A nova política, – entrevista com Antonio Negri

 

Vivemos a derrota do neoliberalismo e a tragédia da esquerda

Hoje a Praça da Revolta vai ser ocupada por Antonio Negri: “Chegamos a um momento que a produção se tornou cada vez mais imaterial. Sempre haverá uma necessidade de elementos ou momentos hierárquicos para que o valor produzido possa ser colectado e classificado, mas já não há nenhuma necessidade da propriedade privada como centro da produção e do desenvolvimento”. O comentário é de Antonio Negri em entrevista ao grupo espanhol autogestionário La Tabacalera. Antonio Negri (Pádua. 1933) é um filósofo e um político marxista italiano. Contamos apresentar, dentro de dias, texto sobre a sua vida e a sua obra. Eis a entrevista

.

 

O que sabe o senhor sobre o 15-M?

 

Como qualquer outro, tenho ouvido falar muito do movimento. Tenho amigos que nele participam desde o início. Nasceu de forma espontânea, mas para o avaliar melhor teremos que esperar um pouco.

 

O que é pior nessa crise, a recessão económica ou a desilusão ideológica que provocou?

 

A crise é verdadeiramente profunda. Poder-se-á sair dela, mas não será imediatamente, mas apenas quando houver uma mudança profunda. É uma crise nova por diferentes aspectos. É evidente que está a modificar as abordagens ideológicas. As ferramentas que o capitalismo tem para sair da crise não são suficientes. No momento não temos meios para a ultrapassar e devemos pensar em novas maneiras de escapar dela. Por enquanto, as ideias existentes esão um pouco confusas. Parece-me lógico e necessário que nasçam diferentes pontos de vista opostos ao capitalismo, como o 15-M. Mas devemos reflectir sobre esses movimentos para ver onde nos levam.

 

 Qual é a alternativa ao sistema capitalista, que demonstra não estar interessado no benefício social? 

 

É claro que o desempenho do mercado caiu. Nos anos oitenta pensava-se que o sistema capitalista de mercado era o único caminho, mas o sistema neoliberal está a revelar a sua verdadeira face, a da tragédia, mesmo para o próprio mercado. Esses mecanismos capitalistas são terríveis no campo da desigualdade. A hierarquia do poder capitalista introduz o declive dos estados e da civilização ocidental. Devemos pensar na superação do mercado e das actuais condições entre países ricos e países pobres, e acabar com as injustiças das condições da economia do desenvolvimento.

 

Diante dos pactos da política com o banco, em que estado de vulnerabilidade se encontra o cidadão?

 

Hoje o banco e o financeiro não são a cara feia do capitalismo porque são o próprio capitalismo. Não existe o capitalismo sem o banco, não existe o capitalismo sem as finanças. Hoje não existe possibilidade de pensar num mítico capitalismo industrial, não existe o pequeno empreendedor que emprega pessoas. O Estado hoje está totalmente condicionado pelos mecanismos financeiros, que o absorvem por completo, de modo que não se pode pedir aos governos que nos salvem das finanças porque eles são os representantes das finanças.

 

 Que papel tem o cidadão nessa situação crítica: deve sair à rua ou esperar que volte a normalidade?

 

 O cidadão deve pensar e defender o seu próprio destino. Apenas a capacidade de reorganizar a democracia o salvará. A democracia deve renovar-se desde um órgão constituinte novo porque as Constituições existentes são baseadas na propriedade privada. Devemos mudar as Constituições. Chegamos a um momento em que a produção se tornou cada vez mais imaterial. Sempre haverá uma necessidade de elementos ou momentos hierárquicos para que o valor produzido possa ser colectado e classificado, mas já não há nenhuma necessidade da propriedade privada como centro da produção e do desenvolvimento. Tem que modificar o próprio conceito de desenvolvimento. A produção já não pode estar voltada apenas para o lucro. Deve passar a frente, a produção do ser humano pelo ser humano. A propriedade privada não pode governar a democracia. A riqueza não deve continuar a ser como até agora. Já não serve produzir para ganhar, mas para partilhar.

