(1925 – 2007)
Um café na Internet
Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lemba-lembas
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.
(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocás e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).
Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes
enchendo a nossa África
com sua mágica profecia.
In Manuela Margarido: uma poetisa lírica entre o cânone e a margem, por Inocência Mata. Muito obrigado a Inocência Mata. Os nossos cumprimentos à família de Maria Manuel Margarido, poetisa da Ilha do Príncipe, escritora, diplomata e lutadora anti-colonial.



Tive o privilégio de conhecer a Maria Manuela Margarido – nos anos 60, com o então seu marido Alfredo Margarido, Edmundo Bettencourt, Cândido da Costa Pinto, Manuel de Castro, fazia parte de uma tertúlia que reunia aos fins de tarde no café Restauração da Rua 1º de Dezembro. Era uma pessoa discreta, que não falava muito, e quando dizia alguma coisa o fazia com ponderação. Excelente poetisa..