ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 2 – por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

A Partida

 

 

Por desidentidade ou indiferença António Botto distancia-se das questões políticas pelo que não o imagino a fazer de tribuno numa qualquer tertúlia. As suas convicções são vagas e se algumas vezes as teve firmes foi para com Sidónio Pais, sobretudo para com o mito. Todavia, o professor de Santa Comba merece-lhe a sua antipatia, que virá mais tarde a negar, manifestada num acto de ressentimento pessoal reflexo do drama de sobrevivência que, segundo o poeta, Salazar lhe havia criado.

 

O problema humano e artístico de António Botto é, antes de tudo, um problema de solidão. Embora tendo amigos, e nem eram poucos, tratava muitas vezes de os afastar com a sua «total ausência de escrúpulos, e uma linguagem cujo espírito oscilava entre a caserna e a Brasileira do Chiado» (Poesia e Prosa – Circulo de Leitores, vol.III, p.44, 3ª ed. Lisboa 1987), no dizer de Eugénio de Andrade. Menos radical, José Pedro Moitinho de Almeida afirma que «António Botto era bom amigo quando era amigo mas era um inimigo terrível dos seus inimigos», condição suficiente para lhe valer o afastamento de muita gente. Mas é preciso compreender este homem que incorpora o talento na idolatria de si próprio a ponto de, em muitos aspectos, manifestar um comportamento altivo sob as suas origens. Jamais fala da mãe, do pai, dos dois irmãos. Nesta medida, escondendo os seus escondia-se de si próprio.

 

As origens modestas de António Botto associadas à sua natureza construíram um indivíduo cujo talento devia ser reconhecido por todos. «Um ser eminentemente mundano» (João Gaspar Simões) que adorava ser diferente para que falassem de si. Um caso de insegurança pessoal a moldar um ego de patente vaidade e instabilidade emocional. A poesia é o canto das suas paixões, do seu drama, mas também do ser físico e do ser espírito, do ser total no qual adorava contemplar-se. No ensino da parábola moral aos seus semelhantes mostra uma atitude de generosidade, sobretudo nos contos infantis. Através da prosa cultiva muitas vezes a solidariedade, passiva embora, em falta na poesia onde o diálogo estabelece-se quase sempre consigo próprio e a si se inventa. As subtilezas da generosidade de António Botto são consequentes da sensibilidade artística e a afirmação indiscutível da sua pessoa é o resultado de uma consciência de valor sublimado. Não obstante, manifesta-se falho de coragem nos actos práticos da vida e dele jamais se regista um discurso público inflamado, um artigo de opinião em jornal ou revista, um acto provocatório perante uma plateia. Não é rebelde no sentido de um Almada, não possui a provocação nata de um Raul Leal e falta-lhe a segurança analítica de um Fernando Pessoa.

 

Após o falecimento de Fernando Pessoa a tertúlia do Martinho da Arcádia foi-se dispersando. Tudo continuava nos seus lugares: as mesas e cadeiras, os rostos dos empregados, o movimento do entra e sai, a vida a insistir nos hábitos da casa e nos do grupo. Aos poucos, porém, amigos de sempre procuraram outros poisos onde os novos arquitectos da intelectualidade se encontravam. Os modernistas e os futuristas foram-se esfumando no decorrer do tempo integrando-se nos armazéns da história. Faltava gente. Uns partiram cedo como o Mário de Sá-Carneiro e o Amadeo, outros nem tempo tiveram para dizer adeus aos amigos como foram os casos de António Feijó e Abel Botelho. Havia os viajados, como o irrequieto Almada ausente por longos períodos e os que vaguearam – veja-se lá! – a fazer a sua arte internados no Telhal, “residência” do Mário Eloy e do Raul Leal, ou Tejo adentro, como mergulhara o poeta Luís de Montalvor, pseudónimo literário de Luís Filipe de Saldanha da Silva Ramos (1891-1947), natural de São Vicente, Cabo Verde. Foi um dos fundadores da revista Orpheu e era um dos sócios da prestigiada editora Ática que fundara em 1940 com Abel Moutinho e Mário do Rosário. Na chuvosa e invernal manhã de 2 de Março de 1947 «cerca das 12 horas o pequeno automóvel passou a linha-férrea e entrou no recinto da Estação Fluvial de Belém (…) em andamento moderado (…) o carro desceu a rampa um pouco inclinada da muralha e mergulhou nas águas escuras do rio», assim relatava o Diário de Notícias no dia seguinte o trágico acontecimento em que morre toda a família.

