O Terramoto de 1755 – 4 – por Carlos Loures

(Continuação) 

 

O Terramoto e a cultura europeia

Em textos anteriores, vimos já que se perdeu muita coisa importante no Terramoto de 1755 – os seis hospitais da cidade, incluindo o de Todos-os-Santos, 33 palácios da grande nobreza, o Palácio Real, a Patriarcal, o Arquivo Real, a Casa da Índia, o Cais da Pedra, a Alfândega palácios, igrejas, bibliotecas, a faustosa Ópera do Tejo, inaugurada sete meses antes… Na «Gazeta de Lisboa» do dia 6 de Novembro, afirmava-se que «O dia primeiro do corrente mês ficará memorável pelos terremotos e incêndios que arruinaram uma grande parte desta cidade». Diga-se, de passagem, que a «Gazeta» nunca interrompeu a sua publicação devido ao sismo, constituindo uma importante fonte de informação sobre o que aconteceu.

 

O que se ganhou, também sabemos: uma cidade nova, muito moderna para a época em que foi construída e, pormenor importante, edificada de acordo com um sistema anti-sísmico – a famosa estrutura flexível de madeira dos edifícios, «em gaiola». Como disse José Augusto França, a nova Lisboa saída do inspirado traço de Eugénio dos Santos, surge como uma autêntica «cidade das luzes», uma obra emblemática do espírito do iluminismo.

 

Dada a necessidade de uma reconstrução rápida, optou-se por uma tipologia despojada de ornatos, um estilo que resulta de uma mistura de elementos que, segundo o Professor Nelson Correia Borges, se inspira « num passado arquitectónico, recente ou longínquo, de Lisboa, numa combinação de maneirismo revivido com alguns pormenores empobrecidos do barroco e do rococó». Em todo o caso, apesar desse despojamento formal que caracteriza o «pombalino», a reconstrução deu – nos uma praça de beleza ímpar, à maneira das «praças reais» europeias – o Terreiro do Paço (uma das derrotas do Marquês, que quis crismar o largo como Praça do Comércio, nome que ainda hoje figura nas placas toponímicas).

 

Mas não só na arquitectura houve ganhos – o grande sismo e a destruição de Lisboa, tiveram repercussões na cultura da segunda metade do século XVIII. Numa época em que os filósofos punham em causa princípios considerados até então intocáveis, uma tal catástrofe, destruindo em minutos uma das maiores cidades da Europa, que tantas centenas de anos levara a edificar, dava que pensar. Era a insustentável fragilidade da condição humana face à incomensurável grandeza… de quê? De Deus? Da Natureza? Diversos vultos da cultura europeia lhe dedicaram escritos. A catástrofe foi motivo para equacionar questões importantes que mexiam com a religião, com os conceitos filosóficos, com o papel atribuído ao homem no palco do mundo. As grandes interrogações que se punham, pelo menos na Europa das Luzes, poucas décadas antes da Grande Revolução de 1789, eram a prevalência (ou não) da vontade divina e a margem de manobra que o homem tinha para decidir o seu devir.

 

Em síntese – Deus e o homem – quem decidia o quê. Tudo isto (principalmente aqui, com a Inquisição de ouvidos espalhados por toda a parte) tinha de ser dito com cuidados funambulescos, avançando-se sobre um estreito arame de conceitos, não fosse no meio das deambulações filosóficas escapar-se alguma heresia e cair-se em cima da fogueira. como iremos ver, às vezes acontecia. Sobre o que se escreveu, Europa fora, acerca do terramoto, os exemplos mais citados são «O Poema sobre o desastre de Lisboa», escrito em 1756 por Voltaire (1694-1778) e a consequente «Carta a Voltaire» de Jean-Jacques Rousseau (1712- 1778), os «Escritos sobre o Terramoto de Lisboa», de Immanuel Kant (1746-1781) e palavras de Goethe (1749-1832) que, dissertando sobre a catástrofe, disse “porventura em algum tempo o demónio do terror espalhou por toda a terra, com tamanha força e rapidez, o arrepio do medo”. O poema de Voltaire tem como “subtítulo” ou “título alternativo” as palavras que se seguem: «Ou exame do axioma “”Tout est bien quand finit bien”». Voltaire contraria o pressuposto de que o mundo criado por Deus, está de tal maneira bem organizado que, quando ocorre um «mal necessário», a Divina Providência logo compensa os homens com um «bem» que supera esse mal. Utiliza o terramoto que destruiu Lisboa como um argumento que contraria aquele conceito optimista e conducente ao fatalismo que não deixa margem de manobra à intervenção humana. Digamos que a reflexão voltaireana introduz o determinismo como elemento a tomar em consideração. Tornou-se óbvio desde logo que, na mira de Voltaire, estavam os postulados metafísicos de Leibniz (1646-1716) segundo os quais o nosso mundo é o melhor, pois foi o escolhido e criado por Deus. Na «Teodiceia», Leibniz atacava frontalmente todas as tentativas filosóficas para contrariar a religião. Voltaire, no poema, perguntava ironicamente como é que a bondade de Deus permitiu uma tal tragédia. Em Candide, ou l’optimisme (1759) o terramoto de Lisboa é também referido como negação desse optimismo defendido por Leibniz. Por seu turno, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) 1756, na sua “Lettre sur la Providence” (1756), contraria a posição de Voltaire, sem contudo apoiar a teodiceia leibniziana. Segundo Rousseau, a culpa do que ocorreu em Lisboa, não seria de Deus, nem o drama terá decorrido de causa natural.

 

Os motivos da tragédia teriam de ser procurados na corrupção da «integridade» dos homens, provocada pela degenerescência social, pela usura, por aquilo que Marx no século seguinte definiria como a vertigem da acumulação do capital. Como exemplo, Rousseau, referia o facto de em Lisboa haver cerca de vinte mil casas com seis e mesmo sete andares, o que era contrário à Razão. A cupidez, a ânsia de lucro, a corrupção da natureza humana que Deus atribuiu aos homens, eis a causa da tragédia. Kant, por sua vez, diz nos seus «Ensaios»: «A história não regista outro exemplo de uma agitação das águas tão grande e tão extensa numa tão larga superfície da Terra». E, mais adiante, referindo-se à generalidade das pessoas: «Como o terror lhes rouba a reflexão, julgam que estas grandes desgraças são das tais que não se podem minorar por qualquer precaução e supõem que a dureza do destino só pode ser abrandada por uma submissão cega e entregam-se completamente à misericórdia ou à cólera divina».

 

Houve também os que não especularam e se limitaram a descrever. Um bom exemplo desse formato é o de J.R.A. Piderit (1710-1791), que diz em «Freye Betrachtung über das neuliche Erdbeben zu Lisabon» (Marburgo, 1756, citado por Isabel Barreira de Campos em «O Grande Terramoto -1755», Lisboa, Parceria, 1998): «As nossas casa tremiam como folhas das árvores, e os nossos corações como as nossas casas. Imaginai, ó vindouros, o pavor com que o ranger e o ribombar da queda dos edifícios, que ruíam em massa, nos abrasava, como um fogo, até à medula dos ossos. Aqui uma caterva de gente contorcia-se sob os escombros, nas mais cruenta agonia. Além gritos lancinantes de morte coavam através das pedras e da terra, e a ninguém era possível acudir aos desventurados que se debatiam sozinhos. Mas além um desgraçado rasgava as unhas e a carne até aos ossos, a fim de salvar a sua pobre vida de uma cova – tal, porém, para nada mais lhe valendo senão para se tornar em coveiro de si mesmo, porquanto, com suas mãos, preparava o próprio túmulo». (Continua)

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