O Último Segredo’ (1) – por Anselmo Borges

Por cortesia do Diário de Notícias, que nos envia estes artigos de Anselmo Borges, temos publicado a maioria. Os de natureza teológica não temos editado por ser matéria que foge à área de intervenção que definimos. No entanto, este texto, referindo-se a um livro de José Rodrigues dos Santos que já aqui foi mencionado por Paulo Rato, parece-nos susceptível de interessar aos nossos visitantes. 

 

Coube-me, a pedido da Gradiva, apresentar O Último Segredo, de José Rodrigues dos Santos. No sábado passado, na Sociedade de Geografia, com mais de 500 pessoas presentes. O que aí fica é a primeira parte de uma breve síntese do que aí disse.

 

1. Vamos supor que se descobriram os restos mortais de Jesus Cristo num túmulo de família. Agora, a partir do seu ADN, como não tentar cloná-lo, se ainda por cima o projecto for no sentido de o Jesus clonado instaurar a paz no mundo? Arranje-se uma intriga, com assassinatos pelo meio, dentro de um thriller, a partir dos interesses de uns em levar a ideia por diante e a perseguição de outros, que têm medo da sua concretização por motivos diversos, e temos material para uma história de enredo apelativo. Se, no meio da intriga, se vão descobrindo alegadas “fraudes” na Bíblia e se anuncia “a verdadeira identidade de Jesus”, temos os ingredientes para o sucesso. Mesmo se o tema da clonagem de Cristo não é original, pois já há tempos apareceu um romance com esse tema.

 

2. A partir dos conhecimentos históricos disponíveis e fundados – Jesus é a figura mais estudada da História -, penso que, apesar das controvérsias que continuam, à pergunta “o que podemos saber hoje sobre o Jesus histórico?”, se pode responder minimamente dizendo que foi um profeta escatológico judeu, um sábio, alguém com o dom da cura e um carismático, homem de mesa em comum e rompendo com a distinção entre puros e impuros, que impulsionou um movimento messiânico integrador de marginais, um homem de conflitos e perigoso para a ordem religiosa e social estabelecida, condenado pela oligarquia sacerdotal de Jerusalém e mandado executar na cruz pelo procurador romano, “o seu movimento profético-messiânico manteve-se e transformou-se depois da sua morte” (Xabier Pikaza). Alguns dos discípulos afirmaram que estava “vivo” e que tinha sido elevado à glória de Deus.

 

3. No desenrolar da intriga de O Último Segredo, há pressupostos e afirmações histórico-teológicos. Pergunta-se: o que valem?

 

Para mim, ao contrário do que insinua José Rodrigues dos Santos, os pilares do cristianismo não são abalados. Assim, não perturba nada a minha fé que Maria seja virgem ou não: o Credo não é um tratado de biologia. Do mesmo modo, não agride a fé cristã que Jesus tenha tido ou não irmãos e irmãs ou que tenha sido casado ou não. O que a boa teologia diz sobre a Santíssima Trindade é que a unidade de Pai, Filho e Espírito Santo é uma unidade de revelação: “Deus mesmo manifesta-se através de Jesus Cristo no Espírito”, escreve Hans Küng. Na Bíblia, não se diz que Jesus é o próprio Deus. Ele é confessado pelos crentes como o Cristo, isto é, Messias e Filho de Deus. Ele é a revelação definitiva de Deus, não o Deus (hó theós).

 

Quanto à ressurreição, ela não pode entender-se como a reanimação do cadáver. O que foi feito do cadáver de Jesus ninguém sabe: pode inclusivamente ter ido para uma vala comum. No entanto, não haveria cristianismo sem a convicção de fé de que Jesus não morreu para o nada mas para o interior de Deus, para a vida eterna de Deus. Deus em quem Jesus acreditava e revelou como amor não o abandonou na morte.

 

É evidente que a ressurreição não é um acontecimento da história empírica, estudada pelos historiadores nem podia ser, pois transcende a história. O que é histórico é que Jesus foi crucificado e pouco depois os discípulos voltaram a reunir-se em nome de Jesus Cristo, que anunciaram como o Vivente em Deus. Essa experiência de fé foi de tal modo avassaladora que dela deram testemunho até à morte. Mas é claro que uns acreditam e outros não. Uns e outros com razões.

