Manipulação – I, por Júlio Marques Mota

Sobre a fome como produto dos mercados, um olhar para a História de ontem e de hoje, também[1].


Depois de termos falado de Tales de Mileto ou de uma história inventada como são todas as histórias, e inventada à volta dos mercados a prazo, mercados físicos ou alternativamente  os mercados de papel, os futuros, eis-nos com uma história  não imaginada, em que se alguma coisa há  a  imaginar , é então sobre a leitura que dela se pode depois falar. 


Uma história verdadeira, portanto, de ontem já muitas vezes contada e agora revisitada para melhor compreendermos os  maus tempos que por nós agora correm ou em que por eles nós andamos a correr, talvez.

 

É uma história terrível, não muito diferente das que acontecem agora e que aconteceram em 2008 com os preços dos produtos alimentares a subirem nas bolsas de mercadorias por efeitos da especulação e com esses títulos a serem vendidos a todos nós como títulos de alta rentabilidade, ditos investimentos em índices de matérias-primas e bens alimentares, medida esta rentabilidade indirectamente pelas mortes de fome provocadas. Antes morrer sob as balas dos oficiais da ONU do que morrer de fome, aqui no Haiti, gritou alguém contra a protecção que ao ditador estaria a ser feita, creio, é desse tempo aqui bem perto, a mais dura das imagens por nós  conservada. Mas isto é o mercado, dizem-nos os neoliberais, estes são eficientes, garantem-nos, estes são eficazes,  confirmam-nos,  tudo isto  pelos índices da Bolsa  bem confirmado, mas da confirmação dos neoliberais temos a realidade de hoje e de qualquer país europeu a ser disso uma clara evidência  da mentira tão bem vendida nas nossas Universidades, e não só.  Perguntem a um aluno da Universidade Nova o que sobre isto aprendeu em Economia, para além da certeza de que o pai, o tio, o avô lhe arranjará garantidamente emprego com o grau de doutor. Trata-se pois de uma história terrível do século XIX mas podia ser de hoje, onde a ganância dos homens fazia lei, a lembrar os nossos mercados de hoje, mas dessa vez bem distante, os deuses decidiram temporariamente estar ao lado dos homens, ajudaram-nos, deram-lhes boas colheitas de trigo e os tubarões dos mercados por força desse destino criado por todos aqueles que de dia e de noite o trigo ceifaram, por todos aqueles que dia e  noite o  trigo para Chicago  transportaram,  os tubarões foram pela força de trabalho colectiva bem esmagados. Imaginem-se milhares de homens a ceifar de noite à luz de lanternas para ganhar a corrida  estabelecida contra todos pela  especulação, possível porque por  esquecimento ou por adesão (?) os Deuses de todas as nossas culturas, de todas as nossas civilizações, deram boas colheitas às gentes daquelas terras e naquela época e com isso a especulação permitiram vencer. Inimaginável, creio eu. 


Mas, muitíssimas vezes, os Deuses também se esquecem de nós, os humanos  e também dos desumanos que deixam sucessivamente à solta de qualquer travão ético, humanos que por cá andamos   às cabeçadas com o que não podemos transformar  e em  que à custa de  não sabermos  desconstruir o discurso neoliberal e as suas práticas estamos nelas sempre a cair.  Exemplo disso é a especulação desenfreada que nem com a crise por ela estimulada para não dizer mesmo por ela criada foi estancada e quanto aos mortos que outrora andou a fazer e a que acima nos referimos o que se sabe é que o mesmo caminho estará de novo  disposta a percorrer sob a alçada dos nossos silêncios, silêncios de   cobardia   ou de ignorância, talvez.  Disto nos dá conta, Esther Vivas  quando escreve :


A ameaça de uma nova crise alimentar  é já uma realidade. O preço dos alimentos começou a subir para níveis recordes  uma vez mais, de acordo com o Índice de Preços da FAO  de Fevereiro de 2011, que faz uma análise mensal dos preços globais de um cabaz de bens básicos  composto de cereais, óleos de sementes, produtos lácteos, carne e açúcar. O índice chegou a um novo máximo histórico, o maior desde que a FAO  começou a estudar a evolução dos preços dos alimentos em 1990. Nos últimos meses, os preços estabilizaram, mas os analistas prevêem ainda mais aumentos  nos próximos meses.


