O MÍNIMO SOBRE A LÍNGUA MIRANDESA
por Amadeu Ferreira
(continuação)
8. Quais são as principais características da língua mirandesa?
Apresentam-se de seguida apenas as principais características, sem as esgotar. Para a sua mais fácil apreensão faz-se uma comparação com o português e com o castelhano, assim melhor fazendo ressaltar essas características, que nuns casos a diferenciam e noutros casos a aproximam de uma ou outra dessas línguas.
i – O mirandês (salvo no dialecto sendinês) palatiza o ‘l’ inicial, o que não acontece em português nem em castelhano.
Exemplos:
lhuna – lua (port.), luna (cast.); lhana – lã (port.), lana (cast.); lheite – leite (port.), leche (cast.); lhino – linho (port.), lino (cast.); lhobo – lobo (port.), lobo (cast.); lhéngua – língua (port.), léngua (cast.); lhargo – largo (port.), largo (cast.); lhabar – lavar (port.), lavar (cast.).
ii – Há ditongos crescentes [«ie», «uo»] que afastam o mirandês do português. No caso do ditongo crescente «ie» o mirandês aproxima-se do castelhano, embora tenha uma sonoridade completamente diferente. Já no que se refere ao ditongo crescente «uo», ele é bem diferenciado do ditongo castelhano «ue».
Exemplos com «ie»:
castielho – castelo (port.); tierra – terra (port.); ciento – cento (port.); miel – mel (port.); abierto – aberto (port.); bien – bem (port.); niebe – neve (port.); siempre – sempre (port.); fierro – ferro (port.); diente – dente (port.); semiente – semente (port.); piedra – pedra (port.), piedra (cast.).
Exemplos com «uo»:
fuonte – fonte (port.), fuente (cast.) ; buono – bom (port.), bueno (cast.); puonte – ponte (port.), puente (cast.); uolho – olho (port.), ojo (cast.); buolta – volta (port.), vuelta (cast.); nuoç – noz (port.) nuez (cast.); puorta – porta (port.), puerta (cast.); nuobo – novo (port.), nuevo (cast.); nuosso – nosso (port.), nuestro (cast.).
iii. O mirandês conseva o ‘l’ e o ‘n’ latinos intervocálicos, que caem no portugês. Nesta parate, o mirandês tem características similares ao castelhano.
Exemplos relativos à manutenção do «n» intervocálico:
arena – areia (port.), arena (cast.); tener – ter (port.), tener (cast.); mano – mão (port.), mano (cast.); bena – veia (port.), vena (cast.); sano – são (port.), sano (cast.).
Exemplos relativos à manutenção do «l» intervocálico:
pila – pia (port.); pila (cast.) malo – mau (port.); malo (cast.); bolo – voo (port.); vuelo (cast.); palo – pau (port., palo (cast.).
iv. O ‘ll’ e o ‘nn’ duplos intervocálicos latinos palatizaram-se em mirandês, mas não em português. Neste ponto, o mirandês volta a aproximar-se do castelhano.
Exemplos relativo a «ll / lh»:
cabalho – cavalo (port.), cabalho (cast.); galho – galo (port.), gallo (cast.); castielho – castelo (port.), castillo (cast.); galhina – galinha (port.), gallina (cast.); calho – calo (port.), callo (cast.); calhar – calar (port.), callar (cast.).
Exemplos relativo a «nn / nh»:
anganho – engano (port.), engaño (cast.); panho – pano (port.), paño (cast.); canha – cana (port.) canha (cast.); abelhana – avelã (port.) avellana (cast.); anho – ano (port.), año (cast.).
v – O ‘f’ latino conserva-se em mirandês e português, mas não em castelhano, o que afasta o mirandês dessa língua, mas o aproxima do português.
Exemplos:
afogar-se – ahogarse (cast.); forno – horno (cast.); fermoso – hermoso (cast.); filho – hijo (cast.); falar – hablar (cast.); fazer – hacer (cast.); figo – higo (cast.); ferida – herido (cast.); ferradura – herradura (cast.); fidalgo – hidalgo (cast.).
vi – A nasal ‘ão’ portuguesa não existe no mirandês (salvo em um tipo de casos no dialecto sendinês), o que o afasta do português e o aproxima do castelhano.
Exemplos:
son – são; pan – pão; armano – irmão; perdon – perdão; mano – mão; oupenion – opinião.
vii – a inexistência de vogais altas átonas em começo absoluto de palavra, o que afastar o mirandés tanto do português como do castelhano.
Exemplos relativo a «i», «e», «o», «u»:
einemigo, eiducaçon, eisame, eiquipa, eidade, eigreija, eigual, eideia.
oufender, oufício, oureilha, oulibeira, oulor, ouraçon, oupenion, oufecial.