 

Botto sente-se enfraquecido pelo desaparecimento de amigos que marcavam com o seu sinete a vida intelectual e perturbado pela solidão que reacendia memórias de outros tempos. Faz as tardes pelos cafés do Rossio ou sobe à coscuvilhice do Chiado na expectativa de por ali encontrar alguns do antigamente. Ao Martinho da Arcada vai agora pouco e já não procura as escadas do escritório da empresa Moitinho de Almeida, instalada no prédio nº 71 da Rua da Prata, a saber do seu amigo e autor da Mensagem. Fazem-lhe falta o Fernando, o António Ferro, o José Pacheco. Hoje conhecem-no mal e não estão disponíveis para o aturar. Escreve menos. O seu nome quase desapareceu dos jornais e isso perturba-lhe a vaidade. A expulsão da função pública refinou-lhe o sarcasmo. Vinga-se com intrigas de salão, o prazer da crítica descabelada, insinuações brejeiras e mesmo indecorosas que profere em qualquer lado sobre amigos e conhecidos. Muitos apontam-no a dedo, intrigam contra ele pagando-se na mesma moeda. Não os escuta. Passa adiante com sobranceria reduzindo, assim, a roda de amigos que possui.

 

O poeta estiola e o homem envelhece. Deixa-se contaminar pela tristeza e pelo drama da sua homossexualidade. Vive uma tragédia de alma? Quem sabe! Se assim é jamais o confessa senão nos seus versos. Nesta atmosfera saturada de pequenas invejas e grandes dissabores o poeta acaba por equacionar a ida para o Brasil, hipótese para um prestígio aqui perdido e lá intacto no conceito de alguns dos maiores escritores brasileiros. A vontade que o puxa vem de longe ditada pela projecção atingida pela sua obra naquele país. Botto não voltará a encontrar na pátria o estado de equilíbrio e notoriedade desejados pelas ambições do carácter. O período cinzento desenvolve um patético estado emocional prenúncio da decadência. Ao pretender trocar Portugal pelo Brasil, supõe «na sua semiloucura, reencontrar o ambiente que perdera» (Jorge de Sena). Tem a convicção de que tudo muda e sente-se mal, sente-se perdido. Necessita de aplausos, de culto, a fim de lhe alimentarem o ego. No Brasil possuí grandes admiradores como Afrânio Peixoto e João Neves Fontoura a quem escreve estas palavras: «Imensamente cansado de Portugal, ou de alguns portugueses indesejáveis, sonho com a Terra de Santa Cruz». Queixas demasiado severas, António, provocadas por essa mania de todos te perseguirem. Nessa altura tinhas ainda a teu lado bastantes amigos, sinceros amigos, aqueles que te promoveram a última homenagem no Teatro São Luís onde até o Aquilino Ribeiro colaborou, e se ele abominava homossexuais. Nessa quarta-feira de 7 de Maio de 1947, às seis e meia da tarde, lá estiveram Amália Rodrigues, António Mestre, Erico Braga, João Villaret, José Alves da Cunha, Philippe Newman, Palmira Bastos e Vasco Santana, num grande espectáculo de angariação de fundos para a tua viagem, No entanto, tu sonhavas com um país e um meio intelectual brilhante à espera de te receber como uma estrela. As dificuldades agudizam a ideia. Nesse último ano a Ática publica-lhe Ódio e Amor que nada acrescenta à obra poética anterior. Saem contos, volumes das chamadas Obras Completas, pequenas edições a fim de obter algum dinheiro. Mas o Brasil é uma paixão. Arranjam-lhe um contrato para trabalhar numa emissora em São Paulo. Vive essa nova existência e por ela se perde. Pensa já tudo em grande e a megalomania volta a crescer em si. Aqui vegeta, diz. O Brasil deixa de ser um projecto para se transformar em realidade. Os amigos desdobram-se em iniciativas a fim de obterem dinheiro para a sua viagem: direitos de autor, sessões de fados, de poesia, ofertas como a do seu amigo Ricardo Espírito Santo são decisivas. O Brasil torna-se cúmplice de todas as esperanças do poeta que na sua solidão desabafa com a mulher essa tristeza amarga que o vai roendo. Carminda escuta-o. Tem por ele uma admiração que desconhece limites. Irá com ele para S. Paulo, para o Rio de Janeiro ou para o Amazonas se for caso disso. O seu amor vem do fundo da alma e só ela o sente e compreende.

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Lá vai o vapor, lá vai, lá vai! Sob a luz de palha de uma tarde de verão lisboeta que indolenta os corpos pelas esplanadas dos cafés onde intelectuais embalam sonhos na imaginação. Tarde quente de 1947. Apita o barco duas vezes. Recolhe a escada do portaló e afasta-se lentamente do cais enquanto toca uma outra no aviso do mar. Quando o Juan de Garay, da Companhia de Navegação Ybarra, levanta ferro há uma certa melancolia espalhada na atmosfera. Nos olhos do poeta Lisboa é já pequenina enquanto no seu coração São Paulo cresce, cresce aos ruídos de uma cidade enorme. E, todavia, esta é a fase em que o drama da sua existência começa a ganhar o sentido da tragédia conduzindo-o para um destino que aceitará de forma resignada. No voar do horizonte há um arco-íris de indefinida angústia que lhe aperta o coração.

(continua)

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Vamos ouvir Mariza interpretando na Union Chapel, em Londres, o tema ‘Os anéis do meu cabelo’, um dos poemas do livro Canções, de António Botto.


 

 

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