Rebeliões populares, por Esther Vivas. Selecção, introdução e tradução por Júlio Marques Mota.

Agora que a austeridade está aí  e está para ficar. Agora que  os nossos dirigentes europeus que mais parecem altos funcionários dos mercados financeiros e de outras potências à Europa externas, a acreditar nos textos de hoje dos grandes jornais internacionais, andam atarefados a querer de novo salvar os bancos e que me digam se não é para todos nós irmos pagar a seguir: Agora que o nosso Primeiro nos vai  convencendo  que para resolver o défice é necessário empobrecer. Agora que , num país pobre como o nosso é a produção que vai decrescer, e então, se  pagamos mais e produzimos menos, será então na mesa de muita gente que essa realidade se vai sentir. Agora que a questão da fome que se está  instalar  é  uma questão de somar e subtrair ou será que o nosso ministro das finanças, de Gaspar pelo Expresso chamado, não as sabe fazer. Agora que assim é,  um olhar crítico  sobre os mercados de produtos agrícolas em  que os senhores financeiros pelos nossos governos protegidos, depois   de nos roubarem nas nossas remunerações, nos nossos subsídios e de estes valores em forma de juros e por causa dos riscos estarem já  a receber, vamos ver como é que com esse dinheiro que a todos nós foi roubado, nos vão com ele roubar uma segunda vez, fazendo subir os preços dos bens que precisamos para à nossa nessa comer. Um ladrão rouba sempre duas vezes, é um outro ditado a reter.


Agora aqui vos apresento um  texto feito na  sequência de uma peça sobre os cães  da minha infância, da minha velhice, como ilustração, como um exemplo do trabalho feito pelos novos  cães que o neoliberalismo criou, os novos cães, portanto, que nas bolsas trabalham e que milhões de bónus ganham. De tudo isto uma certeza é bem certa: a estes novos cães não haveria pois presuntos na minha aldeia  que sobrassem. Que saudades dos cães da minha infância, então!


Aqui pois um texto sobre bens alimentares, o primeiro de uma série que penso apresentar aos visitantes, aos leitores de A viagem dos Argonautas.


Boa leitura, e é tudo.


Júlio Marques Mota

 

Rebeliões populares

 

Esther Vivas

 

As rebeliões populares no norte da África e no Oriente Médio tinham entre  muitos catalisadores o aumento dos preços dos bens alimentares. Em Dezembro de 2010, em Tunes, os mais pobres da população ocuparam a linha de frente do conflito, exigindo, entre outras coisas, acesso aos alimentos.


Em Janeiro de 2011, a juventude demonstrou  nas estradas bloqueadas na  Argélia queimando lojas e atacando esquadras da polícia para protestarem contra  o aumento dos preços nos alimentos alimentares básicos. Casos semelhantes foram observados na Jordânia, Sudão e no Iémen. O Egipto é o maior importador de trigo do mundo, e depende da importação de  produtos  alimentares.


Evidentemente outros factores entraram em jogo nesta contestação crescente: altas taxas de desemprego, falta de liberdades democráticas, corrupção, falta de habitações e de serviços básicos, etc.  Em todos os casos, o aumento dos preços dos alimentos foi um dos catalisadores iniciais fundamentais.


A Causa Central


Quais são as causas do novo pico no custo de nossas refeições? Embora as instituições internacionais e os especialistas tenham  apontado para vários elementos, tais como fenómenos meteorológicos que afectam as colheitas nos países produtores , o aumento da procura nos países emergentes, a especulação financeira, a produção crescente de biocombustíveis, entre outros, vários índices sublinham o papel da  especulação com produtos alimentares de base como uma das principais razões para o aumento do preço dos alimentos.


Em 2007-2008 o mundo viveu uma crise alimentar profunda. Os preços  dos bens alimentares  básicos como o trigo, a soja e o arroz subiram respectivamente 130%, 87% e 74%. Então, tal  como agora, várias causas foram ou são convergentes, mas o mais importante foi a produção de agrocombustíveis e o crescente investimento especulativo em mercados de futuros sobre alimentos. Mas este aumento no preço dos alimentos estabilizou  em 2009, em parte, provavelmente,  devido à crise económica e à  redução na especulação financeira.  


Em meados de 2010, com os mercados financeiros internacionais mais calmos e em baixa  e com grandes grandes somas de dinheiro público injectado nos bancos privados, a  especulação voltou novamente a  atacar e o preço dos alimentos começou a subir. Para “salvar os bancos”, depois da crise financeira de 2008-2009, estima-se que os governos dos países ricos deram  um total de 20  milhões de milhões  de dólares para estabilizar o sistema bancário e baixar  as taxas de juros.


