O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 23 – por Raúl Iturra

 

 

A Mitologia grega tem a virtualidade de ter deuses que transitam a seres humanos e seres humanos que são deuses também. Basta ler textos como A Ilíada[1] e a Odisseia[2], ou, entre outros, o mito de Édipo[3] para entendermos parte dessa mitologia. Esta riqueza mitológica faz-nos pensar de imediato, e de forma correcta, como o processo da psicanálise nasceu antes da nossa era, pela capacidade de ver o real dos Helenos Clássicos[4]. O Mito de Eros, base da teoria da psicanálise, juntamente com o conceito de Thanatos usados por Freud para definir os dois extremos da vida: a paixão do homem e o fim da sua vida.

 

Em grego, Eros significa desejo incoercível dos sentidos. Personificado, é o deus do amor. O mais belo entre os deuses imortais, segundo Hesíodo, Eros dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e homens. Dotado, como não poderia deixar de ser, de uma natureza vária e mutável, o mito do deus do amor evoluiu muito, desde a era arcaica até à época alexandrina e romana, isto é, do século IX A.D.C. ao século VI D.C. Nas mais antigas teogonias, como se viu em Hesíodo[5], Eros nasceu do Caos, ao mesmo tempo que Geia e Tártaro[6].

 

Não falo mais de mitologia, porém, não posso deixar de salientar a importância da obra de Hesíodo para a psicanálise.[7].


 

NOTAS:

 

[ 1] A Ilíada (do grego ΙΛΙΑΔΟΣILIADOS, na transliteração) é um poema épico grego que narra os acontecimentos ocorridos no período de pouco mais de 50 dias durante o décimo e último ano da Guerra de Tróia, cuja génese radica na cólera (μῆνις, mênis) de Aquiles. O título da obra deriva de um outro nome grego para Tróia, Ílion.

A Ilíada e a Odisséia são atribuídas a Homero, que se julga ter vivido por volta do século VIII a.C, na Jônia (região actualmente integrada na Turquia), e constituem os mais antigos documentos literários gregos (e ocidentais) que chegaram até aos nossos dias. Ainda hoje, contudo, se discute a sua autoria, a existência real de Homero, ou se as duas obrais teriam sido compostas pela mesma pessoa. Texto completo em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Il%C3%ADada.

[2] Odisséia (português brasileiro) ou Odisseia (português europeu) (em grego, Οδύσσεια, Transliteração Odýsseia) é um dos principais poemas épicos dos antigos gregos. Foi composta em 24 cantos e é atribuído, tal como a Ilíada, a Homero. Teria sido escrito provavelmente no fim do século VIII a.C., em algum ponto da Jônia, região situada na costa da actual Turquia, habitada então por gregos[1].

O poema é parte fundamental do cânone ocidental, e continua a ser lido hoje em dia, tanto no grego homérico em que foi escrito quanto em traduções para os mais diversos idiomas do mundo. A obra foi composta e transmitida oralmente, na tradição local, cantada por um aedo (talvez um rapsodo.[2] ). Os detalhes da antiga execução oral do poema e a sua conversão para o formato escrito têm despertado um debate contínuo entre os estudiosos. A Odisséia foi escrita num dialeto “poético” do grego antigo, que não pertence a qualquer região geográfica, e compreende 12.110 linhas de versos em hexâmetro dactílico. Entre os elementos mais notáveis do texto está a sua trama não linear e o facto de que os acontecimentos são mostrados como sendo igualmente influenciados tanto pelas escolhas feitas por mulheres e servos quanto pelas acções dos heróis. O termo “odisseia” veio a servir, na maioria dos idiomas ocidentais, para definir qualquer tipo de viagem ou jornada épica. Texto em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Odiss%C3%A9ia.

[3] É na base deste mito que Freud baseia a sua interpretação da pulsão de parricida, amor erótico para a mãe, ciúmes filiais para o pai: quem ama o seu objecto do desejo, a sua mãe, a mulher do seu pai. Etapa que, na sua teoria, todo o ser humano vive na sua infância, ultrapassada na vida adulta, apesar de existir uma permanente proximidade ao amor edipiano ao longo da vida de todo o ser humano. Define com estas ideias uma carga pesada de levar. O mito pode ser lido em: http://www.franciscanos.net/portugues/livres5.htm. Em meu entender, há muito uso do conceito edipiano nas nossas curtas vidas, sobrecarregando-a, como, aliás, está definido no conceito de resiliência criado por Cyrulnik: o complexo de Édipo faz a nossa passagem pelo mundo, pesada e injusta. A capacidade de construção humana, faz de nós seres capazes de iludir esses mitos gregos introduzidos, desnecessariamente, nas nossas vidas. Especialmente na actualidade, porque os mais novos adquirem a independência muito cedo na vida, governada pela teoria (neoliberal) económica. Somos nós os pais, nos tempos que correm, quem se deve desamamentar da necessidade de ter os filhos sempre por perto e procurar alternativas de adulto maior, com outras pessoas da nossa era cronológica pessoal. O dito Complexo de Édipo ou é para os pais, habituados ao Quarto Mandamento de Igreja Católica e de outras confissões cristãs, ou do Islão, ou para crianças que sofrem o facto desses ciúmes, como o caso citado anteriormente, de Alice Miller.

