A propósito de uma sessão de cinema – 1ª Parte – por Júlio Marques Mota

 

Introdução

 

 

Convidado para comentar um filme na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra  deparei-me com um anfiteatro completamente cheio e de gente profundamente interessada que aguentou um total de 3 horas com a projecção do filme e o debate que se seguiu.

 

Como comentador tinha a função de comentar o extraordinário filme A Morte do Homem Trabalhador – 5 retratos do trabalho do século XXI, de Michael Glawigger[1], de um trabalho que não poderia ou não deveria existir naquelas condições e de resto muito dele existia como expressão do capitalismo dos nossos tempos ou como uma  suas consequência. Era aqui que o realizador queria chegar, penso. Imagine-se, não havia no filme trabalho assalariado, trabalho com regras, trabalho com direitos, trabalho com contratos.

 

Não, nada disso. Falava-se da Ucrânia sem Estado que digno desse nome seja, de gente sem emprego, de escolas onde as crianças estudam  cheias de frio,  de pessoas que à saída da Universidade saberiam que não teriam emprego, de pessoas que perderam até o direito a ter feriados, que perderam o direito a terem reformas; depois, falava-se da Indonésia e da recolha de enxofre por gente reduzida pela força do trabalho exercida à situação objectiva de  animal de tracção, por gente que tinha a quase certeza que para além desse tipo de trabalho nada mais havia, enxofre esse que a indústria química e farmacêutica irá tratar e negociar a um outro nível de custos e de rentabilidade, falava-se do Paquistão, dos cemitérios de barcos, do desmantelamento de grandes barcos em fim de vida e desmantelados ao custo mínimo, e também aqui não havia ninguém que regulasse as condições de trabalho ou até que garantisse que os barcos chegavam em condições de limpeza e de eliminação de produtos tóxicos para se poder efectuar o seu desmantelamento em condições de segurança para os trabalhadores e para o mar também, mas aqui, no Paquistão,  nada disso interessa, até porque a limpeza dos barcos sai cara às grandes empresas e os homens não contam; depois, falava-se de África, um continente doente e perdido sujeito à mais violenta das explorações, a apropriação brutal  dos seus recursos naturais, falava-se da Nigéria, país onde tudo o que acontecia, acontecia sempre ao contrário do que devia acontecer.

 

Aí falava-se de um matadouro, falava-se da violência gratuita sobre os animais e sobre as pessoas, onde a civilização e a técnica parece ter parado às portas das explorações petrolíferas da Shell que tudo poluíram e do que dela ficou, ficou sobretudo um dos mais violentos ditadores de sempre,  Sanni Abacha, de fortuna tão ou mais rapidamente roubada ao seu povo que a de Mobutu no Congo. No filme, falava-se na sua parte final sobre a China ou antes sobre o mistério que será a China, com as suas siderurgias a substituir talvez as que pela Europa fecharam  e aí se mostravam operários a falaram da vida na China e das suas aspirações de acordo com o que sistema queria que fosse dito.

 

Para além disso nada mais podia mostrar e ficava como  interrogação, as fábricas do futuro da China a que os trabalhadores se referiam e que ao realizador não era dado ver. Sobre estas  deixa-nos um pano de fundo de nevoeiro, onde tudo era difuso mas onde também se pressentia que o trabalho duro esse existirá sempre e haverá sempre quem o tenha de fazer. A rematar, e em forma de epílogo, o filme dá-me um parque temático na Alemanha construído sobre as ruínas de uma antiga siderurgia, agora encerrada, enfim um parque de diversões, onde o trabalho assumia uma outra dimensão, a de ser virtual, uma vez que ele era virtualmente recriado pelos meios técnicos poderosos para os olhos dos turistas poder encantar. Aqui, portanto, apenas imagens do que foi o trabalho, imagens com atracção, nem sequer como história.

 

Trata-se portanto de uma análise crítica do que é trabalho e do que é o trabalhador nesta economia global, assente nas profundas assimetrias na repartição do rendimento, dignas do final do século XIX, e na globalização dos processos produtivos, nos fortes disfuncionamentos introduzidos nos processos ou aparelhos produtivos nacionais . Do meu ponto de vista passava por aqui a razão fundamental da crise que agora nos assola e portanto qualquer solução a encontrar como saída para a crise passaria necessariamente por uma resposta a dar aos disfuncionamentos das trocas de bens e serviços a nível internacional.

 

Três referências dei a justificar a minha posição e que se foram desenvolvendo depois ao longo do debate. A primeira referência era de que a Europa Ocidental parece-se hoje com a Europa de Leste que caiu que nem um castelo de cartas. Sistemas diferentes é certo mas face a uma globalização cada vez mais agressiva a Europa Ocidental e em estaria igualmente a cair e irá  cair em franca e rápida decomposição  se nada houver  em termos de forte contestação social que impeça  a continuação da utilização maciça dos mecanismos que nos trouxeram para a actual situação de crise e se não se fosse capaz a seguir de alterar a estrutura institucional que a amarra face aos mercados.  

 

A Ucrânia permitia-nos um paralelo imediato: crianças nas escolas sem aquecimento,  estudantes universitários que se questionavam sobre o que fazer pois seria garantido que empregos não iriam ter à saída dos seus cursos, exactamente o que se está a passar do lado de cá, pessoas que se lembravam de quando tinham feriados e lá como cá, pois agora são os nossos que estão a desaparecer, e lá como cá, falava-se também de gente sem rumo e a ter a certeza de que pensões de reformas já não iriam ter, exactamente aquilo de que Passos Coelho pelos vistos nos quer também ele convencer em nome dos muitos sacrifícios que se devem fazer para os mercados bem satisfazer. A segunda referência minha era a subordinação da União Europeia aos mercados, abdicando de políticas nacionais e regionais para assim a ganância destes poderem acalmar. Um exemplo: o aprofundamento da crise organizado através de rumores no último mês de Agosto.

 

A Itália, a França, a Espanha foram abaladas fortemente pelos rumores levantados por um artigo de jornal do Le Monde, uma simples ficção política que um jornalista inglês assim não leu e reproduziu como sendo um relato real, por uma analista de uma agencia que esta leitura errada deixou pendurada no seu blog a indiciar que podia ser a realidade actual, Bloomberg creio, depois um gráfico que um analista se enganou a construir e dando a ideia que um dado banco estava praticamente sem liquidez. A especulação foi arrasadora e as autoridades europeias, os famosos reguladores que nada regulam, que estão de olhos vendados como dizia a crónica do Le Monde datada de Maio de 2012, em forma de subtítulo, que fizeram eles? Proibiram a especulação a descoberto no dia 12 de Agosto e durante 15 dias.


[1] Workingman’s death de Michael Glawogger, (2005) com legendas em português.

 

(Continua)

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