País de marinheiros, usemos metáforas náuticas.
Estamos no meio de uma tempestade furiosa e não sabemos o que fazer. O barco gira e, sem instrumentos de orientação, não sabemos se o levante está à proa ou à popa, se o Oriente se situa a bordo ou a bombordo. Há sereias a indicar-nos o caminho, mas contradizem-se – umas dizem exactamente o contrário de outras. E depois, gente racional como somos, como podemos acreditar em sereias? Ainda há pouco tínhamos bússolas e tabelas, toletas, agulhas e cartas de marear. Desapareceram.
Do céu cinzento, sob o astro mudo, não nos vem ajuda e, além disso, não há estrelas no céu (há, mas uma espessa camada de nuvens, cobre-as). A sudoeste do arquipélago dos Açores centra-se o habitual ciclone…
Os problemas que assolam a Europa e o mundo são de tal magnitude que quase nos deixam insensíveis. Somos capazes de nos emocionar com o drama do Senhor Francisco que, com uma pensão de 500 euros, tem uma conta de farmácia de 300 e fica com 200 para fazer face a todas as outras despesas. Mas buracos financeiros de milhares de milhões de euros? Não nos aflige – está para além do que podemos compreender. Dizem, por exemplo, em 31 de Dezembro de 2010, a dívida externa bruta do nosso país ascendia a cerca de 400 mil milhões de euros. E nos últimos meses cresceu…
E é desta nossa ignorância que alguns tecem fortunas neste preciso momento. Como dizia há semanas numa entrevista à BBC, um falso corretor, as épocas de crise são as melhores para enriquecer. Quando falamos em mudar de paradigma, falamos em exterminar esta lógica miserável. Porque todo este temporal é causado pela usura, pela ganância. Este cenário tenebroso é apenas isso, um cenário com efeitos especiais. Se tivéssemos a coragem de o rasgar, veríamos que por detrás dele o mar está calmo, o céu está limpo…
A realidade que vivemos é construída segundo uma lógica estúpida e desumana. Desconstruir essa lógica é a única solução – pois aceitando-a iremos de tempestade em tempestade até ao naufrágio final.

