(1943 – )
Um café na Internet
é tão fácil amar lugares
que não existem
recordar praças e pontes e travessas
onde nunca morremos por ninguém
quartos na penumbra de estores corridos
sobre a sonolência dos gatos em Agosto
onde nunca chegámos atrasados
o tampo de mármore de mesas de café
onde as nossas mãos não se esconderam
por alguém ter entrado antes de nós
é tão fácil lembrar nomes e rostos e destinos
e colocá-los em nossos ombros e festejar com eles
as luminosas horas em que a vida
nos rodeava a cintura como um amante possessivo
e nós repetíamos os nomes das cidades
onde nada disso tinha acontecido
e os meus olhos prendam apenas
os sulcos térreos de uma casa vazia
onde vou chegar depois da hora
inútil
como um perfume aberto há muito tempo
Escritora e jornalista, Alice Vieira tem uma obra variada, com particular incidência na literatura para crianças e jovens. Já foi traduzida para muitas línguas. Fui buscar o poema acima a Poesia – Dois corpos tombando na água, Editorial Caminho, S.A., 2011. À Alice Vieira apresentamos os nossos melhores cumprimentos. Obrigado à escritora e à editora.