Este aumento do custo dos alimentos, especialmente dos  cereais básicos, tem sérias consequências para os países do sul com baixos rendimentos e com uma  dependência da importação de alimentos, e para milhões de famílias que nesses países  dedicam entre 50 e 60 por cento dos seus rendimentos para a compra de bens alimentares, uma número que sobe para 80 por cento nos países mais pobres. Nesses países, o aumento do preço dos produtos alimentares torna-os inacessíveis.


Estamo-nos a aproximar  de um milhar de milhões de pessoas – uma em cada seis pessoas não tem hoje  acesso a uma  alimentação adequada. O Presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, afirmou que com a actual crise alimentar tem aumentado o número de pessoas que sofrem de fome crónica calculado esse aumento em cerca de 44 milhões. Em 2009, esse número foi ultrapassado, atingindo 1,023 mil  milhões de pessoas subnutridas no planeta, um número que desceu ligeiramente em 2010, mas sem regressar  aos níveis de antes da crise alimentar e económica de 2008 e 2009.


A crise atual desenrola-se num no contexto de uma abundância de produtos alimentares. A produção de alimentos tem-se multiplicado ao longo das três últimas décadas e desde  os anos sessenta, enquanto  que a população mundial apenas  terá duplicado desde então. Há uma enorme abundância de alimentos. Ao contrário do que instituições internacionais como a FAO, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio têm andado a dizer, não se trata de  um problema de produção, mas sim de um problema de acesso aos alimentos. Estas organizações pretendem que haja um  aumento da produção através de uma nova revolução verde, que só irá tornar as crises alimentares , ecológicas e sociais ainda piores. [2]

 

 

Tomando como análise o índice de preços   até Junho de 2011 temos:


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E quanto à evolução expressa agora em valores temos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não exagerámos como os números e o gráfico de Julho, na verdade, bem nos evidenciam, mas voltemos  à história de que hoje vos queremos falar. De  Tales de Mileto ao Chicago Board of Trade, um olhar curioso também sobre os nossos dias, uma história de violência entre operadores  e desta violência inerente ao capitalismo desregulado, de ontem e de hoje,  reencontramos múltiplas versões na actualidade  como, por exemplo,  uma bem recente na luta dos “donos”  da Porsche sobre a Wolskwagen em que os resultados foram aqui bem diferentes. O multimilionário da Porsche ganhou e por causa dos seus jogos, das suas opções sobre títulos comprados , houve quem tudo perdeu, houve quem se suicidou, o patrão dos medicamentos genéricos na Europa a quem o Financial Times homenageou, considerando-o um homem do seu tempo.  Tratava-se de  Adolf Merckle, quinta fortuna alemã, que neste jogo casino perdeu simplesmente…400 milhões de euros. Mas essa é uma outra história, de que falaremos um dia e até porque   é bem elucidativa dos tempos que correm e nos corroem.

 

Coimbra, 13 de Outubro de 2011

 

 

Júlio Marques Mota

 

(Continua)


[1] Agradeço  ao meu colega  e meu antigo aluno Helder Sebastião a leitura crítica deste texto, assim com as correcções e sugestões que ao mesmo  colocou. Aproveito ainda esta ocasião para publicamente afirmar que gostaria que as Universidade de hoje retomassem uma  das mais nobres funções das de ontem, sejamos claros, das de há alguns atrás; criar capacidades intelectuais,  criar massa crítica. É disso, como agora politicamente se vê bem, que o país muito  precisa e não tem.

[2] Esther Vivas, Americas Updater, Vol.9, No.13, The Food Crisis Strikes Again, disponível em:

CIP Americas Program http://www.cipamericas.org.

 

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