(Conclusão)
Pode-se concluir que a ideia TINA – There Is No Alternativa (ao capitalismo), expressão que foi proferida por Margaret Thatcher – pesa ainda sobre as mentalidades das pessoas sujeitas diariamente aos assaltos organizados pelo capitalismo: a vida cara, o desemprego, os estudos a preços insuportáveis , os serviços públicos que faltam, as políticas de austeridade bem presentes. Os Britânicos sofrem, mas poucos têm ainda a coragem para se revoltar . Mais de três décadas de thatcherismo e de blairismo explicam consideravelmente a apatia ambiental.
Os participantes em OccupyLSX são estes cidadãos da classe média (assalariados, desempregados ou reformados) que já se separaram da política tradicional. Formam batalhões que viraram de forma douradoira as costas à social-démocracia em todas as saus declinações nacionais: Labour, PS, SPD, PSOE, PASOK, etc. Estes partidos são rejeitados vigorosamente pelos Indignados. Eles não são outra coisa que não seja a outra face do consenso neoliberal; os executantes de políticas de austeridade ditadas pelos mercados (Sócrates em Portugal, Zapatero na Espanha, Papandreou na Grécia e amanhã talvez a Holanda e a França).
Que programa?
Interrogar-se sobre “o programa” ou “as reivindicações” junto dos participantes Occupy LSX, é suscitar a surpresa, ou mesmo até a incompreensão. Os ocupantes são independentes de qualquer estrutura partidária ou sindical. São militantes – novos ou aguerridos- que partilham os códigos de comunicação e da socialisação ligados às novas tecnologias. Que seja em Madrid ou em Nova Iorque, os seus objectivos vão bem para além do combate em prol de uma causa ou de um tema preciso (single-issue campaign). Os Indignados, querem limitar o poder da finança sobre as nossas vidas (por incapacidade de em vez disso a poder abolir); querem construir uma sociedade mais justa e mais democrática, que rejeite as organizações piramidais e as relações hierárquicas dos partidos de esquerda tradicional.
Para começar, o movimento levanta as questões mais importantes do momento: quem paga a crise provocada pelo mundo da finança? Qual é papel que o poder político desempenha na resolução da crise? Porqué que nada se não alterou desde 2008?
Contrariamente a Nova Iorque, OccupyLSX não redigiu nenhum manifesto. Somente algumas medidas de alcance geral são preconizadas: recusa em pagar a crise provocada pelos bancos, ou em considerar que as políticas de austeridade são inevitáveis. A tonalidade de conjunto destas medidas não é prioriamente anticapitalista, muito longe disso. Os ocupantes londrinos exprimem o desejo, por exemplo, de que os reguladores dos mercados sejam «verdadeiramente independentes » dos bancos e dos governos . Uma larga maioria de pessoas associadas ao sistema capitalista poderiam subscrever tais intenções.
Pergunto a vários participantes se os seus objectivos são de natureza “anticapitalista”. As respostas são muito variáveis, mas sobretudo incertas. Uma grande bandeira está no entanto instalada no meio da praça. Sobre um fundo verde e em letras côr-de-rosa , não deixa nenhuma dúvida sobre a origem do mal: “Capitalism is crisis”. A palavra “reivindicação” (demand) está banida do vocabulário usual. Fala-se antes “de objectivos” (goals). Estes podem ser atingidos de maneira plural e autónoma, enquanto que as reivindicações implicam uma relação de espera e de dependência no que diz respeito aos poderes constituídos.
O movimento dos Indignados é a expressão pública de uma cólera surda que cresce: em 99% dos que sofrem do sistema contra os 1% que dele se aproveitam cada vez mais. A visão de uma mundialização neoliberal que triunfa luminosa – TINA- está hoje completamente desacreditada. Os mercados entregues a si-mesmos e que destroem as economias nacionais, antes de se autodestruirem ; os bancos não são a solução, mas sim a chave do problema dado que privatizam os lucros e socializam as perdas; as somas de dinheiro supostamente não encontráveis para revalorizar os salários ou para salvar os serviços públicos puderam ser rapidamente encontradas para salvar os bancos. Os Indignados interpelam-nos: porque é que devemos aceitar tais mentiras e deixar o nosso mundo correr para a sua destruição?