[Dados recentes, dados do último relatório da FAO, dados em que muitos deles  são, portanto, de 2010:

 

 


 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os gráficos acima retirados por nós do último relatório da FAO servem para ilustrar no plano concreto, evidências empíricas, dizem os neoliberais, factos estilizados, dirão eles também ou talvez outros neoliberais sem saber que o são , e o  que é necessário é  ir para além deles, para além do espelho de Lewis Carrol,  para os apreender na sua génese, na sua elaboração, porque a fome, não é um facto estilizado para nas econometrias ser correlacionado,  é um facto hoje a fazer parte no sentir e no destruir de milhões de pessoas, é um facto social e politicamente produzido pelos mercados e por aqueles que estes permitem a agir  desta maneira e que com todos os meios possíveis devemos politicamente combater . Retomemos então o texto de Esther Vivas ]

 

Com o afluxo de dinheiro, os especuladores viram assim  incentivos para obterem  novos empréstimos e para comprarem  mercadorias que previsivelmente aumentarão  rapidamente de valor. Os mesmos bancos, os fundos de alto risco, etc., que provocaram  a crise das hipotecas subprimes, são actualmente os responsáveis ​​pela especulação com as matérias-primas e pelo  aumento do preço dos alimentos, aproveitando a desregulação dos mercados globais sobre os bens básicos, chamados de commodities.


A crise alimentar está intimamente ligada à crise económica e a lógica de um sistema que promove, por exemplo, planos para salvar a Grécia e Irlanda, enquanto sacrificam a sua soberania às instituições internacionais, assim como sacrificam  a soberania alimentar dos povos aos interesses do mercado.


Garantia de um produtor ou a bonança  um especulador?


Sempre houve alguma especulação no preço dos alimentos e esta é a lógica que está por detrás dos  mercados de futuros. Na sua forma actual, os mercados futuros datam de meados do século XIX , quando se abriram estes mercados nos Estados Unidos. Estes negociavam contratos estandardizados de compra e venda de cereais em termos físicos e para um período de tempo previamente estabelecido no contrato de  futuro e tendo este sido  um mecanismo de garantia de um preço mínimo ao produtor em face às  oscilações do mercado.

 

 

Funciona mais ou menos da seguinte forma: Os agricultores vendem a sua produção aos comerciantes antes da colheita para se protegerem  das  incertezas no clima, por exemplo, e garantirem assim  um preço futuro. O comerciante também beneficia. Quando a colheita é má, o agricultor ainda recebe uma bom rendimento  e quando a safra é óptima, o comerciante ainda beneficia  mais.


Este mesmo mecanismo é usado pelos especuladores para  ganharem  dinheiro com a desregulamentação dos mercados de matérias-primas que foi estimulado em meados dos anos noventa, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha pelos bancos, pelos políticos defensores do livre-mercado e pelos hedge funds, fundos de alto risco, no contexto da processo de desregulamentação da economia mundial. Os contratos de compra e venda de alimentos tornaram-se “produtos derivados” que poderiam ser negociados de forma independente das transacções reais agrícolas. Uma  nova actividade nascia, a especulação sobre os produtos alimentares.


Os especuladores têm hoje mais peso nos mercados de futuros, mesmo que essas transacções não tenham nada a ver com a oferta real e a procura. Mike Masters, gestor de Masters Capital Management, sublinha que em 1998 o investimento financeiro especulativo nos sectores agrícolas foi de cerca de 25% e hoje está perto dos   75%. Estas transacções  são realizadas nos mercados de futuros sobre estes bens, o mais importante dos quais a nível mundial é o mercado de commodities em Chicago, enquanto na Europa os produtos alimentares  e  de matérias-primas são negociados nos mercados de futuros de Londres, Paris, Amesterdão e Frankfurt.

 

 

 

” Um Depósito, um investimento, 100% Natural”


Em 2006/2007, depois da queda do mercado de crédito hipotecário de alto risco nos Estados Unidos, os investidores institucionais, como bancos, seguradoras e fundos de investimento procuraram lugares mais seguros e com maior rendimento para investirem as suas disponibilidades. Alimentos e matérias-primas tornaram-se uma alternativa popular. Como o preço dos alimentos disparou, os investimentos nos  mercados de futuros de alimentos aumentaram, fazendo subir o preço dos cereais com o consequente aumento na taxa de inflação calculada, por exemplo, seja  na base nos preços dos alimentos, seja na base do índice geral de preços.

 

 

Na Alemanha, o Deutsche Bank anunciou grandes remunerações nos investimentos feitos nos produtos agrícolas em fase de crescimento dos seus preços. E negócios semelhantes foram promovidos pelos principais bancos europeus, BNP Paribas. O banco  Caixa Catalunya exortou mesmo os seus clientes em Janeiro de 2011 a investirem em matérias-primas sob o lema “um investimento 100% natural”. .

