Diário de bordo de 23 de Outubro de 2011

 

Viu-se ontem na grande manifestação em Bilbau que a desactivação do aparelho militar da ETA não significa a rendição dos independentistas bascos à lógica do centralismo castelhano e o fim dos problemas para Madrid. Significa, sim, o início de uma nova etapa no caminho do povo basco para a sua plena independência. Nos dias de hoje, o terrorismo ´”puro y duro” utilizado pela ETA, constituía o mais poderoso argumento do estado espanhol. Porque dizer-se que “não há inocentes”, como diziam alguns dos defensores da acção política violenta, é uma falácia – que culpas têm uma criança ou uma dona de casa que num supermercado são mortos por uma bomba? Claro que há inocentes e esse tipo de acções ao matar ou mutilar indiscriminadamente não tinha já justificação nem sustentabilidade.

 

 

 O “terrorismo” hoje em dia exerce-se de forma mais elaborada, mais subtil e asséptica – por exemplo, fazendo que os trabalhadores e os pensionistas de um país, paguem os erros dos políticos, a corrupção e o roubo gerados pelas clientelas partidárias. Com a manifestação de ontem, a esquerda abertzale (ou seja, o conjunto dos que defendem a independência total) demonstrou que o terrorismo terminou, mas o conflito político continua em aberto. Como podemos ver na fotografia, à cabeça da gigantesca manifestação, uma palavra de ordem exigia «Solução para Euskal Herria».

 

Lembramos que na base deste novo patamar da luta pela independência do País Basco, está o acordo assinado em Guernica por mais de 300 partidos, sindicatos e organizações sociais. Na manifestação de ontem assinale-se, as chamadas «forças da ordem» não foram chamadas a intervir – a grande multidão de manifestantes não provocou os habituais distúrbios e correrias. Em frente do município de Bilbau, houve discursos em euskera e em castelhano. O tom dominante foi de firmeza na exigência da legalização de todas as organizações políticas e do respeito pelos direitos dos presos. Lamentou-se todas as vítimas e apelou-se aos governos de Madrid e Paris para que ponham fim a décadas de confrontação armada. Na realidade, é a ocupação de um país por forças estrangeiras que gera o terrorismo.

 

Um novo cenário político se abre na luta pela independência basca, a qual entrou numa fase nova e, talvez, decisiva.

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