Uma politização de esquerda
O movimento Indignés prossegue a acção do movimento altermundista dos anos 90 e do início dos anos 2000. O Fórum social mundial não contribuiu ele para desacreditar as políticas infligidas pelo FMI ou pelo Banco Mundial na Ásia ou na América Latina? Os Indignados continuam hoje o trabalho de desencanto do neoliberalismo no meio do velho mundo industrializado. A politização em curso é claramente de esquerda, mas esta maneira de fazer e ver as coisas não pode estar ligada a uma ideologia específica. Nenhum partido de esquerda tradicional poderia encontrar-se espontaneamente à vontade em tal movimento. Qualquer tentativa “de recuperação” parece por conseguinte destinada ao falhanço. Pode-se pensar que isto é redutor e insuficiente. Numa lógica política de muito curto-prazo e eleitoralista , este movimento pode com efeito apenas desiludir. Mas os efeitos sobre o longo prazo são indiscutivelmente positivos. Pela primeira vez desde há trinta anos, cidadãos com percursos diferentes reunem-se para exigir mais igualdade económica, mais justiça social e mais solidariedade. É necessário reconhecê-lo: estas acções são mais eficazes para desmistificar o neoliberalismo que as centena de obras militantes e cientificamente de qualidade que se publicaram sobre o assunto.
Na praça Paternoster, cruzo-me com os “ Anonymous”. Estas pessoas trazem colocada a máscara de Guy Fawkes. Esta referência retoma “o V” (V como Vingança), herói de uma banda desenhada do final dos anos 80. “V” é um anarquista que evolui numa Inglaterra poupada por uma guerra atómica que destruiu o mundo. O país está sob o poder de um regime fascista que procedeu à uma depuração étnica, política e social. “V”, traz a máscara do mais célebre membro da Conspiração do Pó, “V” é um justiceiro que assume resistir a este regime totalitário.
Alguns ridicularizarão estas manifestações carnavalescas. Outros verão nestas ocupações apenas encenações teatrais feitas por pessoas ricas e que não querem trabalhar. Atribuir-se-lhes-á que os Indignados de Londres não são os Indignados da praça Tahrir ou da praça Syntagma. Os desafios e as situações nacionais são com efeito muito diferentes. Há inegavelmente um fundo dadaïsta neste movimento; uma dimensão intelectual que se dirige antes de mais “aos espíritos” e não “às barrigas”. Seja assim.. Mas com os Indignados, a questão das desigualdades económicas – durante tanto tempo negligenciadas “pela esquerda governamental” – voltou para a boca da cena. A esquerda já não pode mais continuar a ser reduzida à promoção das questões postmateriais, por muito e tão importantes que elas sejam.
A democracia horizontal e os seus limites
Observadores já o têm sublinhado: a democracia em jogo em OccupyLSX e noutro lugares também é de tipo horizontal, em oposição a uma democracia de tipo vertical. A democracia horizontal incentiva a acção directa e a participação dos seus membros. Os participantes devem respeitar as diversas opiniões, e esta pluralidade é sentida como um enriquecimento para o grupo, e não como uma ameaça ou como uma anormalidade. A democracia vertical reenvia à forma partidária e sindical clássica, ou seja, a uma estruturação piramidale: no topo , uma oligarquia que decide e na base os militantes encarregados de difundir a palavra autorizada.
As desvantagens da democracia directa são conhecidas: lentidão na decisão e, in fine, inércia no plano da acção. O debate e o dilema não são novos. Lénine tinha criticado o trabalho “artesanal” dos revolucionários que se afastavam do militantismo político de objectivos de longo prazo e apostavam sobre o levantamento espontâneo das massas. O pai da Revolução de Outubro qualificava esta estratégia “de oportunista”, porque estes révolucionários renunciavam a desenvolver no povo uma consciência de classe (2).
Em que medida os povos ocidentais têm consciência que o sistema capitalista serve os seus interesses específicos? Duas sondagens realizadas nos Estados Unidos por Rasmussen trazem-nos um início de resposta. Em Dezembro de 2008, 15% dos inquiridos declarava que os Estados Unidos seriam um melhor país se adoptassem um sistema “socialista”. Em 2011, a mesma pergunta registou 20% de respostas favoráveis ao socialismo. Mais interessante ainda são os resultados por classe etária : nos 15-25 anos, uma pequena maioria declara preferir o capitalismo ao socialismo (37% vs. 33%). Como 30% dos jovens não se pronunciam, pode-se deduzir que uma maioria por defeito estaria pronta para encarar um sistema outro que o capitalismo. Este resultado é tanto mais surpreendente quanto se está num país onde a palavra “socialismo” é empregada pelos políticos e pelos jornalistas dominantes apenas de maneira pejorativa ou condescendante.
Esta tendência que se deveria consolidar é encorajadora e permite manter um certo oprimismo. Longe de ir a contra-corrente do que pensam as populações. as opiniões dos Indignados são agora maioritárias na população. Daqui não se pode deduzir que o capitalismo está em plena agonia. Mas é um muito bom golpe no coração do sistema.
(1) D. Graeber, Lost people. Magic and the legacy of slavery in Madagascar, Indiana Unversity Press, 2007.
(2) Lénine, Que faire ?, Pékin, Editions en Langues Etrangères, 1975.
Philippe Marlière, Occupy LSX : l’indignation gagne Londres.
Este texto foi publicado no site Contretemps, a 30 Outubro de 2011.


