Aceitação dos mitos da violência doméstica e as variáveis preditoras (considerações finais) – por Ana Afonso Guerreiro

VI

 

 

Desenvolvemos  um estudo correlacional de verificação de modelo teórico com uma amostra de 183 participantes (N = 183), no qual, de acordo com o nosso objectivo e expectativas, observámos que o cavalheirismo paternalista, o amor romântico e o sexismo hostil predizem significativamente a aceitação dos mitos da violência doméstica. Com carácter exploratório, observámos ainda que a religiosidade prediz significativamente o sexismo benevolente e o cavalheirismo paternalista. O modelo apresenta um bom ajustamento com um χ2 / 5 = 2.944, p = .709, GFI = .99, CFI = 1.00, RMSEA = .000.

Segundo o sexismo ambivalente, quando uma mulher se ajusta e se adapta aos papéis tradicionais de esposa e mãe, merece a veneração e sacrifício do seu homem (Valor-Segura et al., 2008). Esta crença expressa o sexismo benevolente e justifica o sexismo hostil quando a mulher não corresponde ao papel tradicional esperado (Viki et al., 2003). Tal como esta crença, a sociedade está repleta de ideologias que servem de guia e desculpa para o comportamento do indivíduo, legitimando e contribuindo para que homens e mulheres adoptem certos esquemas biológicos e condutas a respeito dos papéis dos géneros (Formiga, 2002). Por outro lado, é possível que as crenças sexistas, hostis e benevolentes, influenciem a sociedade na percepção sobre a violência doméstica (Valor-Segura et al., 2008). Observámos no nosso estudo que, de facto, o sexismo hostil, explicado pelo sexismo benevolente e pelo cavalheirismo paternalista, prediz significativamente a aceitação dos mitos da violência doméstica, por outras palavras, quanto mais sexista uma pessoa é mais deturpada é a sua percepção sobre a violência doméstica.

Como vimos, as atitudes sexistas justifica e reforçam a desigualdade entre os géneros e são expressas de forma ambivalente, isto é, de duas formas distintas, por meio de atitudes tanto hostis como benévolas (Formiga, 2002). No combate ao sexismo e discriminação de género, surgiu na sociedade uma nova forma de sexismo – o neosexismo ou sexismo moderno (Moya & Expósito, 2001; Tougas et al. 2005; Formiga et al. 2005). Esta nova forma de sexismo manifesta-se de forma subtil, discretamente nas relações íntimas e intergrupais, negando a sua existência e mantendo uma atitude de conformidade positiva (Formiga et al. 2005). Ou seja, os sexistas rejeitam agora que o são. Apesar dos estudos sobre as novas formas de sexismo contarem já com cerca de duas décadas, as investigações têm ainda um caminho longo a percorrer, sendo que têm incidido especialmente no mundo anglo-saxónico (Moya & Expósito, 2001).

O objectivo do nosso estudo foi primordialmente observar a relação entre as variáveis sexismo ambivalente, amor romântico e cavalheirismo paternalista, e observar os preditores da aceitação dos mitos da violência doméstica, ou seja, o sexismo hostil, cavalheirismo paternalista e amor romântico. Contudo, outros factores podem estar influenciando a aceitação dos mitos da violência doméstica e das variáveis preditoras, pelo que devem ser, no futuro, desenvolvidas investigações nesse sentido.

Os valores culturais, por exemplo, representam o resultado da cultura, da sociedade e da personalidade, apresentando o poder de influenciar atitudes e comportamentos (Rokeach, 1973 cit. in Belo et al., 2005). Considerando o vínculo do sexismo com o contexto cultural, é possível que os valores reúnam elementos determinantes para se compreender a manifestação deste tipo de preconceito (Belo et al., 2005). Segundo o modelo de Hofstede (1980, cit. in Pina e Cunha & Rego, 2009), Portugal caracteriza-se por ser colectivista (mais do que individualista) e com maior distância ao poder, por conseguinte, as categorizações sociais têm um peso elevado na percepção social, logo em toda a diferenciação intergrupal.

O nosso estudo foi desenvolvido em Portugal e os participantes considerados foram apenas a população nascida em Portugal. A maior parte da nossa amostra foi recolhida no Algarve (43,2%), uma zona que vive em muito do turismo, e por isso habituada à presença de culturas diferentes. Julgamos que seria pertinente alargar este estudo a outras regiões do país de modo a comparar resultados. Portugal é considerado um país ainda com alguma dimensão conservadora, onde estes estereótipos mais se acentuam Furnham (1999, cit. in Pereira & Veríssimo, 2008). Países mais conservadores, laicos (há pouco tempo), de valores colectivistas como Portugal, só há relativamente pouco tempo é que tem vindo a manifestar interesse científico e a considerar o fenómeno de responsabilidade social. A inexistência de escalas (ou traduções publicadas) adaptadas à população portuguesa para o estudo do fenómeno ilustra bem a diferença entre Portugal e outros países no que respeita à preocupação com esta temática.

Observámos diferenças significativas quanto ao género dos participantes no nosso estudo. A nossa amostra contou com uma maioria do género feminino entre os participantes. Em relação às variáveis habilitações literárias e rendimentos também foram observadas diferenças significativas na nossa amostra (p ≤ .000), traduzindo-se numa amostra que evidencia uma baixo nível socioeconómico.

Outro aspecto importante, decorrente da nossa análise exploratória é o tema da religião. Não foi nosso objectivo avaliar a relação das diversas religiões perante a aceitação dos mitos da violência doméstica, contudo, o grau de religiosidade foi considerado na investigação e permitiu observar a sua relação com o sexismo benevolente e cavalheirismo paternalista. Porém, será necessário um estudo que aprofunde esta relação e tome em consideração não apenas o grau de religiosidade mas também qual a religião do participante. A religião é uma das dimensões mais importantes da pessoa humana, influenciando todo o sentido da vida e da morte, o modo como se encara o mundo, as relações, a família, as alegrias e o sofrimento, a tolerância ou o racismo, a política e o trabalho (Oliveira, 2000, cit. in Silva, 2008). Também nas relações amorosas, Garcia e Maciel (2008, cit. in Andrade & Garcia, 2009a) afirmam que o envolvimento romântico é influenciado pela religião, podendo esta contribuir de forma positiva ou negativa para a satisfação conjugal e para o processo de escolha do companheiro.

                                                                                                        Guerreiro, A.A (2011)

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