 

Sou muito mais cauteloso do que José Rodrigues dos Santos, que declarou ao DN que acredita em Deus “porque a ciência já encontrou provas”. Ora, Deus não pode ser objecto de provas científicas: um Deus demonstrado cientificamente não seria Deus, mas um objecto mundano e finito. Uns crêem e outros não, e há razões para acreditar e razões para não acreditar, mas não há provas científicas.

3 Comments

  1. Augusta,Leio sempre este cronista do DN (como lia o Bento Domingues, no “Público”). Aliás, é um dos meus preferidos: a inteligência e a cultura, ainda quando aliadas a correntes de pensamento que não perfilhamos, são os ingredientes “sine qua non” de um bom acepipe. Claro que, quando o autor entra por “caminhos” que pressupõem uma base de Fé (pelo que o discurso só é aceitável – quando não, compreensível, dentro desses parâmetros), eu não concordo com ele: é a própria base de que parte o seu pensamento que deixa de ter pontos de contacto com a minha, como se descrevêssemos fenómenos que se passam em planetas diferentemente formados. Mas não concordar não significa que deixe de entender a sua argumentação e, mesmo, algumas conclusões que ultrapassam a sua base de Fé, para se situarem num plano que se cruza, no espaço da Razão, com outros, de origem diversa. Por outro lado, este padre não se confunde com os “acarneirados”, para quem tudo o que a hierarquia da Igreja instituída afirma coincide inabalavelmente com a “verdade”: bem pelo contrário! Daí o interesse das suas intervenções, mesmo daquelas em que persiste a tal discordância.Mas não nos podemos esquecer de que Anselmo Borges é padre e professor de Filosofia. Pelo que, há que ter em conta: primeiro, que a sua linguagem – que mantém, em meu entender, dentro dos limites do inteligível por qualquer leitor de cultura média – não se dissocia da sua especialização académica; segundo – e como referi acima -, quando estão em causa temas intimamente ligados à Fé, que é do foro estritamente individual (ainda que algumas religiões tenham ideia contrária, como a cristã, durante quase dois milénios, persistindo em algumas das suas derivações, ou a muçulmana, entre outras…), não podemos isolar o raciocínio do cronista da sua condição de crente. Mesmo assim, muito do que ele diz, neste artigo, é de pôr os cabelos em pé aos inabaláveis servidores dos dogmas da “santa madre” e seus guardiões! Ora, relê, tendo isto em conta. Para mim, o que ele escreve no artigo é claríssimo e vem ao encontro do que eu penso, olhando o cristianismo da perspectiva do não-crente que sou (embora tendo partido de uma educação católica (cujos princípios questionei, desde que me lembro), o que me coloca bem dentro da doutrina e suas origens, documentais e históricas)…Espantoso e, objectivamente, sintoma de insanável imbecilidade – a que o Pe. Anselmo até se refere com caridade verdadeiramente… cristã! – é a afirmação do JRS de que acredita em Deus porque a ciência já encontrou provas! Também essa cretinice AB esclarece liminarmente e “sem dor”…Abraço

  2. Paulo, já conheci gente muito inteligente mas com uma influência tão nefasta sobre os outros que mais valia que a não tivessem. Não é isso que eu penso do padre Anselmo Borges que mal conheço porque não costumo lê-lo. Aprecio muito ver fluir um raciocínio rico, mas que me interessa a mim se a Virgem Maria era virgem ou não, o que era a Santíssima Trindade ou a ressurreição para uma ou outra corrente teológica? Acho bem mais interessante um artigo dum filósofo ateu que publiquei há uns meses e que desenvolvia logicamente a tese de que, honestamente, não podemos ser nem crentes nem ateus dado que não possuímos nenhuma prova da existência de Deus nem da sua não existência. A mim o que me espanta é ver uma pessoa inteligente aceitar fazer a apresentação dum livro cheio de charlatanice como essa de dizer que a ciência já provou a existência de Deus. É a primeira vez que oiço tal coisa.

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