolvidos à procura de rendimentos superiores e para um problemático crescimento económico permite captar mais facilmente capital e a um preço mais baixo. Esse ciclo está a chegar ao fim…


A China oferece um exemplo destes problemas. Sobre-investimento em infra-estruturas produziram alcançar as metas de crescimento de curto prazo mas muitos dos projectos não são economicamente viáveis ​​e serão um futuro travão ao seu crescimento futuro. Muitos deles são financiados através do endividamento que já está a criar créditos de cobrança duvidoso créditos mal parados, dentro do sistema bancário exigindo o desvio de fundos para socorrer instituições com problemas de financiamento.

Um crescimento fraco na Europa e nos EUA, os seus dois maiores parceiros comerciais, reduzirá as exportações chinesas. As reservas de divisas da China, investidas em títulos do governo americano e da Europa emitidas em dólares e em euros estão a perder cada vez mais do seu valor pois estes títulos dificilmente podem ser vendidos e, se mantidos, serão pagos em moeda sujeita a forte desvalorização e com um menor poder aquisitivo, ou seja de menor valor em termos reais .

Imprimindo notas de dólar como o fazem os Estados Unidos, desvaloriza o dólar e cria uma pressão adicional sobre a China. Enormes fluxos de capital perturbam os pequenos mercados de capitais criando bolhas desestabilizadoras de preços dos activos.


Os produtos de base, as matérias-primas, cujos preços são negociados em dólares sobem em valor e por aí geram processos inflacionistas. A inflação interna força a mais altas taxas de juro, diminuindo assim a economia. A alta proporção de gastos com os bens e serviços essenciais e com a factura da energia nos países emergentes significa que uma maior proporção de rendimentos se torna necessária para o que é essencial, reduzindo o rendimento disponível e cria pressões para a subida dos salários.


Enquanto possa melhorar simultaneamente a competitividade americana e possa reduzir a dívida pendente, uma política de desvalorização do dólar americano pode desencadear guerras comerciais e sobre o valor das divisas. Há já acusações de proteccionismo, de manipulação das moedas e de concorrência desleal. Muitos mercados emergentes já puseram em vigor controles de capital, que serão complementados e reforçados por outras medidas tais como sanções comerciais. Mesmo o Banco Nacional Suíço anunciou recentemente que está a trabalhar para bloquear os movimentos de capitais que se têm estado a transferir-se para a Suíça e para o franco suíço à procura de um paraíso fiscal seguro, degradando o crescimento e a capacidade de concorrência da Suíça quanto às suas exportações.

As intervenções sobre o valor das moedas pode desencadear medidas de retaliação, a fazer recordar as guerras comerciais dos anos 1930 e que retardarão o crescimento global.


A saída pela porta dos japoneses


As preocupações actuais, em que a maioria delas é facilmente observável ​​nas variações selvagens dos preços dos activos em investimentos de capital, são impulsionados pelas preocupações objectivas mas também pela ausência de opções de política credíveis.


O resultado mais provável é um prolongado período de baixa taxa de crescimento, análoga à Ushinawareta Jūnen – uma década perdida ou mesmo de duas. Na melhor das hipóteses teremos é um lento declínio nos padrões de vida e de riqueza como se estejamos agora apagar os excessos do passado. O risco de instabilidade é muito alto, uma correcção mais violenta e um colapso no mercado, como em 2008 ou ainda pior, são agora possíveis.


Frequentes rumores de pânico associados à alta volatilidade assim como ao facto de que a economia global está em desalavancagem para reduzir a dívida, são prováveis. Os problemas criados gradualmente ao longo de mais do que as três últimas décadas podem somente ser lenta e dolorosamente corrigidos.

 

O som assustador do stick shaker pode por vezes ser ouvido nos registos de voz das caixas negras quando se está perante aviões condenados já a uma queda praticamente imediata. O leme de controlo da economia global esstá a ser sacudido violentamente. Resta-nos esperar para ver se a direcção da economia pode voltar a ganhar o controle do avião e conduzir o avião a aeroporto seguro ou se tudo isto com uma queda brutal .

 

Satyajit Das,  Economic Stall Speed, disponível em:

www.eurointelligence.com

28.09.2011


Satyajit Das  é autor de  Extreme Money: The Masters of the Universe and the Cult of Risk (August 2011)

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