Indignados, só indignados? – por Carlos Loures

 

A indignação é algo que surge de forma espontânea. Se sofremos um insulto ou uma injustiça, indignamo-nos. Se somos roubados ou agredidos, indignamo-nos. A indignação é um sentimento que irrompe em determinadas situações. Por isso, organizar a indignação é coisa sem sentido. Já a revolta (que pode seguir-se à indignação) essa, sim, pode ser organizada. Isto a propósito da pequena controvérsia que surgiu relativamente ao artigo de Octopus por ele sugerir que o movimento dos indignados não surgiu por acaso. Pode ter sido lançado à escala mundial e pode ter sido infiltrado por agentes da CIA ou mesmo lançado por essa ou outra agência. 

 

O que Octopus sugere, sempre esteve presente no meu espírito, tal como as dúvidas que o assaltam, nomeadamente  sobre a ampla cobertura dada por uma comunicação social tão domesticada a um movimento desta natureza. A manifestação da geração à rasca levantou muitas suspeitas e a dos indignados, também. De geração espontânea ou desencadeado com intenções perversas, infiltrado pela polícia ou não, o movimento é legítimo porque a grande massa de manifestantes a ele aderiu o fez com um evidente e puro anseio de mudança. Oxalá conduza a algum resultado positivo.  Mas saber a verdade também é útil. Se a CIA quer que nos indignemos não será para aliviar a pressão e evitar que nos revoltemos? Ou para, do interior, identificar líderes e tendências dominantes?

 

Porém, não seria a primeira vez que um movimento desencadeado com uma intenção degenera num fim que os seus promotores não previam. Basta lembrarmos a encenação preparada por Álvaro Pais para servir os desígnios do Mestre de Avis e que resultou numa insurreição popular. Com a linguagem viva, colorida e, sobretudo, arguta que caracteriza as suas crónicas, Fernão Lopes descreve-nos como, num dia de Dezembro de 1383, o Mestre de Avis e o seu partido ( liderado por Álvaro Pais – «homem honrado e de boa fazenda») – após terem morto o conde de Andeiro, tentaram manipular o povo de Lisboa: «Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar. E mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fizessem cerrar as portas que não entrasse nenhum, e disseram ao seu pajem que fosse à pressa pela cidade bradando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim». No plano do Mestre e seus partidários, o papel destinado aos mesteirais e à arraia-miúda na conjura era o de figurantes. Sabia-se que a multidão, supondo o Mestre em perigo, acorreria ao paço, impedindo que sobre ele se exercessem represálias pela morte do conde de Andeiro.

 

Assim foi: o povo acorreu de todos os lados, ameaçou incendiar as portas e só se aquietou quando D. João surgiu a uma janela, agradecendo as aclamações da multidão, pediu aos populares que regressassem a suas casas, pois «não havia deles mais mister». Cumprido o seu papel, podiam abandonar a cena.

 

Foi a partir daqui que o plano urdido por Álvaro Pais falhou – a população amotinou-se, linchou o bispo de Lisboa que, recusando-se a mandar tocar a rebate os sinos da Sé, foi considerado implicado na falsa conspiração contra a vida do Mestre. A insurreição alastrou e não se conseguiu evitar o assalto às casas dos judeus e dos ricos da cidade. Como um grande incêndio começado por uma brincadeira com fósforos, a intriga palaciana deu lugar a uma incontrolável Revolução. E não se pode pedir a um tsunami que actue com justiça e ponderação – tudo o que estiver no seu caminho, é destruído.

 

É a diferença entre e indignação e a revolta. A indignação passa ou mitiga-se com xanax ou prozac. 

 

A revolta e a revolução, não.

 

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