Consultório Linguístico – Uma nova coleção – por Magalhães dos Santos

 

 

 

Haverá, certamente, quem pense que este artigo talvez não tenha cabimento nesta rubrica. Quem assim pense terá as suas razões. Eu tenho as minhas para o enviar.

 

Saíram na quarta-feira, dia 2 de novembro, os primeiros volumes de uma nova coleção: a primeira constituída por livros todos eles (re)escritos respeitando o novo Acordo Ortográfico.

 

Como iniciativa, parece-me , louvável. (E não estou, sei-o, muito acompanhado).

 

Continua a haver muitas resistências, algumas delas vindas de gente muito credenciada e de valor.

 

Muito pragmaticamente (lá será o meu caso), algumas pessoas sujeitam-se, de bom grado umas, em plena concordância; resmungando e esperneando outras, mas obedecendo apenas porque lei é lei e esta é um pão duro mas há que comê-lo.

 

Uma vez que o que tem de ser tem muita força, fez bem quem resolveu promover o lançamento desta coleção. De todos os vinte e seis volumes de que ela se  compõe, se houver um percentagenzinha (muito –inha, tenhamos os pés no chão e reconheçamos quem temos…) que leia dois, três, quatro livros… já dá para lançarmos foguetes e pormos a desfilar a banda com fardamentos novos.

 

Os dois primeiros volumes – pelo sedutor preço de um único, 4€99c – são OS LUSÍADAS e K4 O QUADRADO AZUL, de Almada Negreiros. Sobre este escritor e artista plástico, ouvi um dia um pintor dizer que ele valia mais como escritor do que como pintor. Também haverá escritores a dizerem que Almada vale mais como pintor do que como escritor.

 

(Faz-me isto lembrar o caso de um torneiro que era delegado sindical. E dele se dizia que, como torneiro – era um razoável sindicalista. E que, como sindicalista, – se safava como torneiro…).

 

Não sou especialista em nenhum tipo de literatura e “confesso” que de Almada conheço o MANIFESTO ANTIDANTAS e um bonito texto sobre uma criança que desenha uma flor com uns poucos traços toscos. Mas era com esses traços que Deus fazia uma flor… Concordo que é muito pouco para conhecer o valor literário de um escritor. E o MANIFESTO é um panfletocom graça, pela violência usada para desancar o inimigo Júlio Dantas.

 

Quanto à edição dOS  LUSÍADAS… Tem um prefácio da Profª Doutora Isabel Pires de Lima., professora catedrática da Universidade do Porto e ministra da Cultura num governo de José Sócrates, e um posfácio do DoutorJosé CarlosSeabra Pereira, Professor Associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. E pergunto: onde estão as notas explicativas, acerca de personagens da nossa história ou da história mundial, de locais portuguesas ou outras, de entidades mitológicas?… Não há!

 

Quantas pessoas são capazes de ler OS LUSÍADAS sem… explicações? Ou melhor: ler… lerão. E entendem o que leem?…

Já li a nossa epopeia umas oito ou nove vezes. Porque quis fazer – e fiz – uns quatro trabalhos. Um precisamente intitulado  MITOLOGIA, PERSONAGENS E LOCAIS DA HISTÓRIA ANTIGA E DA HISTÓRIA DE PORTUGAL N’OS LUSÍADAS – Outras dificuldades;  outro sobre a Flora no Poema,

 

ainda um  sobre a Fauna,   e mais outro sobre  “Os Lusíadas, os negros, os muçulmanos e os hindus”.

 

Com toda a naturalidade reconheço que, com essas várias (mas não esgotantes) leituras, não saberei entender cada verso do poema, se ele não for acompanhado de notas e comentários. Não  é preciso recorrer à edição de Epifânio, certamente hoje rara e cara. A edição escolar daPorto Editora, de Emanuel Paulo Ramos, satisfaz plenamente.

 

Uma pequenina experiência: a quem se refere Camões ao escrever “Mas aquele que sempre a mocidade / Tem no rosto perpétua”? Todos os membros da Equipagem e os bem-vindos Passageiros sabem que se trata de Baco?

 

E como “decifram” esta estrofe:

 

“Nunca com Marte instructo e furioso
Se viu ferver Leucate, quando Augusto
Nas civis Áctias guerras, animoso,
O Capitão venceu Romano injusto,
Que dos povos da Aurora e do famoso
Nilo e do Bactra Cítico e robusto
A vitória trazia e presa rica,
Preso da Egípcia linda e não pudica,”?  

 

Esta edição de agora, limpinha de observações e ajudas, dará para colecionadores, para pôr na prateleira… Para ler e entender… não me parece…

Serve (servirá…) para familiarizar com o novo Acordo  Ortográfico. Mas estou em crer que Os Lusíadas, sem anotações, não serão a obra mais apropriada para alcançar esse objetivo.

                                                                                                                                                                 

        

                                                         

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