O que é que eles oferecem? A garantia de 100% do capital com a possibilidade de obter lucros até cerca de 7% ao ano. Como? De acordo com os anúncios, com base na “evolução dos rendimentos em três produtos alimentares: açúcar, café e milho”. Para garantir tais elevados rendimentos, os prospectos  sublinham  que os preços destes três produtos aumentaram em cerca de 61%, 34% e 38% respectivamente nos últimos meses devido à “crescente procura  que está a aumentar  acima da taxa de crescimento da produção”, que por seu lado seria devida ao aumento da população mundial e à  produção de agrocombustíveis.


A Caixa Catalunya tinha, porém, deixado de fora informações importantes: a especulação sobre os produtos alimentares  que permite estes tão elevados lucros  aumenta o preço destes bens, torna-os  inacessíveis à uma  grande parte da população em toda a zona Sul e condena milhares de pessoas à pobreza, à fome e à morte nesses países.

 

A Dependência do petróleo


Outro elemento que agravou a crise alimentar é a enorme dependência do petróleo no actual modelo de produção e distribuição alimentar. O aumento do preço do petróleo teve um impacto directo sobre o aumento semelhante no custo dos alimentos básicos. Em 2007 e 2008 o preço do petróleo e o preço dos alimentos atingiram  níveis recordes. Entre Julho de 2007 e Junho de 2008, o petróleo passou de 75 dólares o barril a 140 dólares, enquanto o preço dos alimentos básicos passou de 160 dólares para 225, segundo o Índice dos Preços da Alimentação da  FAO.


Alimentação e agricultura tornaram-se fortemente dependentes do petróleo. Depois da  Segunda Guerra Mundial e com a Revolução Verde nos anos sessenta e setenta, e com o suposto aumento na produção, foi adoptado um modelo intensivo e industrial da agricultura. No sistema actual, a nossa comida viaja milhares de quilómetros antes de chegar às  nossas mesas; a produção requer o uso intensivo de máquinas agrícolas, pesticidas químicos, herbicidas e fertilizantes. Este modelo não poderia existir sem petróleo.


O aumento do preço do petróleo e a estratégia dos governos para combater a mudança climática levou a um crescente investimento na produção de combustíveis alternativos, os agrocombustíveis, como o biodiesel e o bioetanol, feito à base de  milho, açúcar e outras culturas. Mas essa produção entrou em concorrência directa com a produção de bens destinados à  alimentação e agora daqui resulta uma outra causa do aumento dos preços dos alimentos.

 

 

O Banco Mundial reconhece que, quando o preço do petróleo sobe para mais  de cinquenta dólares por barril, um aumento de 1% no seu   preço provoca um aumento de 0,9% no preço do milho, uma vez que “para cada dólar que o preço do petróleo sobe a rentabilidade do etanol sobe e, consequentemente, a procura  por milho cresce. “

 

Desde 2004, dois terços do aumento na produção mundial de milho foi destinado a satisfazer a procura norte-americana para os agrocombustíveis. Em 2010, 35% da safra de milho nos Estados Unidos, que é 14% da produção mundial, foi usado para produzir etanol.  E esta tendência está em franca ascensão.

 

 

Mas, para além das causas, como a especulação de alimentos e a subida dos preços do petróleo que tem um impacto sobre o crescente investimento em agrocombustíveis, levando à arbitragem entre a  produção de cereais para consumo ou  para os transportes, o sistema de alimentação e agricultura ficam  profundamente vulneráveis ​​e ficam  nas mãos dos mercados.  A liberalização crescente do sector nas últimas décadas, a privatização dos recursos naturais (água, terra, sementes), a imposição de um modelo internacional de comércio ao serviço de interesses privados, etc, levou à crise actual.


Enquanto a agricultura e os bens alimentares  continuarem a ser considerados como mercadorias nas mãos da mais alta proposta de aquisição na bolsa, enquanto os interesses comerciais prevalecerem sobre as necessidades alimentares e sobre os limites do planeta, é a nossa segurança alimentar, é o nosso bem-estar, é o equilíbrio do nosso meio ambiente, isto é,  do planeta, é tudo  isto   que está longe de estar garantido.

 

Esther Vivas é um membro do Centro para o Estudo dos Movimentos Sociais (Centro de Estudios Sociales Sobre Movimientos) na Universidad Pompeu Fabra (Barcelona). Ela é a autora de “torta de En la contra deuda externa” (El Viejo Topo, 2008) entre outras publicações  e um colaborador de CIP Americas Program www.cipamericas.org.

 

 

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