Rascunho de um longo bilhete-postal que já não serei capaz de escrever – II. Por Júlio Marques Mota.

(Continuação)

 

Também é normal que os filhos do meu país tenham o mesmo sentimento quando aparecem no quadro de honra da sua escola,  quando sabem que a sociedade lhes prometeu um pagamento de 500 euros,  uma dívida que poderia circular livremente e que algum financeiro ainda poderia titularizar,  se dada a ganância com que andam,  os deixassem negociar.  Mas os filhos do meu pais,  enganaram-se duas vezes.


Enganaram-se a primeira fez  porque não sabendo nada da crise são também eles que a têm de pagar,  mesmo que seja com o frio que pelo corpo se lhes há-de entranhar.


Enganaram-se uma segunda vez mais,  porque o governo do seu país mais parece um grupo de gente licenciada e bem formada a captar o rendimento que os trabalhadores andaram a ganhar e tudo isto para uma outra dívida honrar: a que aos interesses financeiros se deve pagar,  mesmo que para isso aos nossos jovens tenhamos também que defraudar. As dívidas que a sociedade nos deve, via Governo, essas não são para pagar,  não são para honrar,  reconhece-se agora.  Não sabia.


Ora o senhor ministro sabe ou deve saber que cada um de nós a chegar sempre em extrema dificuldade ao fim de cada mês com o que nos deixam depois de tanto nos andarem a roubar,  cada um de nós ainda pode ir junto do livreiro local, junto do merceeiro local, ou de um outro estabelecimento congénere, o seu rendimento antecipar, digamos mais simplesmente, ainda pode comprar fiado. O menino pobre que eu fui lembra-se hoje como ontem, como há cinquenta anos diremos, de muitas casas pobres que como marçano assim serviu e a vender fiado ao mês muita fome assim se impediu. Muitos dos meninos desse país, terão também esta antecipação feita,  overtrading dizem os economistas pois trata-se de consumir um rendimento que se ainda não tem, um rendimento futuro que hão-de ter, terão então antecipado o dinheiro, terão comprado fiado porque a certeza do dinheiro a receber tinham no coração e são eles,  que agora têm de honrar a honra perdida pelo senhor ministro, sem nenhuma lágrima amarga pelo chão caída, quando tiverem que pagar o que o senhor lhes não deu,  ou ainda o que o senhor ministro lhes roubou.  Lembro-me aqui de uma mãe que vi na televisão dizer que antes de ir à livraria tinha que passar pela ourivesaria,  os livros são caros,  alguns mesmo inacreditavelmente muito caros,  todos o sabem mas sobre isto ninguém faz nada. Quem sabe se não estará o filho desta senhora nesta situação? Não sei,  mas sabemos que alguns nessa situação possivelmente estarão e sobretudo dados os preços estratosféricos que pelos livros pagarão,  aos Paes do Amaral do grupo editorial Leya como a outros editores do Império escolar estarão a engordar.


Enganaram-se uma terceira vez , os filhos do meu país e, agora, pela mão do seu ministério,  que seu defensor por hipótese seria.  O dinheiro,  esse terá de reverter a favor de outros necessitados como se quase todo esse país não seja um país de jovens necessitados,  necessitados muitos de comida,  de casa em condições,  de dinheiro para livros e de justificação também para os elevados preços praticados,  necessitados muitos deles senão quase todos de esperança de futuro condigno que não vislumbram. Honra sua muito mal perdida, senhor ministro e ei-lo a defender o que ninguém com dignidade defenderia: o problema dos prémios não era um problema de promessa não cumprida,  da dívida não liquidada,  não,  o problema era apenas um problema de comunicação quanto à informação de que dinheiro nenhum eles teriam.  Espantoso,  senhor ministro, economista de formação e matemático por graduação,  de sólida formação havida e creio que mantida,  o tempo com tudo o que de diferente implica afinal para si não existe,  pois o prémio ser devido a um comportamento de ontem,  com contratos firmados,  com uma dívida na verdade garantida é para si equivalente a um contrato futuro com regras ainda por estabelecer,  em que tudo se pode mudar,  como até o projecto de contrato poder rasgar.  A palavra tida,  havida,  respeitada,  salvaguardada,  na lógica do ministro da Educação,  essa, não tem sentido.  Que exemplo é,  o mínimo que se pode dizer!

