UM CAFÉ NA INTERNET – Bebi & outros, por Salette Tavares

 (1922 – 1994)

Um Café na Internet

Bebi,
     eu te bebi
meu leite vinho destino
meus braços cabelos sonhos
em manhãs de desatino

Meu corpo de monte
sereno e bravio
possante gigante
animal sombrio,
tão quente,
tão grande
tão bicho macio,
respira de espanto
sereno e cinzento
dançando o assombro
de folhas ao vento.

Dei, 
    |eu te dei
o teu gesto glaciar
que é rocha de corpos
aninhados ao luar.
Lajes que o sol dos dias
queimou viagem de nuvens
água, terra, penedias
conhecem meus membros moles
e meus ângulos mãos frias
onde aflitos
caem gritos
de cabritos
e de anhos.

saltei,
       eu saltei
com cabras nas pedras
ravinas e cântaros
dura e ligeira
perguntas e risos
de irónicos dias.
Firmeza e constância
meu ser desafia.

Ó cabra meu guia
irmã da magia
que andas fazendo
tão longe do pasto?
Trapézios teus gestos
desenham geométricos
sentidos sagrados.
Granítica choça
no alto da serra
e a sesta se passa
à sombra de ovelhas
serenas e sós
cabeças unidas
pensando-se terra
em rodas de lã.

– Que anjos aqueles
na curva da estrada,
que livro de ouro
me trazem de pele
tão linda
encarnada?
meu código bíblia
por dias e anos
sozinhos nos líamos
em gestos tamanhos
bailando poemas
canções de alegria.

Bebi,
     eu te bebi
meu leite vinho destino
meus braços cabelos sonhos
em manhãs de desatino.

(in Espelho Cego, 1957)

 

 Ver:

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa»,

Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973. 

Obrigado a nescritas.com

&

Poesia Visual

 

Obrigado a camelecolacola.blogspot.com e a Supermassive Black-Hole.

Nascente

Em gotas de ametista e de mamilo

sorvendo hoje nos favos da romã

escorro vale extenso e, de tranquilo,

o grande olhar de ontem amanhã.

Firme de barco, de terra e de castelo

navegando com o rosto no levante

na paisagem do tempo te congelo

ó múltiplo de ser, ó cada instante!

Com raízes de partida e de chegada

eu bendigo o dia e dou-lhe a mão

abrindo em flor na crua madrugada

para beber o céu e conhecer o chão.

Na pupila do tempo me suspendo,

espero o rio para invadir o monte

e no fervor da sede e do tormento

sou o jorro da fonte que me irrompe.

Obrigado a Cem Poemas Portugueses no Feminino, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria. Terramar, 2005.

Salette Tavares, natural de Moçambique, para além de poetisa, foi ensaísta e professora de estética, tendo-se dedicado à teoria da arte e à poesia experimental. À sua família apresentamos os nossos melhores cumprimentos.

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