Exemplos relativos a «in», «en/em»:
anganhar, anfenito, amprego, anformar, angenheiro, anterrar, ancapaç, anjusto, anteiro, antençon, amportante, ambeija, ambentar, anfáncia.
viii – no que respeita aos modos de formação de palavras em mirandês, este apresenta diferenças muito significativas, bem para além do sufixo dimuntivo –ico que costuma ser indicado; dada a extensão dessas diferenças referirei apenas algumas das mais significativas:
– Prefixos: alte- (altefalante, altemoble), arre- (arrepassar), cus- (custruir), ei– (eicelente); stra- (stramuntano, strefigurar, streponer);
– Sufixos: -ulho (cascabulho), -ielho (boubielho), -anco (burranco), -iço (pequerrico), -ieta (ourrieta), -in (foucin, boucin), -uncho (ferruncho), -aige (biaige), -aina (botaina, chitaina), -iego (anhiego, dariego, paniego), -onco/-ongo/-unco (medonco), -orra (machorra), -ieça (burrieça), -onda (maronda), -eç (nineç, belheç, madureç), -able (adorable, amable), -ible (ambencible), -uro (filaduro).
Deve ainda assinalar-se a inexistência em mirandês do prefixo des-, reduzido a z- ou ç-, o que afasta o mirandês tanto do português como do castelhano.
Exemplos:
zamprego, zaparecer, zgrácia, zgusto, zmaio, zbio, zanganhar, zamparado.
çcascar, çclarar, çpedida, çcansar, çcargar, çcoser, çcubierta, çcuntar, çpreziar.
ix.Em mirandês não existe o som «j», antes de se mantendo o som «lh», o que aproxima do português e afasta do castelhano.
Exemplos:
filho – hijo (cast.); fuolha – hoja (cast.); mulhier – mujer (cast.).
x. Praticamente não existem em mirandês palavras terminadas em «ia», em «io» ou em «ua», mas em «ie», em «iu» e em «ue».
Exemplos quanto a ia / ie:
frie – fria; tie – tia; die – dia, Marie – Maria.
Exemplos quanto a io / iu:
friu – frio; tiu – tio,
Porém, as características da língua mirandesa não se esgotam nos apectos que acabámos de referir, nem se pretende, num escrito breve como este, dar conta de todos os aspectos. Mais algumas características essenciais se deixam a seguir se deixam a título indicaticativo e de modo abreviado:
– uma conjugação verbal específica, embora o sistema verbal do mirandês seja semelhante ao do português;
– os artigos definidos l (o) e la (a), ls (os), las (as), distintos tanto do português como do castelhano.
– os pronomes pessoais (you, eu) e possessivos (miu, meu; mie, minha, etc.), muitos diferentes dos portugueses e também com assinaláveis diferenças em relação ao castelhano;
– modos de tratamento de respeito, específicos e distintos, seja em relação ao português, seja em relação ao castelhano;
– várias palavras com género diferente em relação ao português. Ex. la calor, l febre, l quemido, la questume.
– uma série de advérbios e locuções inexistentes em português. Ex. ende, sourtordie, anque, antoce, quantá.
Também a sintaxe do mirandês apresenta muitas características próprias quer em relação ao português quer em relação ao castelhano, afirmação que contraria reiteradas e habituais afirmações que a esse respeito são feitas, sobretudo no que respeita à sintaxe do português e do mirandês. Essas afirmações, porém, apenas se devem à falta de estudo e de conhecimento da língua mirandesa no domínio da sintaxe.
Quanto ao vocabulário deve dizer-se que o mirandês apresenta muitíssimo vocabulário distinto do português, apesar de haver uma grande continuidade lexical como acontece em todas as línguas de origem latina da Península. Deve realçar-se que muita da proximidade que existe com o português de Trás-os-Montes Oriental e com a zona de Riba-Côa deriva da influência leonesa que o português sofreu nessas zonas, facto que ainda não está adequadamente estudado, já que até à Alta Idade Média foram zonas de fala leonesa.
Mas também há semelhanças entre o mirandês e o português, em particular o do norte interior, que muito o afastam do castelhano de que se destaca:
Casos similares ao português do Norte:
– um sistema de quatro sibilantes (por ex. pronunciam-se diferentemente cesta, sesta; maça, massa; cozer, coser; beiço, beiso; trás, traç); neste casos o mirandês afasta-se quer do português padrão quer do castelhano ou mesmo das restantes língua astur-leonesas;
– ausência de «v», existindo apenas «b» (ex. baliente, biaige, baca).
Concluindo, que a exposição já vai longa, apesar de lacunar, pode dizer-se que o mirandês tem características próprias que o distinguem tanto do português como do castelhano e o filiam nas línguas asturo-leonesas. Porém, deve acrescentar-se, partilha igualmente semelhanças e infuências daquelas duas línguas, embora com predomínio da influência do português. Isso em nada afecta a sua autonomia e a sua estrutura perfeita como língua, não sendo uma mistura entre aquelas duas línguas.
(continua – 9. A língua mirandesa tem as mesmas características em todo o lado ou apresenta variedades?)


1 Comment