 

 

Mas uma lógica do tempo de Salazar aqui se sobrepõe: este meu raciocínio está errado,  porque quem recebe o dinheiro serão pois os necessitados deste país a quem os nossos estudantes premiados o vão destinar, afirmação verdadeira sim senhor, com uma condição necessária mesmo que possa não ser suficiente: os meninos pobres deste país não vão entregar dinheiro nenhum pela simples razão de que,  na sua qualidade de estudantes pobres prémios escolares nunca conseguirão ganhar e, portanto, aos jovens carenciados financeiramente o Governo não está a roubar,  está,  antes pelo contrário alguma coisa a dar, a partir dos prémios de que os jovens filhos da burguesia premiados coercivamente vão abdicar! E isto tem um nome, senhor ministro,  nome que António Barreto não pronuncia, mas claramente lhe chamo fascismo moderno,  fascismo do Século XXI, um tipo de fascismo inscrito como matriz no quadro do sistema neoliberal da economia globalizada e estabelecido pelos grandes operadores dos mercados mundiais,  de que falaremos a seguir e,  como tal,  independente das pessoas que chegam ao poder. Isso reconhecem bem os Indignados de Nova Iorque quando nos dizem que hoje a Democracia é o direito de votar entre “ o mal e o pior”.  Entre Sócrates e Passos Coelho,  entre Zapatero e Mariano Rajoy,  entre Sarkozy e François Hollande,  entre Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, a cumprir o modelo serão apenas os pequenos detalhes que marcam a diferença entre eles,  entre o mal e o pior,  sem que se saiba quando é que se está perante um ou perante o outro.


Enganaram-se uma quarta vez, os filhos do meu país. Suposto então por esta lógica que os filhos dos pobres, pobres são, que prémios escolares nunca ganharão, resta-nos ainda falar daqueles que os ganharam e que igualmente o respeito merecem. São jovens, não adultos jovens,  têm comportamentos adequados à idade que têm, têm necessidade de estímulos de acordo com a sociedade em que vivem, e merecem todo o nosso respeito, merecem o respeito de exigir que os compromissos assumidos devam para com eles serem respeitados.  Não é também para eles o mínimo, ou não são eles adultos em formação?


Sinto revolta, sinto náusea, face aos governantes do meu país e afinal por si também, senhor ministro,  e acho que chegámos a um tempo de desprezo,  desprezo pelo poder que se assume explicitamente como um Robin dos Bosques ao contrário, Robin dos Bosques dos ricos,  capaz de roubar legalmente aos pobres para aos ricos a fortuna garantir,  através de uma ditadura que está já a construir.  Roubar legalmente? O que se quer com isto dizer? Vejamos sobre isto o que nos diz um dos maiores especialistas em criminalidade financeira internacional,  Jean de Maillard autor de um livro extraordinário, A Golpada, que um editor se espera neste nosso Portugal agora quase que falido poder encontrar:

 

“O privilégio da ilegalidade legítima é a prerrogativa de agir acima da lei mesmo que esta se deva normalmente aplicar e este é contraponto do monopólio de quem faz a lei.  Porque para mudar a lei é necessário estar acima dela,  e com mais força de razão para obter a impunidade se se age contra ela ou fora dela.  É por isso que o poder de fazer,  desfazer,  ou de agir fora dela se tem confundido com soberania,  com o soberano.


O que distingue os estados democráticos dos outros não é a supressão deste monopólio,  da ilegalidade legítima, que seria sempre arbitrária,  mas sim com o facto de que este privilégio não está ligado,  pelo menos em princípio, às pessoas dos seus dirigentes, mas sim que esta prerrogativa se exerce no interesse do próprio Estado.


O que é característico das sociedades democráticas é o enquadramento do uso da ilegalidade legítima.”,  O que se faz pela presença de organismos de contra-poder e também pela participação activa dos eleitores, de que a América de Obama nos dá bons exemplos. Ora, os contra-poderes institucionais na sociedade portuguesa estão,  desde Sócrates,  bem reduzidos e esse movimento entrou agora em velocidade acelerada para destruir o resto. Quanto aos eleitores, Passos Coelho, como o actual primeiro-ministro inglês aliás, já bem às forças militarizadas se referiu, pois nada na sociedade pode haver que contrarie a sua eficácia na submissão aos mercados financeiros.

