O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 28 – por Raúl Iturra

 

A diferença real entre essa representação inconsciente e uma representação pré-consciente ou ideia consiste na representação inconsciente de matérias desconhecidas pela mente cultural. No pré-consciente, as representações estão associadas a uma representação verbal, entendida bem ou mal. É uma primeira tentativa de Freud para caracterizar o inconsciente e o pré-consciente, por meio metafórico ou figurado da associação com a consciência ou a vida consciente. A pergunta que, certamente se faria, se fosse vivo o nosso analista analisado nestas linhas, seria: Como é que qualquer coisa se converte em consciente? essa pergunta pode ser substituída de forma mais clara por outra: como é que algum assunto passa a ser pré-consciente? A resposta é : devido à associação de ideias com as suas respectivas representações verbais, correctas ou não.

 

Estas representações verbais são traços mnémicos[1] retiradas de percepções com a capacidade, como acontece em todos os traços nmémicos, de se tornarem conscientes. Antes de abordarmos a análise da sua natureza, uma hipótese irrequieta impõe-se na nossa inspiração: não parece possível passar a ser consciente o que antes já existia como estado de percepção consciente ; porém, além dos sentimentos, tudo o que existia antes pode tornar a ser consciente ao transformar-se numa percepção externa, transformação apenas possível se acontecer que os traços mnémicos[2] sejam resíduos que favoreçam a lembrança. Essas representações verbais ou resíduos de lembranças eram antes percepções e, como todos os resíduos mnésicos, podem-se tornar conscientes de novo se são bem trabalhados pelo analista permitindo penetrar no saber das crianças, que eu domino por processo de ensino – aprendizagem. Se assim não for, podem constituir pontos de fixação e perturbar o processo de recuperação das memórias[3].

 

Se o saber das crianças é uma análise do processo ensino – aprendizagem definido por mim, ao querer-mos entrar nesse processo, parece-me necessário não apenas ultrapassar essa barreira do nada saber, no primeiro dia de vida, nesse minuto em que se começa a aprender. Apesar da opinião de Bion, comentada antes, é preciso ultrapassar também todas as barreiras do inconsciente. Gostava de reafirmar as minhas hipóteses: além da religião como lógica de cultura, todo o progenitor, especialmente docente, precisa possuir ideias da teoria do inconsciente.

 

Como digo noutros textos meus[4], normalmente, compara-se o inconsciente com os buracos negros descobertos originalmente por Einstein[5] em 1916, teoria aprofundada pelo meu antigo colega e companheiro de mesa em Cambridge, Steven Hawking[6]. Texto onde falo dos cientistas e dos analistas citados mais em baixo. Diz Hawking que se compara, demasiadas vezes, o inconsciente com a teoria dos buracos negros, por não se saber o que é possível encontrar dentro deles. Esta noção do inconsciente, a partir do dia em que a psicanálise (psicoanálisis) passou a adquirir um significado preciso de terapia que cura perturbações emotivas ao diferenciar o subconsciente do consciente. A diferença básica entre estes dois conceitos elaborados por Freud (subconsciente e consciente), é que o conteúdo deles pode ser, pelo método associativo, tornado consciente ou pode ser reposto de novo na (consciência) consciência pela vontade do sujeito analisado ou por outros meios, como pela terapia em grupo à Bion ou confrontar-se com os factos à Klein e à Miller. Todas estas terapias colaboram na recuperação de conteúdos do inconsciente passando-os à consciência.

 NOTAS:

 

[1] O conceito Mnémico ou mnésico usado por Freud advém da mitologia grega. Os helenos davam especial atenção aos processos do saber. Criavam deuses para todo o tipo de actividade social. A memória era importante por isso Mnemosyne foi criada. O texto postado na net por Tânia Maria Netto a 10 de Março de 2003 comenta: Memória e Mitologia Grega, http://fotolog.terra.com.br/memory:2.
Os antigos gregos consideravam a memória algo divina. De facto, a mitologia grega reservou um lugar especial para essa capacidade cognitiva na figura de Mnemosyne, a deusa da memória e controladora do tempo. Mnemosyne era filha de Urano, deus do céu e das estrelas e de Gaia, deusa da Terra. Casada com Zeus, o rei dos deuses, Mnemosyne foi mãe de 9 musas que protegiam todas as artes e ciências.
A deusa memória dava aos poetas e adivinhos o poder de voltar ao passado e de relembrá-lo para a colectividade. As nove filhas ou musas de Mnemosyne (a Memória) e Zeus, além de inspirarem os poetas e os literatos em geral, os músicos e os dançarinos e mais tarde os astrónomos e os filósofos, também cantavam e dançavam nas festas dos Deuses olímpicos, conduzidas pelo próprio Apolo. As Nove Musas são:  CalíopeClioEratoEuterpeMelpômenePolímniaTerpsícoreTália, e Urania. Mnemosyne – aquela que preserva do esquecimento seria a divindade da enumeração vivificadora frente aos perigos da infinidade, que na cosmogonia grega aparece como um rio, o Lethe, um rio a cruzar a morada dos mortos (o de “letal” esquecimento), o Tártaro, e de onde “as almas bebiam água quando estavam prestes a reencarnar, e por isso esqueciam sua existência anterior”. Na época romana elas ganharam atribuições específicas: Calíope era a musa da poesia épica, Clio da História, Euterpe da música das flautas, Erato da poesia lírica, Terpsícore da dança, Melpomene da tragédia, Talia da comédia, Polímnia dos hinos sagrados e Urânia da astronomia. Para saber mais, pode aceder a: http://neurociencia.tripod.com/mnemosine.htm#Musas, texto de Kury, Mário da Gama. (1990). Dicionário de Mitologia  Grega e Romana. Jorge Zahar Editor Ltda. Rio de Janeiro, RJ, pp. 405.

