O Pato algemado – 8 – coordenado por Carlos Loures

O Pato algemado

 

 

 

 

O protagonismo

Vamos lá assentar ideias – a palavra protagonismo é formada por duas raízes gregas: proto, que significa ‘o primeiro, o principal’; agon, que significa ‘luta’. Agonistes, por sua vez, significa ‘lutador’. Protagonista quer dizer, então, lutador principal, personagem principal, actor principal. Tomaram nota?

Os dicionários antigos não registam o termo. (a maioria dos dicionários modernos também não).

Começamos por remediar essa falha – deveriam dizer:

 

Protagonismo, s.m. – 1 Condição assumida pela pessoa ou pela coisa que desempenha o papel principal numa obra, num facto ou num acontecimento. 2 Tendência que algumas pessoas têm para estar sempre no primeiro plano de um dado contexto ou para se mostrarem como sendo a pessoa mais qualificada. m. Condição de protagonista.

 

O que não significa que antes de o termo existir, não houvesse pessoas ávidas de dar nas vistas, de sobressair, de se pôr em bicos de pés…  –  de protagonismo – sempre as houve. Vejam o Mussolini, por exemplo:

 

 

 

Rapaz modesto, o Benito. O “nosso” (salvo seja!)  Salazar, por exemplo, era um anti-protagonista e os protagonistas para ele iam de carrinho… vejam-no lá em cima, reproduzido pelo grande João Abel Manta.

 

O Arnaldo Figurante, personagem da “Crónica dos Bons Malandros”, de Mário Zambujal, é um bom exemplo de protagonista falhado – contratado para entrar numa produção luso-francesa, julgando-se já um sério concorrente do Alain Delon, apenas aparecia no ecrã durante escassos segundos. Ele e os amigos foram ver o filme numerosas vezes – e havia um frisson durante aqueles momentos em que o Arnaldo aparecia no meio de uma multidão a correr.

Um exemplo de ânsia de protagonismo é-nos dado pelas imagens iniciais do filme “The Party”.Imagine-se um humilde actor indiano que consegue um papel ínfimo, no limiar da figuração, numa grande produção holywoodesca. Com os gaiteiros escoceses à frente uma coluna do exército britânico vai atravessar um desfiladeiro onde rebeldes indianos montaram uma emboscada. Quando a coluna vai ser massacrada, um corneteiro indígena, embora ferido, arrasta-se até a uma colina de onde com grande esforço avisa com a sua corneta o destacamento de que vai ser alvo de uma emboscada. Um rebelde dispara-lhe um tiro, mas ele, sangrando, dá mais um tiro. Em suma, crivado de balas, continua a tocar. Todo o poder de fogo dos rebeldes está concentrado no corneteiro, mas ele continua sempre… 

 

Um figurante como o Arnaldo do Zambujal acaba por destruir o caríssimo cenário, acionando antecipada e acidentalmente os explosivos que só deviam rebentar no final da cena. Tudo porque o corneteiro (o grande Peter Sellers) não se conformando com a modéstia da sua intervenção a quis transformar numa aparição heróica, émula do Gunga Din de Rudyard Kipling.

Vejam.

 

 

E  terminamos com um episódio de protagonismo rural. Os Gato Fedorento em «O Maior da Aldeia»

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