 

[4] O texto de Lazlo António Ávila, analista do Núcleo de Psicologia Hospitalar de São Paulo, que trabalha com crianças e tem escrito livros sobre como as tratar, em: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Lazlo+Antonio+%C3%81vila%2C+biografia, em 2002, escreveu um artigo, que uso para sustentar a minha hipótese, intitulado “Psicanálise e mitologia grega”, publicado na Revista Pulsional rev. psicanál; 14/15(152/153): 7-18, dez. 2001-jan. 2002, onde se lê:

Os mitos são o nada que representa tudo. A psicanálise deve demais aos gregos, principalmente para a sua mitologia. Os mitos são a Cornucópia onde Freud encontrou inúmeros de seus principais protótipos, desenvolvidos em suas brilhantes metáforas, e base para inúmeros conceitos centrais da psicanálise. Neste artigo nosso objectivo é descrever os seguintes mitos psicanalíticos: o Édipo, o Falo e a Castração, a Horda Primitiva, as Protofantasias, a Cena Originária, o Narciso, a Pulsão, Eros, Tânatos, e finalmente, o Inconsciente, o verdadeiro eixo mítico da psicanálise (AU)”. Este texto pode ser lido em: http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=477182&indexSearch=ID.

[5] Pela sua importância individual e da literatura grega, que encantou Freud e outros analistas, além de estudiosos da Grécia Clássica, Historiadores, Linguistas, Semióticos e Etnopsicólogos, como eu, parece-me que uma nota deve ser introduzida para elucidar o leitor. A literatura grega da antiguidade desenvolveu-se desde o início da difusão do emprego da escrita, por volta do século VIII antes da nossa era. Período da maior importância para a história das letras ocidentais divide-se nas épocas arcaica (até o fim do século VI antes da nossa era), clássica (séculos V e IV antes da nossa era) e helenística e greco-romana (a partir do século III antes da nossa era).
Antes da utilização da escrita para fins literários, os gregos já faziam poesia para ser cantada ou recitada. Os seus temas eram os mitos, em parte lendários, baseados na memória difusa de eventos históricos, além de um pouco de folclore e de especulação religiosa primitiva. Os mitos, porém, não se vinculavam a qualquer dogma religioso e, embora muitos fossem deuses ou grandes heróis mortais, não eram autoritários e podiam ter o seu perfil alterado por um poeta que desejasse expressar novos conceitos.
Assim, bem cedo, o pensamento grego começou a progredir, na medida em que os poetas reelaboravam as suas fontes. A esse estágio inicial, denominado época arcaica, pertencem os épicos – A Ilíada e A Odisseia – atribuídos a Homero, que recontam histórias entremeadas de mitos da época micénica. Os recursos da poesia didáctica grega, podem ser lidos em http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx
Os vários tipos de poesia lírica grega surgiram no período arcaico entre os poetas das ilhas do mar Egeu e da Jónia, no litoral da Anatólia. Arquíloco de Paros, século VII antes da nossa era, foi o primeiro poeta grego a usar a elegia de uma forma mais pessoal. Suas formas e padrões métricos foram imitados por uma sucessão de poetas jónicos. No começo do século VI, Alceu e Safo criaram seus poemas no dialecto eólico da ilha de Lesbos e foram mais tarde adaptados por Horácio para a poesia latina. A estes seguiu-se Anacreonte de Teos, na Jónia, que também compôs em dialecto jónico. A lírica coral, com acompanhamento musical, pertencia à tradição dórica. Informação completa em: http://www.brasilescola.com/literatura/literatura-grega.htm. Para completar a informação, direi apenas que: A civilização micénica é uma civilização pré-helénica do Heládico recente (final da Edad del Bronce). O seu nome deriva da vila de Micenas, situada no Peloponeso. Parte desta nota é do meu saber, parte está definida em: http://es.wikipedia.org/wiki/Civilizaci%C3%B3n_mic%C3%A9nica.