  

Mas diz-nos ainda Maillard que aqui estamos a resumir:


“Desregulando e desregulamentando a mundialização financeira,  os Estados e as Instituições Internacionais não submeteram a economia internacional e o sistema financeiro mundial à lei dos mercados – entenda-se aqui por economia de mercado a economia entendida pelos clássicos – como nos pretendem convencer. Contentaram-se em retirar aos governos os instrumentos directos da sua geopolítica abrindo aos mercados financeiros,  o monopólio da ilegalidade legítima.  O resultado não foi a generalização da economia,  como o afirmam os partidários da desregulação,  mas a deslocação dos poderes de mercado para aos mercados financeiros.  Instalados estes no topo deste sistema,  estes últimos substituíram-se aos Estados no seu papel deregulador da economia e mesmo da política”.

 

Somos claros, de acordo com Maillard, a globalização vai obrigar com mais ou menos intensidade a que os países sejam levados a ficar sujeitos à ditadura dos mercados e os aparelhos de Estado são afinal a correia de transmissão do que aos mercados globalizados interessa, os seus servidores diremos, e tudo isto por efeito da própria globalização.  Da Democracia,  fica apenas a imagem,  a simulação,  e será tanto mais simulação quanto para esta situação contribuírem pessoas inteligentes como o senhor Ministro,  porque aí se aumenta o poder de convencimento,  de manipulação aberta.  Por outro lado,  o poder que antes era dado ao sistema pelas correias de transmissão,  de justificação e de imposição da ditadura de então,  chamem-se Mocidade Portuguesa ou outras bem mais sinistras como a PIDE/DGS,  a Legião Portuguesa ou as redes de informadores que tudo vigiavam são agora substituídas pelo rolo compressor da precariedade,  pelo medo ou pela ameaça do desemprego, pelo medo da instabilidade profissional, e as múltiplas avaliações a que cada trabalhador, cada funcionário, cada universitário, cada empregado na indústria de serviços,  está sujeito,  é a instalação disso mesmo, a de uma sociedade cuja estabilidade assenta no medo. Não menos útil neste trajecto vai ser a política de minimização cultural científica a que o país, na senda do governo anterior, vai vertiginosamente implantar e por isso nem na Universidade melhorias de qualidade significativas serão de esperar,  senão já há muito tempo contra o ensino que nelas se fazia deveria o senhor Ministro andar a protestar,  mas nessa postura,  pessoalmente nunca o vi estas questionar.  Não é de estranhar! E,  por fim,  na implantação das correias do fascismo moderno temos ainda a propaganda assente na máquina ideológica alimentada pela ficção da soberania dos mercados.  E por essa via se constrói o equivalente funcional do fascismo,  ou o fascismo moderno,  sem a terrível Polícia de Estado,  sem as Mocidades Portuguesas,  sem a Legião Portuguesa,  porque desnecessárias.  O medo está à escala do espaço onde está inscrito,  uma vez que restringe fortemente todas as camadas populacionais,  é agora intemporal,  porque veio e parece estar para durar se cada um de nós colectivamente o deixar,  é uma arma mais poderosa,  mais barata e mais cómoda ao que vos resta de consciência.  Deixe-me dar-lhe um pequeno exemplo,  ocorrido ontem junto a uma caixa de um Super Pingo Doce.  Estou na caixa,  para pagar,  chega a responsável pelo estabelecimento e diz à empregada de caixa: hoje vai almoçar às duas da tarde.  A empregada vira-se e diz: não pode ser.  Disseram que ia almoçar às 13. Combinei com o meu marido e com os meus filhos.  Se não pode,  escreva a dizer que não pode,  foi a resposta.  Oh,  isso não,  isso não, disse humildemente a empregada de caixa.  Então vai almoçar às 14 horas,  foi a resposta recebida.  O diálogo acabou aqui e sublinhe-se,  é proibido dizer-se que não se pode cumprir uma ordem,  porque a porta do desemprego está sempre aberta,  como uma ameaça.  Como se chama a um sistema em que situações como esta serão a regra geral? Tem nome e que nome  dará agora António Barreto e a Fundação por ele dirigida a este clima de trabalho?  É este sistema que os senhores estão a construir,  senhor ministro,  não o queira ignorar. 

 

(Continua)

 

Leave a Reply