UM CAFÉ NA INTERNET – Meu Deus, me dê a Coragem, por Clarice Lispector

 (1920 – 1977)

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

 

 

 

Obrigado ao site As Tormentas (www.astormentas.com). Fomos lá buscar este interessante poema desta grande escritora brasileira, já várias vezes presença no nosso blogue. Esperemos que ela, lá no Olimpo dos escritores (como será?), fumando o seu cigarro, sorria ao ler Meu Deus, me dê a coragem em A Viagem dos Argonautas.

 

10 Comments

  1. Clarice Lispector? Poema? Interessante? Eventualmente mal inspirado em frases dispersas da autora… mas! Neste “brasilês” vulgaríssimo e mal amanhado, com um conteúdo tipo “meninos de Deus”, sem raspa de vestígio da intelectualidade complexa e assaz pávida e desabrida de Clarice, aqui tolamente apresentada como “amante humilde” de um tal Deus, “entrelaçada a Ti em êxtase”? Um poema tão mauzinho desta Clarice, romancista, contista, jornalista, cronista… mas não poeta, que se saiba?! Dado a conhecer 34 anos após a sua morte? Num tipo de prosódia que nenhum escritor brasileiro usava há 30 anos? E que hoje a maioria continua a não usar – a não ser na reprodução naturalista de conversas no português local e actual, já bem diferente, sobretudo “na rua”, do de há três décadas (estarei errado, Sílvio)? Quem foi o privilegiado que teve acesso a esta única excepção (!?) “poética” na escrita de Clarice (digo “única” e mantenho, embora já me tenha cruzado com pelo menos um “sítio” que apregoava centenas ou milhares de “poemas” dela… E depois? Eu também poderia escrever que o D. Afonso Henriques conquistou a Crimeia aos mouros, no séc. XVI (!)… e, passados uns tempos, de certeza que encontraria tal referência, atribuída a algum ilustre historiador, quem sabe se eu próprio, em descabida promoção)? Será que ela também deixou alguma “arca”, a exemplo do Pessoa (aliás, como o Drummond e tantos outros companheiros de excelsa qualidade literária, vítima de centenas – senão milhares – de contrafacções “internéticas”)? … E onde é que o tal “site” (que eu bem conheço, abarrotadinho de poética boa vontade e de bojudas asneiras e citações falsas) foi buscar o objecto? Onde está a validaçãozinha deste estranhíssimo OVNI? Em que revista, em que livro, em que amarelento recorte de jornal? Se calhar, veio mesmo do espaço exterior… Não gozem comigo, que, ainda por cima, ando com um mau feitio acentuado e uma cada vez maior falta de paciência, causados precisamente pela acumulação de imbecilidades (e suas consequências – que nunca são anódinas) no Mundo que me coube habitar (e que culminam na actuação dos seus chamados “responsáveis políticos” – e eles mais que sobejam para esgotar a minha tolerância, sem estes bem dispensáveis “apêndices”)…Até prova muito concreta, esta “interessância” não passa de mais um dos muitos escritos apócrifos residentes no espaço virtual, onde uma chusma – que parece inesgotável – de ignorantes, completamente acríticos, os recolhe, sem se dar ao trabalho de pensar, de analisar o estilo, a coerência do conteúdo com a globalidade da obra e outros “pormenores” a que convém estar atento, antes de enterrar os artelhos no lamaçal do disparate…Peço desculpa a algum argonauta que se sinta chocado com o tom mas, quem me conhece, já sabe que abomino a “luva branca”; e a falsidade e ausência de espírito crítico, seja qual for o aspecto que tomem ou a origem (ainda que se resuma à incúria) me caem pessimamente no estômago…

  2. Meu caro Paulo, a questão dos apócrifos é terrível – o que se colhe na Rede nem sempre é peixe. Imagina que o nosso Sílvio Castro nos enviou um poema do Ferreira Gullar (são amigos). E quando quis mostrar ao Ferreira Gullar o seu poema num blogue português, recebeu a resposta – «mas isto não é meu!». Temos de redobrar cuidados.

