A noite passada, na SIC Notícias, no Eixo do Mal, ouvi Clara Ferreira Alves dizer uma coisa que me pareceu muito importante. Referindo-se ao processo Face Oculta, e às personalidades nele envolvidas, lembrou que muita gente pensa que a política de austeridade se tornou necessária para acabar com a corrupção. Existe realmente esta confusão em muita gente. É alimentada por afirmações repetidas por pessoas com responsabilidade de que as culpas pela crise que atravessamos são de todos, que andamos todos a gastar muito, mais do que devíamos, e que todos temos de responder por isso. É óbvio que todos temos a nossa parte de responsabilidade, a começar pelo voto que metemos na urna, a apoiar políticos que prometem uma coisa e depois fazem outra. Contudo, a responsabilidade de um simples cidadão não é com certeza equivalente à responsabilidade de um decisor político ou económico. E a política de austeridade não vai acabar com a corrupção, pelo contrário vai agravá-la, na medida em que se vão agravar as enormes diferenças sociais e económicas prevalecentesem Portugal. Estasdiferenças sociais formam o caldo de cultura ideal para a corrupção. Mas simultaneamente existe outro problema: ainda há um número significativo de pessoas que pensam que a melhoria de nível de vida verificada nos últimos anos é como que um luxo, e que temos de aceitar um retrocesso. É quase como se tivéssemos andado a abusar. Esta resignação, fruto de um passado de pobreza e de subjugação, é um factor significativo nas opções de muita gente, desde as eleitorais, como na predisposição a uma participação mais activa na vida social e política.
A manifestação de ontem, que terá reunido 180 000 pessoas em Lisboa, dá a ideia de que afinal essa resignação não será assim tão grande. É sempre interessante ver tanta gente protestar, com tanta razão, e as centrais sindicais reunidas. Há duas coisas contudo que temos de terem conta. Uma é que já se têm feito manifestações de grande dimensão e, a seguir, as eleições são o que são. Outra coisa: em Portugal ainda há muita gente que não está habituada a manifestações. Pensam logo: lá estão os comunistas a manifestar-se. Nem se lembram que os manifestantes também estão a lutar pelos interesses deles. Há um longo caminho a percorrer. A rua, que a direita detesta (embora também a use, e com grande violência) é essencial para a democracia. Não só, mas também, e muito. Na democracia representativa, para quem já não acredita em abaixo-assinados, é quase a única maneira de pressionar o poder, em conjunto com a greve.
Berlusconi perdeu o poder em Itália. Para muitos é uma alegria. Pessoalmente nunca percebi como é que num país como a Itália é possível eleger um indivíduo como ele. Já me deram muitas explicações, mas continuo sem perceber. Mas, por outro lado, acho mau que ele tenha saído mais por efeito da crise do que pelo geral reconhecimento da sua falta de qualidade. Papandreou tem outra orientação política e lá foi. Quem virá a seguir?

