Com François Hollande a Holanda, as vacas liberais serão bem guardadas! por Michel Onfray. Selecção, introdução e tradução por Júlio Marques Mota

Nota de introdução


Dedico a apresentação deste texto aos autores do nosso Diário de  Bordo


Criticado por alguns dos meus amigos por apresentar neste blog algumas posições radicais, ultra-gauche, davam-me como exemplo da crítica por eles efectuada o facto de apresentar François Hollande   como equivalente a Sarkozy. Leitura por lado apressada, leitura parcialmente correcta, por outro. Apressada porque nunca disse que são iguais, disse é que no contexto da crise actual não se  vislumbravam diferenças, o mesmo não se podendo dizer actualmente de Martine Aubry e actualmente é o termo que  sublinho. Leitura correcta, quando ele ou Sarkozy, Rajoy  ou Zapatero, e outras parelhas por essa Europa, estavam dispostos a fazer aprovar na Constituição a regra de ouro, ou seja, o travão do défice a ser introduzido na Constituição, o mesmo é dizer  dos défices vizinhos de zero a ficarem constituicionalmente estabelecidos. No caso espanhol, por exemplo, essa regra, a que Zapatero queria incluir, se aplicada de imediato levava à paralização do governo espanhol.


Mas sem política cambial, sem verdadeiramente política monetária adaptada às especificidades de cada país, quer isto dizer que esta medida, aprovada e na Constituição colocada, representa  substituir o governo de cada  países pelo  governo dos mercados quando se  assiste a que estes mesmos mercados completamente desregulados estejam actuaalmente ao assalto do património nacional de cada povo. Defender nesta fase esta política  não pode ser ignorância, não  pode ser engano, não, tem outro nome e cada um que o escreva, então. .

Curiosamente acabo de ler um texto de Michel Onfray sobre a mesma problemática a confirmar afinal que a leitura sobre a equivalência entre os dois personagens como sendo iguais, o que eu não disse, é a que está verdadeiramente correcta e portanto eu ficaria fora do alcance de qualquer daquelas críticas . Esta é  leitura de Michel Onfray. Mas, por este texto aqui apresentado se a Portugal fosse aplicado, vemos também passar figuras equivalentes a Francisco Assis e António José Seguro. O tempo irá mostrar se António José Seguro é o equivalente de Hollande,  de Martine Aubry, mesmo que a Aubry de hoje nada tenha a ver com a de 1997,  ou de Arnaud Montebourg, ou se está entre quem.. Que pensam os viajantes argonautas, que pensam os leitores destas águas e do barco que por eles as atravessa? Por mim, e não creio confundir a nuvem com Juno, penso que José Seguro está mais próximo deste último ou entre Martine Aubry e Arnaud  Montebourg e e é disto,  face  à clara ascensão neofascista pela mão do actual executiva trazida, que o nosso País hoje bem precisa, de lideres claramente de esquerda. Não nos pode esquecer que na Assembleia temos uma linhagem de deputados na sua maioria propostos e escolhidos pela equipa de Sócrates o que reduz o espaço de manobra  de António José Seguro.  O debate e a posição do PS face à  vergonhosa proposta actualmente apresentada na Assembleia para aprovação ir-nos-ão dar de tudo isto uima visão mais clara. E aqui digo, espero francamente não estar enganado até porque para além dos dados da sua campanha, relativamente a Francisco Assis, há  as suas recentes posições contundentes face à União Europeia,  a mostrarem uma outra consciencia política dos problemas, das suas causas e das suas saídas,  e é em tudo que baseio a minha opinião. 

 

Coimbra, 22 de Outubro de 2010.

Júlio Marques Mota

 

 

Com François Hollande a Holanda, as vacas liberais serão bem guardadas!