[6] Para quem queira saber mais sobre este tema, há um texto excelente na Internet, em: http://flaviasilva.wordpress.com/2008/05/14/eros-cupiado-deus-grego-do-amor-mitologia-grega/

[7] Hesíodo (em grego, Ἡσίοδος – Hēsíodos, na transliteração), foi um poeta da Grécia Antiga. Nasceu, viveu e faleceu em Ascra, no fim do século VIII a.C. O leitor, ainda que não helenista, é capaz de se interessar na síntese que passo a escrever, entre palavras minhas e de um texto encontrado na minha pesquisa, para sintetizar a ideia que levou Freud a usar os mitos helénicos, para teorizar o que depois passou a ser a psicanálise. Hesíodo assina a sua obra para fazer uma história pessoal. Após exaltar as Musas que o inspiram, diz-nos, no início da sua obra Teogonia ou genealogia dos deuses, através de um poema: “Foram elas que, certo dia, ensinaram a Hesíodo um belo canto, quando ele apascentava suas ovelhas ao pé do Hélicon divino“.

O conteúdo desse canto é a origem dos deuses. Os velhos mitos constituem o ponto de partida, Hesíodo entrelaça-os e enriquece-os traçando uma genealogia sistemática das divindades. As ideias de que seres individuais constituem o universo e estão vinculados por sucessivas procriações deriva da Teogonia. Nesta obra, há um esforço de pensamento racional que é sustentado pela causalidade e isso abrirá caminho para cosmogonias filosóficas posteriores. Primeiro teve origem o Caos, em seguida a Terra e o Amor (Eros), que é o criador de toda a vida. Do Caos surge a sombra, constituída por um par: Érebo e a Noite. Da sombra também surge outro par: o Éter e a Luz (do dia). Terra dará nascimento ao céu, às montanhas e ao mar. Em seguida, é apresentado o nascimento dos filhos da luz, dos filhos da sombra e da descendência da Terra até ao momento do nascimento de Zeus e do triunfo sobre seu pai, Cronos. A Teogonia enumera três gerações de deuses: a do Céu, a de Cronos e a de Zeus (esta geração é a dos olímpicos).

A interpolação dos episódios de Prometeu e de Pandora na sequência da Teogonia (retomados em Os trabalhos e Os Dias), justifica a condição humana. O primeiro, roubou o fogo divino para dá-lo aos homens e isso atrai a ira de Zeus, que o condena à tortura de ter o fígado eternamente devorado por uma ave. Para os mortais, o castigo foi menor: é determinada a criação de um ser à imagem e semelhança das deusas imortais que dará um presente em nome dos olímpicos aos mortais. Epimeteu, irmão de Prometeu, recebe o presente e, ao abri-lo, deixa escapar todas as mazelas do mundo, conseguindo aprisionar apenas a esperança. Roubo mítico que faz parte dos delírios reais de perseguição que Freud tratou para curar. Note-se que, para ser parte da sua teoria, esses mitos foram, certamente, estudados por Freud. O mito é um fenómeno cultural complexo que pode ser encarado de vários pontos de vista. Em geral é uma narração que descreve e retrata, em linguagem simbólica, a origem dos elementos e postulados básicos de uma cultura A narração mítica conta, por exemplo, como começou o mundo, como foram criados os seres humanos e os animais e a origem de certos costumes e formas das actividades humanas. Os que Freud usa, entre outros, para teorizar e curar mentes doentes, são mitos relacionados com o mundo do simbólico: a relação entre o universal e o singular em psicanálise. Para além das minhas palavras, há uma voz autorizada que define o conceito: mito [do grego antigo μυθος (“mithós”)] é uma narrativa tradicional com carácter explicativo e/ou simbólico, profundamente relacionado com uma dada cultura e/ou religião. O mito procura explicar os principais acontecimentos da vida, os fenómenos naturais, as origens do Mundo e do Homem por meio de deuses, semi-deuses e heróis (todas elas são criaturas sobrenaturais). Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade. Ao mito está associado o rito. O rito é o modo de pôr em acção o mito na vida do Homem (ex: cerimónias, danças, orações, sacrifícios…), ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mito.

Mito de origem e mito do herói na constituição subjectiva; Prometeu e Sísifo: a repetição como destino; Narciso e o mundo contemporâneo; Édipo e Hamlet: o universo trágico e a relação entre o atemporal e o temporal na clínica psicanalítica; Apolo e Dionísio: vida e morte em psicanálise. A ideia é minha, mas fui orientado para esta parte da minha análise pelo curso proferido por Pedro Luiz Ribeiro de Santi, psicanalista e professor da COGEAE PUC-SP ou Universidade Católica de São Paulo e da Escola Superior Psicologia Médica, no Brasil. Para detalhes, veja-se: http://www.sinprorp.org.br/Cursos/2007/233.htm. O interessante desta citação é saber quais os mitos usados e o seu objectivo.

Os mitos gregos são parte da cultura do ocidente, pelo que os seus símbolos são parte do nosso pensamento, saibamos ou não. Freud estava cientificamente obrigado a conhece-los, para entender a mente humana. Se o leitor quer saber mais, pode ler o texto em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hes%C3%ADodo#Obra

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