O Pato algemado – 9 – coordenação de Carlos Loures

O Pato algemado

 

 

 

                            Este desenho de João Abel Manta volta a ser actual.              

                                                                         Não acham?

 

 

 

 

 

Woody Allen ataca de novo

 

 

 

 

 

 

Woody Allen é um colaborador residente de “O Pato algemado”. Hoje trazemos aqui algumas frases de sua lavra, verdadeiras pérolas de sabedoria… ou coisa assim. Ora, leiam:

 

A realidade é chata, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife.

 

Certo dia, atrasei-me ao voltar da escola e meus pais pensaram que eu havia sido sequestrado. Entraram imediatamente em ação: alugaram o meu quarto.

 

Deus não existe e, se existe, não é muito fiável.

 

É agradável, de tempos em tempos, tentar imaginar o que teria sido a existência se Deus tivesse conseguido um orçamento e um guionista melhores.

 

E se tudo for uma ilusão e nada existir? Nesse caso, não há dúvida de que paguei demais por aquela carpete nova.

 

 

 Fiz um curso de leitura dinâmica e li “Guerra e Paz” em vinte minutos. Tem a ver com a Rússia.

 

Fui criado na velha tradição judaica: nunca me casar com uma mulher gentia, nunca me barbear aos sábados e, principalmente, nunca barbear uma mulher gentia aos sábados.

 

Mais do que em qualquer outra época, estamos numa encruzilhada. Um dos caminhos leva à catástrofe e ao mais terrível desespero. O outro leva à extinção total. Vamos rezar para que façamos a escolha certa.

 

 As minhas notas na escola variaram de abaixo da média a abaixo de zero. Fui reprovado no exame de Metafísica. O professor acusou-me de estar a  olhar para a alma do rapaz sentado ao meu lado.

 

Na Califórnia não se deita o lixo fora.  Reciclam-no e convertem-o em programas de TV.

 

Não que eu esteja com medo de morrer. Só não queria lá estar quando isso acontecesse.

 

 

O mundo divide-se em pessoas boas e pessoas más. As pessoas boas têm um sono tranquilo. As pessoas más divertem-se muito mais.

 

Por que não fala Deus comigo? Se Ele pelo menos tossisse!”

 

Por que motivo lavamos os dentes quatro vezes ao dia e fazemos sexo duas vezes por semana? Por que não o contrário?”

 

Quando comecei a escrever, tentei vender a história de minha vida sexual a uma editora. Eles compraram e transformaram -no num joguinho de armar para crianças.

 

Se Deus existe, por que  não me dá um sinal de Sua existência? Como, por exemplo, abrir uma bela conta em meu nome num banco suíço.

 

A única coisa que lamento na vida é  não ser outra pessoa qualquer.

 

Não posso escutar muito Wagner. Fico com vontade de invadir a Polónia. 

 

 

 E agora um conto. O Lago dos Cisnes em versão woodiana:

 

 

O feitiço

 

A overture começa com um uníssono de metais, embora os baixos pareçam estar a avisar: ” Ignorem esses metais. O que sabem eles da vida?” O pano sobre e mostra o palácio do Príncipe Sigmund, magnífico, esplendoroso e com ar condicionado central. O Príncipe está a celebrar o 21º aniversário, mas não parece muito feliz ao abrir os presentes, pois a maioria deles são pijamas. Um a um, os velhos amigos  vêm render-lhe homenagem e Sigmund agradece com apertos de mão ou palmadinhas nas costas, segundo o sítio para onde estão virados. Confraterniza com Wolfshmidt, seu melhor amigo e  estabelecem um pacto entre ambos: se um deles ficar careca, o outro usará peruca.

 

Os outros dançam, preparando-se para a grande caçada, até que Sigmund pergunta: ” Qual caçada?” Ninguém sabe ao certo, mas a orgia já foi longe demais e , quando o empregado traz a conta, todos ficam  aborrecidos.

Entediado com a festa, Sigmund dança até a beira do lago, no qual contempla a sua própria imagem durante 40 minutos, aborrecido por não ter trazido seu aparelho de barbear. De repente, ouve um bater de asas e vê um bando de cisnes selvagens voando à luz do luar. Os cisnes dobram à direita e voam na direção do príncipe. Sigmund constata que o lider é parte cisne, parte mulher – infelizmente, divididos no sentido longitudinal.

 

Sigmund apaixona-se por ela e promete a si mesmo tomar cuidado para não fazer referência a ovos. Como sempre dançam um pas de deux, que termina quando Sigmund tem um ataque de lumbago. Yvette, a Mulher-Cisne, conta-lhe que foi enfeitiçada por um mago chamado Von Epps e que, por causa de sua aparência, é quase impossível conseguir um papagaio no banco. Num solo particularmente difícil, explica através da dança que a única maneira de quebrar o encanto é convencer o seu amante a fazer um curso de taquigrafia por correspondência. Isto é odioso para Sigmund, mas mesmo assim ele jura que fará. Subitamente, Von Epps aparece, na forma de um saco de roupa suja, e leva Ivette com ele, finalizando o primeiro acto.

 

Começa o segundo acto, o qual se passa uma semana depois, e o Príncipe vai casar com Justine, uma mulher de quem ele tinha se esquecido completamente. Sigmund está dilacerado por sentimentos ambíguos, por ainda ama a Mulher-Cisne, embora Justine também seja muito bonita e não tenha certas desvantagens, como penas e bico. Justine dança sedutoramente em torno de Sigmund, o qual indeciso entre casar-se ou procurar Ivette e ver se os médicos podem fazer alguma coisa. Soam os címbalos e entra Von Epps, o mago. É verdade que não tinha sido convidado para o casamento, mas promete não comer muito. Furioso Sigmund desembainha a espada e atravessa com ela o coração de Von Epps. Isso transforma um pouco a festa, e a mãe de Sigmund ordena ao cozinheiro que espere um pouco antes de servir o banquete.

 

Enquanto isso, Wolfschmidt, seguindo ordens de Sigmund, encontra Ivette – o que não foi difícil, porque, como ele explica, ” Quantas mulheres cisnes existem em Hamburgo?” Ignorando as lamúrias de Justine, Sigmund corre ao encontro de Ivette. Justine vai atrás dele e beija-o, enquanto a orquestra ataca um furioso dobrado.

 

Nesse momento, podemos perceber que Sigmund  veste a malha de balet do avesso. Ivette chora, dizendo que agora só a morte quebrará o encanto. E assim, numa das passagens mais comoventes e belas da história do balet, atira-se de cabeça contra o muro. Sigmund observa quando o corpo do cisne morto se transforma no corpo de uma mulher morta, e finalmente compreende quão cruel pode ser a vida, principalmente para os galináceos. Arrasado, decide juntar-se a ela e, depois de uma delicada dança de lamentação, engole um safio vivo.

 

Fez sentido?

 

 

O elogio fúnebre

 

 

Elogio Funebre é um dos 14 sktches que fazem parte de Os Novos Monstros, filme realizado por Mario Monicelli, Dino Risi e Ettore Scola. É superiormente  desempenhado por Alberto Sordi, que interpreta um comediante fazendo o elogio fúnebre de um colega. Não deixem de ver:

 

1 Comment

  1. Quando eu morrer quero que seja assim. Só não quero é ir para dentro dum buraco. Já chegam aqueles em cá andei metida. Primeiro soprem para cima. Depois, quando eu andar por lá em remoinho, então cantem e dancem. Por favor. Amanhã acabo de ler o Pato.

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