 

Agora que o senhor mencionou, como se imagina essa mudança das constituições dos estados, de forma radical, moderada?

 

 Existem muitas experiências, violentas e tranquilas. Os métodos inventam-se, não existem métodos predeterminados. Os estados estão completamente em crise. O Estado nunca quis ceder a sua soberania, mas finalmente cede-a, por desgraça, às finanças. Como deve o cidadão conquistar sua soberania? Provavelmente mediante um processo muito cansativo e longo. Podemos imaginar que haverá violência, enfrentamentos e conflitos. Quem está no poder não quer abandoná-lo e quem não tem o poder quer se apropriar dele.

 

Então, o senhor acredita que um movimento que saia às ruas a protestar ajuda a reforma da qual está a falar?

 

 Creio que sim porque um movimento, chamado Maio de 68 ou indignados ou acampados, incide sobre uma cena global que provocará o início das discussões. Não nos vai tirar da crise, logo, mas ajudará a refletcir como sair dela. Construir-se-ão ideias novas sobre a representação, sobre a presença dos cidadãos, o modelo de cultura e dos instrumentos de comunicação e intelectuais relacionados com os recursos informáticos.

 

Todavia, os cortes do gasto social são tão graves que parece que o novo modelo de Estado que se avizinha tem pouco a ver com o que indica. Na verdade, surge um muito mais cruel.

 

Quando falamos de ultrapassar o mercado, referimo-nos a impor o imposto sobre heranças, de expropriar os ricos. O problema é muito simples. Não é difícil! Trata-se de decidir se se está de um lado ou de outro: continuar com um mercado que não funciona ou inventar uma nova linha de acção que está por chegar.A única coisa de que estamos seguros é de que, se o mercado continua marcando as pautas, a crise continuará sempre para pior. Assim, trata-se de inventar uma saída que não é a que passa pelo massacre dos inocentes desse crise.

 

Sente falta da tradição marxista da revista Quaderni Rossi’ [Cadernos vermelhos], dos anos sessenta?

 

A saber, aquela tradição operária foi profundamente transformada nos anos setenta. A nova produção imaterial, intelectual, capitalista acabou com ela. Essa transformação deixou muito atrás a tradição marxista do Quaderni Rossi, éramos muito jovens então [risos].

 

Neste mundo, é possível outra Autonomia Operaia [Autonomia Operária]?

 

 Hoje em dia não sei o que significa a categoria operária. A categoria do proletariado é uma extensão enorme. Hoje o problema realmente grave é a ausência de autonomia do desenvolvimento dessa figura social e da sua própria subjectividade. São homens e mulheres que querem ser mais livres e que não querem viver sem imaginação, sem criatividade, sem alegria. Essa é a principal discussão: a revolta contra o mercado deve ser a exaltação da singularidade e da liberdade. Liberdade, verdade e igualdade.

 

Agora que citou, desapareceu do debate a preocupação em acabar com a desigualdade em favor do desenvolvimento da liberdade?

 

As forças do mercado impuseram-se desde o início dos anos setenta: quando Nixon e Kissinger desvincularam o dólar do padrão ouro. Por outro lado, está o documento da Comissão Trilateral, no qual se diz que a democracia deve marcar os limites do liberalismo. Mas, isso sabe-se desde sempre, só os jornalistas mudaram o significado da palavra liberdade para liberalismo.

 

Diante de um panorama como o que descreve, o que tem a esquerda que fazer para ser capaz de reconduzir essa crise?

 

A esquerda está completamente absorvida pelo mecanismo do mercado e aterrorizada diante da tessitura de ter que sair desses mecanismos do próprio mercado para poder seguir sendo esquerda. Hoje vivemos a derrota do neoliberalismo e a tragédia da esquerda. Trata-se de inventar uma esquerda nova, que dê espaço a uma nova forma de pensamento. Tem que se reinventar a comunidade porque essa sociedade está dividida em duas categorias irreconciliáveis: ricos e pobres.

 

Deve-se construir uma nova política.

Leave a Reply