(Conclusão)
E que fez o actual primeiro-ministro inglês em Março? Reuniu-se com as altas patentes militares, a fazer fé no jornal Guardian, para se prepararem para os motins que haviam de vir, tendo em conta as fortes medidas de austeridade a que a Inglaterra ia ser submetida. E as medidas vieram! E os motins, esses, vieram também. E hão-de continuar a vir. Face aos violentos distúrbios de Londres, estes mesmos senhores vieram gritar bem alto, todos eles, governo e oposição que as políticas de austeridade recentemente impostas pela pressão dos mercados não têm nada a ver com isto. Naturalmente assim, pois estas são o preço a pagar para saciar os mercados, estas são as únicas políticas que David Cameron, no poder, entende realizar, estas são, pelos vistos também, as políticas alternativas que Ed Miliband estará disposto a oferecer quando as rédeas do poder puder receber. Uma espécie de Sócrates e Passos Coelho por ordem inversa, é o que o actual plano político inglês pode oferecer. ”
E a minha carta ao ministro continuava:
“Em Portugal, os saqueadores de luva branca tal como em Londres estão bem abrigados, o caso do BPN, os bónus do BCP, os lucros da operação Vivo desviados aos impostos, a repartição actual dos cargos na Caixa Geral dos Depósitos sem por uma só vez se questionarem as remunerações da banca em Portugal, o silêncio face aos paraísos fiscais, mostram-no bem sem qualquer margem para dúvida, enquanto os outros, os sem direito a nada, esses poderão aparecer na primeira esquina, quando ninguém os espera e não vale a pena chamar as altas patentes militares como Cameron o fez. Não esqueçamos George Orwell e a crise, não esqueçamos o seu aviso de que há duas escalas de valores, duas métricas, a da ética e a do estômago, sendo que o problema é grave, muito grave mesmo, quando os valores da segunda escala, a do estômago, se sobrepõem aos da primeira escala, a da ética. Quando assim for e se assim for, será terrível. ”
Como se vê agora pela sua mão ordenada, o governo tem mais facilidade em roubar os 500 euros a um adolescente, a um jovem adulto ainda em formação quefazer uma séria política fiscal fortemente progressiva em que as remunerações do capital sejam tributadas ao mesmo nível pelo menos que as remunerações do trabalho. Da tolerância Zero, para uns, para os looters colectivos que assaltaram as lojas, da tolerância Absoluta para os grandes looters dos mercados financeiros que assaltaram países inteiros e populações indefesas, e Cameron tem mais medo dos mercados que das populações precarizadas pelos seus duríssimos programas de austeridade que nem no tempo da Dama de Ferro, eis pois o sentido da igualdade de Londres ou de Lisboa, de Cameron ou de Passos Coelho. Democracia, dirão eles.
Mas hoje senhor ministro, leio um jornal da minha terra, de Setembro de 2011 onde uma das caixas do jornal era: “A freguesia de Fratel está a saque”.
Enumeração de roubos: 1. três roubos distintos de fio de cobre da rede eléctrica, deixando uma povoação sem electricidade; 2. roubo de alfaias agrícolas; 3. Roubo de um tractor e de uma caçadeira; roubo um outro tractor; 5. Roubo em casa arrombada em pleno dia; 6. Assalto a uma capela via telhado de onde levaram a imagem, de São Bento. 7. Assalto a uma outra habitação onde roubaram ouro. 8. Roubo das baterias da empresa que procede à construção da nova estrada que ligará Proença à A 23; 9. Roubo das baterias do pronto-socorro da empresa Auto-Fratelense. 10. Roubo de um tractor guardado numa garagem.
E o jornalista pergunta: com tanta roubalheira quem nos acode? E que responderá o governo a esta pergunta publicamente colocada? É certo que estes ladrões, não geram instantaneamente situações colectivas de roubo, como em Londres ou algures, é certo que por isso politicamente perigosos não são, e será por isso certo que por esta razão está o governo calado, quando simultaneamente ameaça as manifestações que possam desembocar em desacatos? Lembremos que nos tempos do fascismo se introduziam provocadores para esses desacatos fazer, lembremos que na Puerta del Sol, o socialista Zapatero fez exactamente o mesmo para querer dizer, a seguir, que os manifestantes são provocadores. A leitura de Maillard, o triângulo das incompatibilidades, a realidade também, mostram-nos que Zapatero ou Sócrates, Cameron ou Passos Coelho a escolha é a mesma, porque todos eles se dispõem a bem servir a globalização, todos eles se dispõem a colocar o melhor e o mais rapidamente possível os respectivos países na situação expressa pelo lado direito no nosso triângulo. São eles ou o mal ou o pior, como já se disse… E como assinala o prémio Nobel em Economia Joseph Stiglitz, quem paga o flautista, escolhe a música, o que poderíamos aqui expressar da seguinte forma: de acordo com o modelo descrito por Maillard e confirmadíssimo por estes três anos de crise, são os mercados financeiros quem paga aos políticos, são pois eles que escolhem a política realizada e esta, no caso presente, está já escolhida, está escolhida pela Troika, mas ainda com a estranha ideia de que Passos Coelho e os seus ministros querem inclusive bem agradar àqueles que estão para lá da Troika, às obscuras forças que são os grandes operadores dos mercados financeiros e que a própria Troika levaram a que fosse criada.