  3. Paulo, acalma-te um bocadinho a ver se a gente se entende. O João, que anda a publicar poesia escrita por mulheres, perguntou-me se eu conhecia algum poema da Clarice Lispector . Respondi-lhe que não e, que eu soubesse, ela não tinha escrito poesia. Tenho todos os livros editados em Portugal e não conheço nenhum de poesia. Mas o João disse que lhe constava o contrário: a Clarice teria mesmo escrito poesia. Então, lembrei-me de consultar um site de poesia portuguesa e brasileira que tenho em arquivo – tanto quanto me apercebi, os poemas que ali estão integrados são verdadeiros. E lá estava um conjunto de poemas de Clarice Lispector que eu desconhecia. Aí vai o endereço para poderes aferir a veracidade: [Error: Irreparable invalid markup (‘<br […] <a>’) in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]Paulo, acalma-te um bocadinho a ver se a gente se entende. O João, que anda a publicar poesia escrita por mulheres, perguntou-me se eu conhecia algum poema da Clarice Lispector . Respondi-lhe que não e, que eu soubesse, ela não tinha escrito poesia. Tenho todos os livros editados em Portugal e não conheço nenhum de poesia. Mas o João disse que lhe constava o contrário: a Clarice teria mesmo escrito poesia. Então, lembrei-me de consultar um site de poesia portuguesa e brasileira que tenho em arquivo – tanto quanto me apercebi, os poemas que ali estão integrados são verdadeiros. E lá estava um conjunto de poemas de Clarice Lispector que eu desconhecia. <BR>Aí vai o endereço para poderes aferir a veracidade: <BR class=incorrect name="incorrect" <a>http</A> :/ http://www.astormentas.com /PT/poemas/Ant%C3%B3nio%20Ramos%20Rosa <BR>Um abraço

  4. Augusta,Eu conheço esse “sítio”. Como, aliás, escrevi. É feito com boa vontade, provavelmente com entusiasmo “poético”, mas sem critério “científico” (o estudo da literatura também é uma ciência, tem de ter idêntico rigor, embora aceitando uma maior subjectividade; mas o Jorge de Sena tem abordagens que muito estudioso moderno ganharia em visitar atentamente …).Em minha opinião – e como acontece noutros casos – é preciso não ter uma “ideia” solidificada da obra de um autor, para, ao menos, não desconfiar de certos textos apresentados como pertencendo a esse autor. Neste caso (como na maioria dos casos, sendo talvez excepção esse texto atribuído ao Goulart – pois conseguiu enganar o Sílvio…) o texto não tem qualidade literária nenhuma. E, sendo certo que não se possa exigir que cada frase de um grande escritor seja um modelo de perfeição ou genialidade, há um mínimo de qualidade, sem a qual a falsidade de ujma obra artística se denuncia. E é o caso. Como também disse, descobri há uns tempos uma espécie de blogue “dedicado” à Clarice que “informa” comportar mais de mil poemas dela! Na verdade, ou se trata de prosa – cuja origem é assinalada; ou de pequenos textos a que é dada a forma vulgarmente atribuída ao texto poético em “verso livre”, com frases de extensão diferente – o que até se pode dever à escrita informática! -, cuja veracidade não aprofundei, porque, em suma, tenho mais que fazer; ou, se se trata mesmo de “coisas poéticas”, curiosamente, a atribuição a um livro determinado, a uma entrevista, etc., desaparece de todo! Estranho, não é? Para irmos um pouco mais longe, admito que o autor do apócrifo parta de algumas frases soltas, ou retiradas dos respectivos contextos, da Clarice, em que ela mistura uma confessada crença num “Deus” (mas tais declarações são tão estranhas, no seu contexto global, que não podem ser encaradas literalmente, nomeadamente tendo em conta que ela também se confessa não-religiosa, após o afastamento do seu original judaísmo) com a crença num Nada. A partir daí constrói um “poema” que supõe credível: mas a verdade é que não o é: pela baixíssima qualidade, como já disse, e pelo uso de sontruções frásicas que nunca seriam utilizadas, suspeito que por ninguém, muito menos, por um escritor e ainda menos pela escritora Clarice Lispector. Isto pela mesma razão por que, da última vez que estive em Paris (onde não fui durante cerca de 20 anos) os meus colegas franceses (na altura documentalistas áudio, que foi a área em que terminei a carreira)estranharam o meu modo de falar: todas as línguas mudam e eu falava um francês que, nalguns pormenores, já não é usado actualmente. O mesmo acontece com o português falado e escrito em Portugal, no Brasil ou nos PALOP.O resto, a razão da minha falta de paciência com estas coisas já expliquei mais do que uma vez. Também me engano e sou enganado, como toda a gente, mas a excessiva leveza com que certas coisas são tratadas, não uma ou duas, mas repetidas vezes, depois de incontáveis alertas para que as pessoas tenham em atenção que a Internet é muito útil mas não é fiável e há que olhar para o que por lá vagueia com atenção, para não sermos cúmplices na divulgação da asneira, lamento, mas tira-me do sério. Por isso pedi desculpa antecipadamente. Sempre fui assim, fosse com quem fosse e, agora, com Passos Coelho e respectivo bando de ladrões a dar cabo do país, mais os gajos da UE a dar cabo da dita, só posso piorar.Vou jantar. Se não me esquecer, ainda conto a minha última aventura nas instalações da ReTdeP…Abraço

