O saudoso tempo do fascismo – 35 – por Hélder Costa

Maio 68, Viagens, Exílios – I 

 

Nesta vida em bolandas que tenho levado, Deus ou o Destino, presentearam-me com alguns bons momentos.

 

Por exemplo: estava em Moscovo em Janeiro de 1989 convidado pelo Sindicato dos Actores para um congresso sobre Stanislawsky, na precisa altura em que o regime Soviético anunciava a sua queda eminente, apesar de tímidas aberturas (regresso de Vassiliev, reposições no teatro Taganka); estava em Cuba, quando pela primeira vez um ex-presidente Narte-Americano, o democrata Jimmy Cárter se dignou visitar o “inferno Castrista” segundo os democratas rapazes de Miami; estava em Milão no dia 15 de Agosto de 1970, quando senti na pele a grande golpada da inconvertibilidade do dólar maquinada pelo Nixon, o “Tricky Dicky”, pois precisava de trocar dinheiro e tudo fechou para novas contas devido à “habilidade” curiosamente sempre impune do tio Sam, o tal que se quer fazer passar pelo” tio da América” afectivo, terno e generoso.

 

Em 1983, em Lima, apagão pelas 8 da noite e no alto da montanha archotes’ escreviam a palavra Sendero aterrorizando a então (e espero que tenha mudado), miserável e imunda capital do Peru.

 

E estava no Brasil a encenar “O. João VI”, a peça com o inesquecível trabalho de Mário Viegas no papel do Rei timorato e infeliz mas “uma das melhores pessoas do seu tempo” segundo Raul Brandão, com a companhia “Ensaio Aberro” no centro Cultural do Bando do Brasil. Esse trabalho começou em Outubro de 2002 e ¬outra dádiva do Destino -, assisti a roda a campanha e investidura do presidente Lula, um terramoto a nível Brasileiro e mundial das campanhas eleitorais.

 

Recordo também um pequeno-almoço em 1981 com o Reitor de Harvard em Providence, na sequência de espectáculos que A BARRACA tinha dado nesse cir¬cuito Universitário que englobava ainda Cambridge e Brown.

 

 Comecei por dizer que nós, na Europa, não tínhamos percebido como tinha sido possível o Reagan ter chegado a presidente dos USA.

 

Ele era um senhor de idade, com barba, ar sóbrio e elegante.

 

Parou os gestos, correram duas, três lágrimas pela face:

 

 – Nós também não percebemos. Depois

 

Contou-me que a primeira decisão de Reagan tinha sido abolir o copo de leite obrigatório que era dado nas escolas a rodas as crianças.

 

– Sabe o que vai ser este país? Analfabetismo, culto da guerra, da violência … uma fábrica de mercenários …

 

 Claro que também não foi por acaso que a máquina de Hollywood da era Reagan começou por apresentar o delicodoce “Oficial e cavalheiro” glorificando a carreira militar e o amor bem comportado da noiva com flor de laranjeira, a que se seguiu a heróica série do Rambo …

 

O velho Reitor tinha acertado na “rnouche”. Bem, houve um momento que eu falhei. Foi o 25 de Abril, estava em Paris, na tal situação de exilado, momento da minha vida que eu prefiro apelidar de “bolseiro de Salazar”.

 

O que me valeu a grande sorte de estar no Maio de 68.

 

Antes de falar deste movimento, aproveito para falar um pouco do exílio. Devo dizer que considero o termo exílio muito forte para a situação em que nos encontrávamos.

 

Exílio é uma palavra que se costuma recordar nas situações de ostracismos das tragédias gregas, dos exilados liberais de 1820, dos desterrados para ilhas desertas e longínquas, Timores, costa de Africa e outra família do mesmo género.

 

 

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