OS HOMENS DO REI – 79 – por José Brandão

Duque de Palmela (1771-1850)

 

 

Fidalgo de fina estirpe e de aprimorada cultura, dotado de subtil inteligência, diplomata e político, D. Pedro de Sousa Holstein, filho do embaixador D. Alexandre de Sousa Holstein e de D. Isabel Juliana de Sousa Coutinho, nasceu em Turim, a 8 de Maio de 1771, e enquanto criança sofreu, naturalmente, as vicissitudes que acompanham a vida dos filhos dos diplomatas, votados a viver no estrangeiro grande parte do tempo. Assim, só em 1794 veio a matricular-se na Universidade de Coimbra, mas a sua posição social obrigou-o a seguir a carreira das armas, assentando praça, em 1796, no regimento da guarnição da corte, exercendo, logo no ano seguinte, já como capitão, as funções de ajudante do velho duque de Lafões, ao tempo marechal-general do Exército português.

 

Em 1802, encontrando-se seu pai como embaixador em Roma, foi D. Pedro Holstein despachado para a corte pontifícia como conselheiro da embaixada. Percorreu então, nas naturais demoras da viagem, várias cidades, apurou a sua cultura, conviveu em Florença com o famoso dramaturgo Alfieri e, mais tarde, em Roma, com o ilustre Humboldt. E tal prestígio alcançou quer junto do papa Pio VII, quer junto do secretário de Estado, Consalvi, que, perante a morte repentina de seu pai, logo foi por estes sugerida ao Governo português a sua nomeação para embaixador.xxx Como, porém, a sua juvenil idade – apenas 21 anos – não se coadunava, dentro das tradições diplomáticas, com tão elevado cargo, permaneceu realmente na Cúria, mas como encarregado de negócios.

 

Em 1805 conheceu, em Itália, Madame de Staël e, deixando nesse ano o seu lugar em Roma, veio passar dois meses na residência que a ilustre escritora possuía em Coppet, junto do lago Léman, onde conviveu com altas figuras da política e das letras, e onde traduziu para francês alguns episódios d’Os Lusíadas, publicados em Londres, em 1814, no Investigador Português

 

Regressou ao seu País, em 1806, para se entregar à administração da sua casa, mantendo-se, de certo modo, afastado da corte.

 

Mas, quando Arthur Wellesley assumiu o comando do exército anglo-português que lutava contra os franceses invasores, D. Pedro Holstein ofereceu-lhe os seus serviços e, com o posto de major, foi nomeado ajudante de ordens do coronel Trant, contribuindo voluntária e largamente, também, para as despesas da guerra.

 

Em 1810, foi ocupar o cargo de ministro plenipotenciário junto do Governo espanhol de Cádis e, em 1812, já com o título de conde, assumiu as funções de embaixador em Londres. Hábil e perspicaz, tal prestígio alcançou que foi escolhido para representar Portugal, juntamente com os futuros condes de Oriola e de Porto Santo, no Congresso de Viena (1815). E voltou à capital britânica no ano seguinte, agora para interferir no diferendo com a Espanha acerca do rio da Prata.

 

Chamado ao Rio de Janeiro para sobraçar a pasta dos Negócios Estrangeiros, aproveitou a sua passagem por Lisboa para aconselhar a Regência a enveredar por uma política que conduzisse à constitucionalização do País, o tipo de política que sempre defendeu, pois Palmela, na síntese de Oliveira Martins, «não era vintista jacobino, nem miguelista apostólico; não era propriamente português, mas sim um inglês da escola de Canning, liberal-parlamentar, moderado, temperado, equilibrista». No Brasil, sugeriu ao monarca a promulgação de uma Carta Constitucional, mas, discordando da índole reaccionária do decreto de 2 de Fevereiro de 1821, acompanhou D. João VI no seu regresso a Lisboa. As Constituintes, no entanto, não autorizaram o seu desembarque – e foi-lhe fixada residência em Borba.

 

Apoia, é certo, a Vilafrancada (1823), aceita fazer parte do Ministério saído deste movimento, mas, porque sempre defendeu a necessidade de dar ao País uma Constituição, cai no desagrado de D. Carlota Joaquina e de D. Miguel, e é encarcerado na Torre de Belém após a Abrilada (1824). Embaixador de Portugal em Londres, na altura em que D. Pedro promulgou a Carta Constitucional de 1826 – diploma a que se manteria fiel durante toda a sua vida – pediu a exoneração das suas funções quando D. Miguel se fez aclamar rei em 1828.

 

Organizou então, na capital britânica, o movimento de resistência contra o regime miguelista, e, muito embora tenha nascido nessa altura a sua rivalidade com Saldanha, isso não o impediu de lhe confiar o comando da expedição que partiu para a ilha Terceira.

 

Após a tomada do Porto pelos constitucionais, Palmela – que viera na expedição, e que na Terceira fizera parte da Regência foi mandado a Londres a fim de obter socorros e dinheiro para a continuação da luta, conseguindo o concurso do almirante Napier. Incumbido, depois, de organizar e dirigir politicamente as zonas que fossem sucessivamente arrancadas ao domínio de D. Miguel, ascendeu a duque em 13 de Julho de 1833 e, terminada a guerra civil, assumiu a presidência da Câmara dos Pares e a do primeiro Ministério organizado por D. Maria II.

 

Forçado a emigrar após a revolução de Setembro (1836), são, no entanto, os próprios adversários políticos que, reconhecendo os seus dotes de diplomata e o prestígio de que gozava além-fronteiras, que o nomeiam novamente embaixador em Londres, a fim de assistir como nosso representante às cerimónias da coroação da rainha Vitória (1837). Restaurada a Carta pelo golpe de estado de 1842, presidiu ao primeiro Ministério cartista, o «Ministério do Entrudo», de vida efémera. Mas, como o poder se concentrasse nas mãos de Costa Cabral, afastou-se da política e empreendeu larga viagem pela Itália.

 

Regressado ao reino, precisamente no período culminante das violências do partido de Costa Cabral e quando tudo se encaminhava para o movimento revolucionário da Maria da Fonte (1846), a rainha D. Maria II entregou-lhe a presidência do Ministério. Mas de novo a facção cabralista voltou ao poder, agora com um Gabinete presidido por Saldanha – e Palmela foi convidado a emigrar.

 

Só regressou depois da assinatura da Convenção de Gramido (1847), passando os dois últimos anos de vida retirado no seu palácio do Lumiar, onde faleceu a 12 de Outubro de 1850.

 

A seguir – Costa Cabral

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