Senhor ministro, sobre a minha pequena aldeia, Fratel, não se trata dos looters de Londres ou equivalentes a aparecer um destes dias em Lisboa, Porto ou outra cidade do país, a encherem as nossas avenidas de um mar de gente muito unida para a sua política contestar, trata-. se de confirmar que se está a transformar este país num país onde campeiam os ladrões, supostamente isolados, o que torna tudo ainda mais complicado.
Mas a pergunta fica no ar, como ficou a pergunta sobre Londres a muita gente, porquê agora, porque de repente hordas de ladrões, a colocarem as nossas aldeias, os nossos idosos, a saque?
Numa outra carta ao Ministro das Finanças e ao da Economia a não ser na altura enviada, eu achava que alguns dos nossos ministros ou eram maldosos ou ignorantes, mas a si, senhor Ministro de ignorante nunca poderá ser chamado. Dava como exemplo o documento oficial produzido pelo ministro das Finanças e argumentava logicamente que os dados aí apresentados enquanto projecções estariam possivelmente errados e publicá-los seria um acto de fé absoluta ou, se calhar, de má-fé até. Demonstrava-o ao nível do plano lógico. Leio o Expresso hoje, vejo como o ministro das Finanças é aqui tratado simplesmente por Gaspar e que vejo eu, que leio eu?
“Gaspar: vem aí a austeridade “permanente e estrutural. ” E o ministro terá falado de “medidas de austeridade permanentes estruturais”. Num outro local dava-se conta que o défice se afastava da meta ainda há muito pouco tempo afirmado pelo ministro de que seria de 5.9 e verificou-se que estava em 8, 3 do PIB. Assim estimativas profundamente erradas pela simples razão até que em regime de austeridade ninguém pode ter o controle antecipado do défice futuro, dadas as múltiplas ligações que a austeridade provoca sobre a redução das receitas. Simplesmente, acertei.
Deixemos o jornal Expresso, deixemos as previsões do senhor ministro Gaspar que valem o que vale a sua visão neoliberal do mundo. De mais nada deve saber e por isso fala com se todos nós sejamos parvos, a mostrar que subtrair, dividir, disso sabe bem. As suas medidas são as que lhe perspectiva a sua visão do mundo, do mundo de Pangloss, portanto toma por metodologia de medida das suas previsões a sua própria visão pessoal sobre o que vai ser medido e sobre o que desses valores lhe deve ser pretendido. Só assim se compreende aquele Documento de Estratégia Orçamental, só assim se compreende depois, a diferença dos seus resultados com os resultados conseguidos e em tão pouco espaço de tempo. Se assim não é, como se explica a diferença, como se explica que eu tenha acertado contra o ministro Gaspar de seu nome assim chamado?
Mas senhor Ministro, se de ignorante não pode ser chamado, então só se pode afirmar que o poder na sua corrosão dos homens e dos seus sentidos o transformou já num poço de maldade. É assim que se pode perceber a maldade a que sujeitou os nossos jovens pelo que lhes fez, pelo exemplo que lhes deu, pelo desprezo que lhes manifestou. Curiosamente, com a sua medida de anular a lei, a palavra colectivamente assumida, mostra bem que é o poder de fazer e desfazer da lei, é o privilégio da ilegalidade legítima que agora legitima, é o poder de reduzir a zero a validade da lei mesmo que para compromissos assumidos e já passados, é a mais absoluta discricionariedade por si agora assumida que nos confirma também, a uma escala menor é certo, o texto de Jean de Maillard acima citado e em Portugal bem confirmado.