Michel Onfray, filósofo,


François  Hollande  será pois o candidato dito “socialista” às eleições presidenciais. Aqui teremos por conseguinte um candidato socialista e liberal. François Mitterrand não terá que saltar do seu túmulo. François Fillon, actual primeiro-ministro de França também não, ele que fez saber ainda há pouco uma bela confissão ao Partido socialista, que esperava que este partido permanecesse efectivamente o seu cúmplice na gestão liberal da França e que esperava também que este mesmo partido saberia resistir às sirenes “esquerdistas” de Arnaud Montebourg. As vacas liberais serão pois bem guardadas …


Não sei se o grande vencedor destas primária foi François Hollande, mas o que sei, é que a perdedora foi Martine Aubry. Esta mulher acusava François Hollande de encarnar a “esquerda frouxa “ pensando que isso seria suficiente fazer dela a candidata “de uma esquerda dura” mas com isso não enganou ninguém.


Estes dois candidatos e adversários eram efectivamente a frente e o avesso, a cara e a cora, da mesma medalha,  a esquerda frouxa. É esta a razão pela qual  não fui votar à segunda volta das primárias depois de ter votado Arnaud Montebourg na primeira volta, porque era o único a ter um programa de esquerda.


Contrariamente à primeira volta, com a segunda consulta não se tratou de uma questão de importância para as gentes de esquerda, mas sim de uma questão entre socialistas – e eu não o sou.


Martine Aubry terá pois conseguido ter um belo resultado: titular do posto de Secretária-Geral do partido aquando do lançamento das primárias, não obteve nenhum apoio dos outros candidatos, uma vez que todos trasnferiam esses apoios para mais tarde, desde a ala de direita de Manual Valls, à ala esquerda de Arnaud Montebourg, passando por Ségolène Real, candidata “do socialitude”, e por Jean-Michel Baylet, porta-voz dos fumadores “de hasch”, sobre François Holande.


Esta mulher que fustigava a “esquerda frouxa “ foi, segundo Le Canard Enchainé nos lembrou bem isso mesmo esta semana, quem prefaciou um livro do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair em 1997. É necessário lembrar que esta esquerdista de choque se aliou com o Modem na sua cidade; que reservou horários próprios na piscina municipal  para as mulheres muçulmanas; que acordou um pacto dito de Marraquexe com Domínique Strauss-Kahn e este último fez saber que tinha votado por ela nas primárias,  que Bernard-Henri Lévy tinha assumido a sua defesa, que Alain Minc é seu amigo, isto é como afirmar quanto o seu gauchismo mete mêdo.


Acrescente-se a tudo isto a hipótese extremamente provável de uma ida maciça às urnas, para privar Segolène Real da direcção do partido e, isto explicaria aquilo, o apoio explícito de um patrão socialista de uma destas grandes Federações que, antes das primárias, faziam e desfaziam os reis e rainhas e que foi acusada de estar implicada em pagamentos indevidos, que  defendia ela mesma uma esquerda moral que às vezes fazia engolir cobras e lagartos da esquerda liberal…


François Hollande, pois. Com ele, a viragem liberal estará bem guardada. Maastricht, a Europa do pai de Martine Aubry , o euro, o desrespeito pelo povo soberano que disse não à reforma do Tratado Constitucional e ao qual se fez  a afronta de lhes enviarem os profissionais da política politiqueira do Congresso contra ele como outros enviam a tropa, aqui está o passivo político deste homem do qual se diz que se nada tivesse feito, seria bem melhor (on dit qu’il n’a rien fait – il eût mieux valu) …


Para acautelar o seu futuro – diz-nos o mesmo Canard Enchainé – François Hollande já se terá encontrado com François Bayrou para evocar um programa comum de governo, depois de 2012.


Provável futuro presidente da República, este efectuará a síntese, a sua característica mais conhecida, dos chefes de Estado da Vª República: terá o mesmo professor de ginástica e de dicção que De Gaulle, a mesma inteligência política que Georges Pompidou, a mesma  música que Valéry Giscard de Estaing, o mesmo esquerdismo que François Mitterrand, a mesma Corrèze que Jacques Chirac que, efectivamente compreendeu quem era este personagem, e igualmente um novo e brilhante matrimónio como Nicolas Sarkozy.


