VIAGEM COM PASQUALINI- 3 – por Sílvio Castro

(Continuação)

 

Na corrida do trem a paisagem se fixa como totalidade, ainda quando os olhos do viajante não vê mais a paisagem transformada em linhas fixas nervosas por estar muito próximas dos olhos que as guardam do interior do trem. Por muito tempo como um sono impertubado o viajante transforma a paisagem que o faz cego da paisagem que se embaça se dilui perde-se, mas não abandona os olhos viajantes. O trem corre ainda mais. Então o viajante cai fora do trem dentro da corrida. Novamente toda vista o viajante retoma a paisagem na maior largueza como se o trem se jogasse para uma parte que deixa ver sem limites a paisagem na corrida que se alarga contrai alarga. O viajante vê o verde matizado em ondulações e ritmos caminho direto pelos campos.

 

Além da paisagem existem também os sons rumores produzidos pelas rodas nos trilhos. É uma voz que passa de sussuro a estrídulos. Depois são mais vozes. Uma parece um lamento longo profundo; outra cadencia a fala que quer dizer coisas mas que pára no desejo porque se repete sem fim. Depois fazem um coro de harmonias que é a velocidade da paisagem nos olhos abertos do viajante

 

UNHNH UNH UN UN UN… … AUN AUN AUN AUN…

 

 AAAHHHH AAAAHHHH AAAAAHHHHH…

 

Tomei um trem na direção do Sul, com a esperança de encontrar o meu amigo. Ainda que não soubesse com certeza para onde ir.

 

Saindo de Brasília o trem começou a sua marcha que para mim era um sem destino. Mas o trem sabia por onde ia, pelo planalto central na direção de Minas Gerais.

 

Posso agora aquietar-me pois o trem que corre é também a minha certeza de encontrar de novo Pasqualini enquanto recupero as muitas coisas que ele me disse nesses quatro anos passados em Brasília; nos nossos encontros depois das sessões da Câmara e do Senado; passeando pelos longos corredores que unem os dois setores, nós dois imersos nas trocas de informações, de idéias, de planos, projetos comuns, confudidos pelas centenas de pessoas que vão e vêm, saem e entram nos gabinetes particulares dos parlamentares, nas grandes salas das comissões, gente que bebe e come sem cessar nos restaurantes e nos bares sempre cheios. Muitas vezes ficávamos no entardecer, talvez o momento mais belo de Brasília, e então a nossa conversa interminável se deslocava para a parte externa das conchas côncava e convexa de Niemeyer e então podíamos ver Brasília submergida nos horizontes sem fim. As cores matizadas do sol poente alargavam-se em vermelhos laranjas amarelos misturados com o azul profundo do céu alto, numa moldura de brancos que partiam do azul e se faziam definitivamente branco em distâncias infinitas. Mais que quieta, era todo um silêncio o entardecer de Brasília que se transformava então em esculturas nas quais os homens, milhares e milhares, certamente ali estão, mas que desapareciam para deixar lugar somente a uma fantástica abstração de tudo. Os sons são mudos; os ecos rumores são mudos; as vozes dos homens se perdem na imensidão desabitada.

 

Eu perguntava a Pasqualini se tudo aquilo não fosse absurdo, quase anti-político, anti-democrático. Me perguntava se esta realidade de abstrações totalizantes não representasse um dos muitos fatores das inconclusões dos debates políticos, com todos os resultados negativos daí derivados, a que em muitas e tantas oportunidades assistiamos quase impotentes.

 

 

 

O trem chegou em Lusiânia, entrou na estação e parou pela primeira vez. Meus pensamentos saem dispersos pela pequena estação e pela presença da gente que desce do trem ou se prepara em despedidas calmas para começar a viagem. Nada ainda aconteceu nesta minha viagem indefinida, mas a parada em Lusiânia como me alertou para a difícil experiência que eu começava a enfrentar.

 

O trem sai da estação e são muitos os trilhos. Cada um deles é uma possível viagem. São os trilhos que guiam a viagem; se invés destes que correm na direção sul o trem tomasse outros, que viagem seria?

 

(Continua)

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