Nos últimos anos da década de 90 do século passado, colaborámos no simpático Jornal da Pateira, dirigido pelo nosso amigo António Flores de Andrade, com artigos vários. Entre estes lembramos agora o que sobre liderança ali foi publicado, em duas partes, o qual me parece ter ainda justificação para a ele voltarmos, com ligeiríssimas alterações, por pensarmos que nele tratámos de uma questão premente na sociedade portuguesa: – se bem ou mal, caberá ao leitor do blogue dizer.
É da liderança, ou seja, dos líderes e das lideranças de que a sociedade portuguesa tão carecida está nas suas Organizações. Não dos líderes partidários, cada vez mais parecidos uns com outros na democracia que praticam. O leitor dirá se o que vamos dizer se aplica também a eles.
Várias definições foram tentadas pelos mais variados autores, mas, no que nos diz respeito, não encontrámos uma definição de líder/liderança que nos agradasse. O líder é aceite como tal pelos outros e, portanto, quando o é esses outros reconhecem-no. Ou seja, só em acção um líder poderá ser reconhecido.
Hoje, não apenas pelas características da mudança que vivemos, mas também, tendo em conta o actual mundo político, pelas exigências da competitividade, a valorização dos recursos humanos está na ordem do dia e a falta de uma liderança qualificada poderá conduzir à ruína qualquer organização.
Em Janº-Fevº/95, a Uninova realizou um estudo denominado «Evolução das qualificações e das estruturas de formação em Portugal», divulgado no 4.º Fórum Euroformação. «Com o pressuposto de que é necessário dar resposta às novas exigências de competitividade assentes na trilogia inovação-qualidade-recursos humanos», noticiava o Expresso, «o estudo considera decisiva a criação de “plataformas de competência nas empresas, baseadas no saber e no conhecimento”». Refere ainda a notícia que «a fraca aderência dos empresários à formação profissional e a dificuldade das empresas disponibilizarem os seus trabalhadores para acções de formação são outros obstáculos à melhoria da qualificação dos recursos humanos».
Desde o ano da Revolução Russa até ao grande desastre de 1929 e depois da II Guerra Mundial até ao início dos anos 70, era fácil ser gestor. A partir deste último período, as regras são ditadas pelo consumidor ou pela chamada democracia do mercado. O gestor passou a ter de estar atento aos produtos e serviços que tem para oferecer aos clientes e cada vez mais à qualidade de uns e outros, o que apenas será possível com equipas polivalentes e cada vez mais diversificadas.
Começamos já a entrar no conceito de liderança. Não nos importa distinguir entre boa e má liderança, porquanto, para nós, a liderança não existe por alguém se dizer líder, a liderança existe ou não existe, a equipa e o êxito da organização é que o vão demonstrar. A liderança será tanto melhor quanto maior importância souber atribuir às pessoas, sabendo sempre que os seres humanos são complexos, portanto, com um grau maior ou menor de emotividade e de imprevisibilidade, completamente diferentes entre si e, hoje, com conhecimentos muito mais vastos e com facilidade de acesso a todo o tipo de informação. O líder tem pois de tomar consciência de que esses recursos humanos não trabalham para ele mas com ele.
A capacidade do líder começa a afirmar-se no recrutamento da própria equipa que vai liderar ou ao considerar como sua a equipa que herdar, e tal equipa não pode esquecer a liberdade não apenas dos mercados mas também dos consumidores e das próprias empresas, empresas estas que têm que ser dotadas de estruturas cada vez mais flexíveis e com capacidade para que a todo o momento se criem meios para alterar a estratégia, as actividades, os comportamentos, os processos produtivos e de gestão e, por último mas talvez o mais importante, as próprias mentalidades.
Temos que atentar no cliente e nas suas preferências, no cliente informado e cuja expectativa temos sempre que ultrapassar, o que só se conseguirá com pessoas cultas, incluindo nesta cultura a da própria empresa em que colaboramos, pessoas que saibam organizar-se. É o mercado que o exige e este mercado não é apenas constituído pelos clientes mas também pela concorrência. O mercado, que sempre existiu e em permanente mudança, vive agora em ritmos cada vez mais crescentes também pelo acesso fácil à informação. Já não se trata, para o líder, de assegurar apenas que cada função esteja a ser desenvolvida de harmonia com a estratégia global; agora, mais importante é liderar o processo como tais funções se inter-relacionam e, ao mesmo tempo, desenvolver competências (pessoas, tecnologia, marketing, finanças, estratégia e política geral, …) para gerir o futuro. Uma das formas -a única?- de responder a esta mudança é procurar ir além da sua compreensão, passar a entendê-la como fonte de múltiplas oportunidades estratégicas. O desafio actual que se coloca consiste na capacidade da Organização reinventar e redesenhar negócios, a partir das actividades que tem no seu interior e habilitá-los, nos momentos próprios, com estrutura e identidade próprias. É aqui que se faz sentir a necessidade de construir a equipa, tendo em atenção a sua composição, a sua integração e a sua formação, que a torne detentora de atitude negocial, ou seja, capaz de entender o cliente, preparar a oferta, concretizar e acompanhar o negócio.
Necessita-se de uma actuação pró-activa, continuada e precisa sobre as pessoas e as tecnologias, que são factores que caracterizam a turbulência do actual contexto em que vivemos. É necessário saber conceber uma estratégia capaz de penetrar no mercado e, consequentemente, de o conquistar, o que será um facto se tal sucesso for construído focalizando as nossas actividades naquilo que sabemos fazer bem, evitando a aplicação de recursos e energias em actividades contraditórias e não coerentes. Tudo isto tem a ver com a liderança e com o trabalho em equipa, cujas competências devem resultar de uma acção de conjunto que agrega recursos materiais, pessoas, formas organizativas, concebidas como energia potencial estrategicamente dirigida a objectivos definidos e essas competências não podem resultar do simples somatório de competências individuais, o que implica, primeiro, rendibilizar os meios de que a equipa disponha, e isto tem muito a ver com a liderança.
Planificar, Organizar, Comandar, Coordenar, Controlar diz-se serem operações indispensáveis em qualquer gestão e o líder, naturalmente, tem que o ter presente. Mas é isto que fazem realmente os gestores? Henry Mintzberg diz que se perguntarmos aos gestores o que é que eles fazem, com certeza que nos responderão que «planificam, organizam, coordenam e controlam». No entanto, se pudermos observar o que eles na realidade fazem, podemos «verificar que as suas actividades dificilmente podem ser descritas através das quatro palavras acima referidas.» Diz ainda Mintzberg que a tarefa do gestor «é unir os esforços de todos num dado objectivo». Aquele que o conseguir, dizemos nós, é um líder.
(continua)