E o povo? A miséria? O desemprego? A pobreza? A laicidade? O lugar do Islão na República? A privatização da saúde ou a idade de passagem à reforma? Tantos assuntos habilmente evitados aquando dos diferentes debates. E quem é que os vai enfrentar ? Com muita dificuldade nos podemos atrever a lembrar a estes socialistas que Marine Le Pen se propõe ocupar-se deles uma vez que o PS a tudo isso renunciou desde 1983 com a sua viragem liberal. Ver-se-á brevemente com que resultados…


Permanece a esperança levantada por Arnaud Montebourg, que permitiu que se ouvisse uma verdadeira voz de esquerda no Partido socialista. Desejou colocar à esquerda o seu partido, convidando os candidatos a retomarem algumas das suas teses : a VIª République, a proibição do cúmulo de mandatos, a moralização da vida política, tudo isto  podia ser franca e claramente retomado sem perigo para os dois finalistas pela sua linha liberal. Não foi nada assim…


Desde  então, responsável mas não culpado, Arnaud Montebourg assinalou a sua escolha pessoal e precisou que não fazia nenhum  convite para o imitarem. Que fará ele? É jovem, tem talento, segue uma linha clara desde a sua recusa de Maastricht. Se tudo for bem, tem três, ou mesmo quatro presidenciais à frente dele. Que fará deste capital? Ouso aguardar que mais se irá saber e em menos tempo do  que o que foi necessário a Nicolas Sarkozy para ter um filho…


Resta-nos a constelação da esquerda antiliberal que tem a minha preferência  – mas que me faz desesperar pelo seu ardor em recusar qualquer união. Oliveira Besancenot atirou fora a esponja do NPA finalmente trotskista a favor de Philippe Poutou – se eu fosse adepto de Lacan, que a Deus não agrade…


“Os arlettistas” continuarão encarnar a pureza no seu pequeno cantinho. Jean-Luc Mélenchon alternará com talento a defesa brilhante de justas propostas e a acumulação de coisas estúpidas como apoiar Fidel Castro, a política chinesa no Tibete ou a virtude dos enforcamentos de Robespierre.


O PCF, em jeito de Janus ameaçado de torcicolos, uma doença que nele é crónica desde o pacto germano-soviético, falará à esquerda contra os socialistas e agirá com eles para defender os seus membros permanentes, os seus eleitos, os seus quadros. E o empobrecimento continuará a ser cada vez maior…


Não gosto de François Mitterrand, sabe-se. Mas é necessário reconhecer o incrível génio de ter conseguido unir a esquerda, o que permitiu agrupar em torno da sua pessoa um farmacêutico radical-socialista, um antigo comunista estaliano do STO e, sobretudo, os seus eleitores. Com Robert Fabre e Georges Marchais, ele começava de muito longe , vê-se, como um homem político que hoje quisesse renovar a proeza da união da esquerda. Nada se perdeu, portanto …


Na mecânica eleitoral da Vª República, a esquerda antiliberal não chegaria ao poder a não ser solidamente unida. Enquanto estiver no combate dividida, far-se-á pulverizar. É necessário um estratega semelhante ao François Mitterrand dos anos 70. Porque não pedir à Arnaud Montebourg que pense nisso?


Michel Onfray, Avec François Hollande, les vaches libérales seront bien gardées !Le Monde, 19.10.2011.

 

Michel Onfray, filósofo, fundador, em 2002, da Universidade popular de Caen


Michel Onfray apoiou a candidatura de Arnaud Montebourg nas primárias socialistas (“Le Monde” 23 de Setembro), considerando que era o único “antiliberal”.

Entre as suas últimas obras , Le Crépuscule d’une idole. L’affabulation freudienne (Grasset, 2010), La Construction du surhomme (Grasset, 480 p.) et Manifeste hédoniste (Autrement, 168 p.).

 

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