(1911 – 1984)
Um café na Internet
O traje novo que eu desejei
Seria claro, leve, inconsútil,
Teria raios de sol perdidos,
Teria cheiro de campo agreste.
Com essa amável túnica branda
Eu dançaria pelos caminhos,
Aérea, fluida, fantasmagórica,
Casada às aves e à ventania.
Meus gestos suaves se moveriam
Seguindo o embalo verde dos ramos
Meu corpo eurítmico encerraria
A ingenuidade profunda e lírica
Da água mansa e humilde das fontes.
Foram-se as horas, foram-se os dias,
Foram-se os sonhos. Naquela estrada
Por onde andei na inquieta procura
Do traje claro, leve, inconsútil,
O sol morrera. Na noite eterna
Havia corpos despedaçados,
Vozes gemiam gemidos roucos,
Lobos uivavam gelando a treva.
E a noite enorme vestiu-me inteira
De uivos de lobos, corpos rangentes,
Roucos gemidos, roucos gemidos,
Roucos gemidos.
São Paulo, 1938.
Fui buscar este poema a Cadernos de Poesia, à reprodução fac-similada dirigida por Luís Adriano Carlos e Joana Matos Frias, incluída na colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Séc. XX, edição Campo das Letras, 2004, sob o patrocínio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Oneyda Alvarenga, para além de poetisa, foi jornalista, ensaísta e folclorista, tendo-se especializado em crítica musical. Aluna e seguidora de Mário de Andrade, dirigiu a Discoteca Municipal de São Paulo, que hoje tem o seu nome.
Sobre Oneyda Alvarenga escreveu José Osório de Oliveira em Apologia de Três Poetisas Brasileiras, texto incluído em Cadernos de Poesia I (1940) palavras laudatórias, que podem ser lidas na edição acima referida (pág. 20).