  5. Eu sei que é assim, Paulo. Sei que anda por aí aldrabice aos montes. De facto também achei estranho um poema de natureza religiosa escrito pela Clarice quando a prosa dela, pelo menos a que já li, nada tem de mística. Mas, eu sei lá…todos conhecemos casos a quem a proximidade do fim da vida ou períodos difíceis fizeram passar por crises de misticismo. No que respeita a este site (na linguagem da informática não sou tão purista como tu), o facto de conter uma série considerável de poemas que todos conhecemos , deu-me a segurança que julguei suficiente. Já agora seria interessante verificar se a Clarice Lispector escreveu ou não poesia. Mais um abraço e, quanto ao assunto, fico por aqui.

  6. Desculpa acrescentar só mais algumas palavras, Augusta.Também há misticismo e ambígua religiosidade na obra verdadeiramente “única” – no sentido de não ter paridade e pela ausência de referências outras, determináveis – de Clarice, que se considerava alguém que escrevia por puro instinto (o que será verdadeiro e decisivo para uma obra que se classifica entre asr aras realmente inclassificáveis, que será sempre um ponto de partida e nunca de passagem ou de chegada) e recusava o epíteto de “intelectual”, dando à palavra uma conotação extremamente restritiva, mas muito “clariciana” (conotação que, no entanto, o nosso Pessoa, na multiplicidade de perpspectivas que nos abre, ajuda a “entender”) . Agora: tema levou-me a fazer uma rápida pesquisa, que acabou por se centrar no “Youtube” e me proporcionou assistir à última entrevista de Clarice (realizada em Fevereiro de 77, com a condição de apenas ser emitida após a sua morte), integrada num programa com outras intervenções e textos lidos por Maria Bethânia; ver excertos de uma peça magnífica sobre ela, “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, de e com Beth Goulart; mais algumas entrevistas excelentes com esta notável actriz (uma delas, de Jô Soares), – e ficar com tudo arquivadinho… Há males que vêm por bem! Mas, também aí, deparei com contrafacções! Um exemplo: um vídeo com fotos e palavras que se iam sobrepondo às imagens. 1.º comentário: « “Sinto saudades” é, talvez, o texto mais significativo que conheço sobre o tema “saudades”. Só poderia ser mesmo obra da “diva da literatura brasileira” – Clarice Lispector. » 2.º comentário: « O Texto do video não é da fabulosa Clarisse Lispector e sim da minha querida amiga e tbém fabulosa MARIA EUGENIA DE VIVEIROS!!!A Cesar o que é de Cesar…bjs »…Pois… “só podia ser mesmo”… Palavras para quê? São os “artistas da NET”!Mas vale a pena dar uma voltinha por alguns vídeos do Youtube (os “garantidos, com marca na ourela”, fáceis de identificar”), apesar de o som de alguns não ser famoso. Abraço

  7. A entrevista com a Clarice Lispector já vi. Se não a publiquei aqui – não me lembro – era minha intenção fazê-lo. Há mesmo males que vêm por bem. Vou investigar isso. Ainda bem que referiste as outras entrevistas que não conheço. Dos tais vídeos do Youtube sempre desconfiei. Por isso, nunca os utilizei. Boa noite e um abraço

  8. Só agora consegui ler com atenção os vossos comentários, Paulo, Carlos e Augusta, que muito agradeço. Perdoem-me que me felicite, por finalmente um poema que aqui meti tenha merecido tantos e tão bons comentários. Anteriormente só tinha tido pequenas manifestações de simpatia, pelas as quais fiquei muito grato, mas agora obtive contributos substanciais.Paulo, de literatura sou apenas um fã, no sentido vulgar do termo. Mas parece-me importante tentar mostrar às pessoas a enorme variedade das literaturas, a começar pelas escritas em português. Apanhei-me no poleiro de Um café na Internet, e cedi à tentação. Quando li o poema no site As Tormentas achei: não está muito bem acabado, mas tem ferrão. No tempo da Clarice, e nalguns dos meios em que ela viveu, seria considerado bastante provocatório. O que possivelmente não lhe desagradaria, se realmente foi ela quem o escreveu.Espero que continuem com os vossos comentários, com os poemas que eu conseguir ir publicando.

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