Attac, França
Raramente um G20 terá dado tal imagem de demissão dos dirigentes mundiais perante o poder dos mercados financeiros. A agenda dos chefes de Estado toda ela baralhada e desorganizada pelo anúncio de um referendo na Grécia sobre o plano de salvamento do euro: tudo foi levado a cabo para fazer com que . Papandreou renunciasse ao seu projecto “consternante” (como assim o declarou Nicolas Sarkozy). O precedente assim criado – consultar o povo sobre uma política de austeridade destinada a satisfazer os mercados financeiros – era na verdade demasiado perigoso para ser tolerado pelas nossas oligarquias.
Quanto ao resto, os resultados são esqueléticos. A taxa sobre as transacções financeiras, grande prioridade da presidência francesa do G20? Barack Obama apenas aceitou que a palavra figurasse no comunicado final. Mas numa fórmula perfeitamente oca: “reconhecemos as iniciativas de alguns dos nossos países para taxar o sector financeiro com vários objectivos, incluindo uma taxa sobre as transacções financeiras, para financiar particularmente o desenvolvimento”. O mínimo decente teria sido que um grupo de países anunciasse a aplicação efectiva a partir de 2012 de uma taxa Tobin para servir de exemplo. Mas esta taxa, que reclamamos desde há doze anos, vai continuar a ornamentar os discursos de Sarkozy durante a campanha eleitoral sem se ter estado a avançar um milímetro sequer durante a sua presidência, em França ou no G20.
A regulação financeira? Nada de novo, outra vez, excepto um recuo bem-vindo. Face à hilaridade geral suscitada pela declaração de Nicolas Sarkozy depois do G20 de Londres em 2009 (“os paraísos fiscais, acabou-se!”), estes “territórios não cooperativos” reapareceram em Cannes em número de 11, entre os quais a Suíça e o Liechtenstein, mas não o Mónaco, visado pela manifestação de 3 de Novembro em Cap d’Ail.
A luta contra a especulação sobre os produtos agrícolas? Vai-se “reforçar a transparência nos mercados de produtos agrícolas”. Ligeiro progresso no entanto, o G20 convida os reguladores a limitar, “se necessário”, as posições especulativas tomadas nos mercados de produtos derivados.
Uma reforma do sistema monetário internacional? “A composição do cabaz de que se constituem os direitos de saque especiais” será revista em 2015, e deve-se caminhar “no sentido das taxas de câmbio determinadas pelas forças do mercado”. A especulação sobre os mercados cambiais tem pois ainda muitos bons dias à sua frente.
Felizmente, nas praças da Grécia, da Espanha, dos Estados Unidos e de numerosos outros países, os cidadãos começam a organizar a insurreição cívica e pacífica que será necessária para pôr termo a esta demissão da política. Em Nice, o fórum dos povos contribuiu para a sua coordenação permitindo o encontro de cidadãos e militantes de todos os continentes. O movimento de indignação planetário, que prolonga e amplifica os métodos e as reivindicações altermundistas, vai colocar cada vez mais os dirigentes políticos perante as suas contradições: querem continuar a impor a sua governança pelos mercados, ou deverão eles inclinar-se perante o renascimento da democracia?
Attac France,
Paris, 4 Novembro de 2011
