(1959 – )
Um café na Internet
Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.
In A Casa e o Cheiro dos Livros (1996). Obrigado à Maria do Rosário Pedreira, escritora e editora, a quem apresentamos os nossos mais sinceros cumprimentos e votos de felicidades. Obrigado também a Poesias e Prosas (poesiaseprosas.no.sapo.pt), onde fui buscar este poema.



Um poema excelente. Íntimo, sincero, sensível, cálido, perto … Agradeço este convite à leitura. Obrigado.
Obrigado eu, Josep. Foi um dos poemas mais bonitos que encontrei, neste trabalho de procura de poetisas de língua portuguesa. Espero que o continues a acompanhar. Um grande abraço para ti.
Já publiquei no “Jardim” um poema, de que muito gosto, da Maria do Rosário Pedreira mas ninguém lhe ligou nenhuma. Ninguém, mentira. Ninguém do blog porque, do próprio Sapo, alguém se manifestou e me enviou o endereço do blog da poetisa, e não só, porque ela também escreve em prosa.