 

[2] Conceito usado por Freud nas versões alemãs e na tradução francesa revista e aprovada por ele, palavra grega, que definirei um pouco mais à frente. A citação em português, foi traduzida por mim do francês que diz: «Première tentative de caractériser l’inconscient et le pré­conscient autrement que par leurs rapports avec la conscience. A la ques­tion : « Comment quelque chose devient-il conscient ? On peut substituer avec avan­tage celle-ci : « comment quelque chose devient-il préconscient ? » Réponse : grâce à l’association avec les représentations verbales correspon­dantes.

Ces représentations verbales sont des traces mnémiques: elles furent jadis des perceptions et peuvent, comme toutes les traces mnémiques, redevenir conscientes. Avant que nous abordions l’analyse de leur nature, une hypothèse s’impose à notre esprit : ne peut devenir conscient que ce qui a déjà existé à l’état de perception consciente; et, en dehors des sentiments, tout ce qui, prove­nant du dedans, veut devenir conscient, doit chercher à se transformer en une perception extérieure, transformation qui n’est possible qu’à la faveur des traces mnémiques».

[3] Texto debatido com o docente em Educação Especial, Doutor José Manuel Filipe, cujo original diz: Traço mnésico é uma marca deixada por uma informação no sistema nervoso central que pode ser permanente ou temporária, retirado de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tra%C3%A7o_mn%C3%A9sico ou Mnésico adj. (fr. mnésique; ing. mnemic). Relativo à memória. Ex: ausência mnésica. V. Amnésico. Fonte: CLIMEPSI, em:

http://medicosdeportugal.saude.sapo.pt/action/10/glo_id/10661/menu/2/. O debate estendeu-se ao psicanalista, proprietário da Climepsi, meu querido amigo, João Cabral Fernandes. Definição e objectivos da Cooperativa de Livros de Medicina e Psicanálise, em: http://www.climepsi.pt/quem-somos

 [4]Iturra, Raúl, 2008: Ensaios de Etnopsicologia da Infância. Proferidos como aulas em 2006-2007, 165 páginas, ainda sem editor.

[6] Steven Hawking, Catedrático em Matemática, professor do Caius College, em Cambridge, com apenas 40 anos de idade foi-lhe detectada esclerose múltipla progressiva ou esclerose lateral amiotrófica (ELA) que, entre nós, em Portugal, matara, aos 53 anos, o Patriota José Carlos Afonso, conhecido por Zeca Afonso, um dos libertadores da ditadura portuguesa. Steven, ainda vivo e produtivo, revê a sua teoria dos buracos negros ou Black Holes, definido em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u12208.shtml, tem ultrapassado todas as ameaças e prognósticos de morte. Brevemente, este Emeritus Professos, um exemplo para todos nós, deverá deixar de trabalhar. A sua biografia pode ser lida em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Stephen_Hawking. Os principais campos de pesquisa de Hawking são cosmologia teórica e gravidade quântica. No ano de 1971, em colaboração com Roger Penrose, provou o primeiro de muitos teoremas de singularidade; tais teoremas fornecem um conjunto de condições suficientes para a existência de uma singularidade no espaço-tempo. Este trabalho demonstra que, longe de serem curiosidades matemáticas que aparecem apenas em casos especiais, são uma característica genérica da relatividade geral. Hawking pensa que, após o Big Bang, os primordiais ou miniburacos negros foram formados com Bardeen e Carter, propondo assim as quatro leis da mecânica de buraco negro, fazendo uma analogia com a termodinâmica. Em 1974, calculou que os buracos negros deveriam, termicamente, criar ou emitir partículas subatômicas, conhecidas como radiação Hawking, além disso, também demonstrou a possível existência de mini buracos negros. Hawking, concomitantemente, participou nos primeiros desenvolvimentos da teoria da inflação cósmica, no início da década de 80, com outros físicos como Alan Guth, Andrei Linde e Paul J. Steinhardt, teoria que tinha como proposta a solução dos principais problemas do modelo padrão do Big Bang. O asteróide 7672 Hawking foi assim chamado, em sua homenagem. Tudo em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Stephen_Hawking.

Após estas leituras, já não estou tão certo se a metáfora do texto central é válida. Mas, quer no inconsciente e a sua teoria, quer na teoria dos Black Holes, ainda há muito por saber, pelo que a metáfora persiste.

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