Claro que não somos lixo! – Augusta Clara

 

Para mim, nem vale a pena ler este texto até ao fim porque trabalhei 37 anos na Função Pública e sei muito bem do que falo. Lixo foram sempre os gajos e as gajas (é assim mesmo) que lá foram metidos pelos sucessivos partidos que iam ganhando as eleições, metidos nos cargos de topo e nas chefias intermédias – mais os que já lá estavam e se vendiam -, e que sabotaram as iniciativas, ignoraram as propostas de tanta gente competente que sempre se esforçou por isso.

 

Falo da minha experiência num grande laboratório do Estado, criado com a ambição do Veiga Simão de ter um MIT em Portugal. E teve condições para isso porque, em plena crise do princípio dos anos 1980, o LNETI, com o dinheiro dos noruegueses, era uma instituição rica e de ponta em termos de equipamento, serviços e pessoal científico. O que deitou tudo abaixo foi a política de amiguismo e a incompetência das várias gestões sucessivas à saída do Veiga Simão da presidência. Cada um que lá chegava, e não percebia nada da casa, queria mostrar serviço e, das cabeças dos boys e das girls, saíram as maiores barbaridades e o desbaratar de dinheiro à tripa forra. Desde os anos em que Cavaco Silva era primeiro-ministro e a anunciava que entravam por dia milhões da UE. Para onde foram todos ignoramos, não é?

 

Bom, depois veio António Guterres e o seu ministro Augusto Mateus cheio de bons propósitos que reuniu connosco e nos prometeu um futuro diferente. E, nós, os investigadores, organizámo-nos e pedimos uma audiência ao ministro da tutela, Mariano Gago que fez orelhas moucas e nem sequer nos recebeu. E, assim, se deu a derrocada duma instituição que tinha tudo para ter sido um brilhante instituição científica em todas as áreas que cobria: biotecnologia, energias convencionais e renováveis (biomassa, solar), química, indústrias alimentares, óptica, electrónica, materiais, laboratório de análises industriais, centro de informática e um dos centro de informação mais modernos, mais bem equipados e desenvolvidos do país. Desde o princípio dos anos 1980, só o Instituto de Alta Cultura tinha, como nós, ligação ao sistema de bases de dados DIALOG, em Palo Alto (Califórnia), o melhor sistema da bases de dados científicos de todo o mundo, em todas as áreas. O conjunto de técnicos que o consultavam era altamente especializado e cada um só o consultava na sua área de formação. Tínhamos o escudo e era tudo pago em dólares.

 

Perdoem-me este chato relatório que vos fiz. Mas pretendia demonstrar, com um exemplo concreto e significativo para o desenvolvimento do país, que, tanto o PSD como o PS, foram um desastre como governos. Preocuparam-se mais com as mordomias que distribuíram pelos seus membros do que com os processos que teriam levado Portugal para a frente.

 

Depois, quando se aperceberam do fracasso, encarregaram alguma entidade do submundo de lançar o anátema sobre os funcionários públicos. Lembro-me bem desse tempo: não se entrava em lado nenhum em que não se ouvissem invectivas sobre os funcionários públicos, era uma verdadeira sanha vingativa bem orquestrada. Bem disse a Helena Roseta que “os funcionários públicos eram massacrados”.

 

E, pronto, mais não digo. Entrei em todas as lutas. Depois, reformei-me e cansei-me de me pronunciar sobre o assunto mas, de facto, não é possível ficar calada perante tanta mentira e desonestidade.

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