E tudo isto porque na vossa lógica do poder, do mando, tudo é sacrificado no desejo de bem servir os mercados financeiros na sua avidez, não na sua racionalidade pois bem mostram que desta eles não têm nenhuma, tudo isto porque se despreza também o sentir das gentes que trabalham, tudo isto porque se despreza também o saber adquirido pelas lições da História e das Universidades também, desde que neoliberais não sejam. Deste modo é assim o nosso presente que o governo a nós, os mais velhos, está já a destruir e inegavelmente aos mais jovens mostra-lhes bem a indiferença que pelo futuro deles lhes vai garantir. Na corrida contra o vento a saber quem é mais rápido para servir a Troika, nas políticas de austeridade, é todo o sentido da Humanidade que o Governo está a colocar em risco e será esta austeridade que o senhor ministro aos jovens deste país irá aplicar. E quer-nos mentir e bem garantir que um melhor ensino pelas suas mãos e com estas políticas de brutal austeridade nos há-de vir a garantir! Como ignorante não é, aqui lhe deixo um pequeno excerto de um artigo e de um relatório da ONU para ler, para estudar, para meditar e que aos seus ministros colegas poderá na íntegra aconselhar, e onde se pode ler:
“Os voos dos aviões exigem que o fluxo de ar sobre as asas seja suave e a uma determinada velocidade. Fluxos de ar irregulares ou lentos podem provocar a queda do avião. Os aviões mais modernos estão equipados com um “stick shaker” – um dispositivo mecânico que vibra de forma rápida e ruidosa enviando um sinal de alarme para avisar os pilotos de uma forte perigo ou mesmo de uma possível queda eminente.
A economia global também tem necessidades de fluxos de ar suaves para que haja um crescimento económico, continuado e forte. Infelizmente, o mecanismo do avião, o stick shaker, está a vibrar de forma ruidosa e violenta a avisar que a economia global está em perigo de queda eminente”.
E o texto continua:
“Na melhor das hipóteses, as despesas governamentais serão cortadas ou os impostos aumentados para estabilizar a dívida pública como se o problema da solvência do sector público se tenha tornado a prioridade das prioridades. A redução nas despesas públicas vai desacelerar o crescimento, tornando a tarefa de recuperar o controlo das finanças públicas ainda mais difícil. Isso pode exigir cortes ainda mais profundos nas despesas públicas e impostos cada vez mais altos, afundando o mundo desenvolvido numa situação de um baixo crescimento durante um longo período. ”
Ena mesma linha se continua:
Os problemas criados gradualmente ao longo de mais do que as três últimas décadas só podem lenta e dolorosamente ser corrigidos. [1] “
Senhor Ministro, não se tratado texto de um radical, maoísta talvez, de livro vermelho lido, sabido, bem decorado, dirá, mas não, trata-se de um texto de um dos mais importantes analistas sobre mercados derivados, sobre CDS e outros derivados de onde derivam parte dos nossos problemas, Satyajit Das. Leia-o na íntegra, divulgue-o, pelo Conselho de Ministros que Passos Coelho bem precisa de o ler, ao ministro da Economia far-lhe-á falta, mas não o distribua pelo ministro das Finanças pois este só percebe de tesouras da mesma forma que o nosso Presidente da República parece só perceber de vaquinhas. Leia-o, nele reflicta e tente fazer o seu possível para que não se corra à frente do vento para ultrapassar a Troika pela direita, defenda que se vá lenta e dolorosamente no sentido correcto, tente ser antes um Bibikov e venha-se embora.
Ainda é tempo.
Mas ainda daqui, da raiva de alguém que de tudo isto, deste brutal desprezo por toda a gente se sente ressentido e contra toda esta lógica se sente envolvido, lhe deixo um recado vindo da ONU, no seu mais recente relatório:
Excertos retirados de The Global Social Crisis Report on the World Social Situation 2011:
“A key conclusion of this Report is that countries need to be able to pursue countercyclical policies in a consistent manner. Such policy space should be enabled by changing the fundamental orientation and nature of policy prescriptions that international organizations impose on countries as conditions for assistance.
Meanwhile, austerity measures in response to high government debt in some advanced economies, such as Greece and Spain, are not only threatening public sector employment and social expenditure, but are also making the recovery more uncertain and fragile.
More importantly, the responses to the crisis have not addressed the fundamental causes of the crisis. For example, financial reform in major economies has not matched initial expectations and exposes the recovery to new abuses, excesses and vulnerabilities. There are signs that this is already happening. The failure to address the root causes of the crisis will impede a sustainable recovery.
The longer-term adverse employment consequences of the current crisis are already visible and, in most countries, youth unemployment has reached alarming levels”. [2]
As lições aqui lhas deixo, com a certeza que as lerá e quer Satyajit Das quer a ONU convergem nos avisos sobre a crise social que o Executivo a que pertence está a gerar. Entenda estes avisos, senhor ministro.
E é tudo.
Coimbra, 2 de Outubro de 2011.
