VIAGEM COM PASQUALINI- 9 – por Sílvio Castro

(Continuação)

 

O noturno que parte de Belo Horizonte para Vitória gira e volta em curvas pelas colinas, e a cidade grande aparece sempre mais ao longe com milhares de luzes que tremem e brilham intermináveis neste mar luminoso que a cada volta das colinas diminui, diminui até confundir luzes e estrelas.

 

Esta etapa da viagem me leva para novos conhecimentos, já os pressintos, todos voltados para o encontro que procuro. Me levanto do meu pequeno dormitório vagante e procuro o vagão-restaurante. Quando me sento, um garçom essencial me mostra o cardápio. As propostas são variadas, todas ligadas à cozinha mineira, a mesma de meu avô paterno. Eu estou bastante acostumado a estes sabores que já sinto com a visão direta dos pratos: galinha ao molho pardo, feijão tropeiro, tutú costoleta de porco arroz e couve, carne seca com abóbora, carne de porco assada, torresmos e aipim, couve, quiabo, giló. Vejo e sinto o fascínio de todos os pratos, mas sinto igualmente que me estou entregando a delícias para o paladar que, entretanto, exigem um estômago vigoroso. Essas elaborações gustativas, de franca alegria, me distraem da minha tensão. Me sinto quase sereno neste vagão-restaurante tomado por gente que fala a voz baixa e come lentamente. A sobremesa de doce de laranja em calda modifica sem detruir de todo os sabores de torresmos e aipim frito que me mostraram uma outra maneira de viajar.

 

Retirados os pratos vazios e liberada a mesa, o garçom me oferece um cálice azul de licor de jenipapo. No licor sinto o sabor agro-doce da fruta agreste e, a cada trago sempre curto e prolongado, me sinto conduzir para campos abertos cheios de jenipapeiros, jenipapins, jenipapeiros-do-campo que se alastram em centenas milhares, sempre a muitos metros uns dos outros. Assim a minha corrida passa docemente entre todas essas árvores que estão no espaço, mas não o fecham.

 

De repente o meu trem sai do bosque encantado, já em Ouro Preto. Então, tudo muda. É muito estranho chegarem Ouro Pretode noite. As luzes dos lampiões quase coloniais luzem de longe, como muitos pirilampos, chego a pensar, e as casas as igrejas se emolduram nas sombras esclarecidas pelas luzes que vêm das estrelas mais do que dos lampiões. Entre montes e colinas, mais que ver, pressinto o azul das casas e das igrejas, marcados pelo branco que, mais que branco, se mostra como matizações do azul.

 

Na pequena estação a locomotiva parou no silêncio de suas estruturas modernas. Mas, pouco a pouco, no silêncio elétrico sinto como que rumores de uma velha locomotiva a vapor que sopra nuvens aquosas das narinas, narinas que me parecem mais de um cavalo imenso pronto a disparar na corrida por colinas montes e planuras.

 

 

Meu sentimento de Ouro Preto é arcáico e com ele sinto de entrar em territórios infinitos de espaços homens fatos coisas iluminadas de certezas.

 

Assim vou imaginando, sem sair de meus pensamentos; e nem mesmo percebo que tudo já mudou. Não mais estouem Ouro Preto, mas viajo por Minas – Mariana São João del Rei Barbacena Ponte Nova – como se nunca dali tivesse partido.

 

 

Os bois na paisagem,

os bois na paisagem são manchas coloridas que percorrem com doce lentidão espaços verdes e sobem e descem sem ruminar o verdor sereno das colinas que aparecem e desaparecem na paisagem como memória de tempos passados, mas imutáveis nos olhos que fixam os bois na paisagem.

 

Os cavalos na paisagem,

os cavalos na paisagem são certezas do espaço que se mostra estático seguro, para logo abrir-se em novos espaços, para sempre estáticos nas linhas certas da paisagem que de repente corre dispara desaparece por detrás de um morro e renasce na curva, abrindo-a na corrida nervosa da planície aberta.

 

Os pássaros na paisagem,

os pássaros na paisagem são a corrida do trem que esvolaça volteia volteia esvolaça em trinados, pautas que se misturam com a luz, o movimento, as sombras que surgem sem cessar para os olhos do viajante.

 

 

 

 

Pasqualini me disse

 

devemos pensar ao Brasil – na perspectiva do novo milênio que de certa forma já estamos vivendo – sempre em termos de solidariedade internacional; porém, permanecendo fiéis com convicção ao modelo da nossa identidade político-cultural.

 

sabemos que essa identidade tem muitos resíduos anacronísticos e que grande parte da história nacional deve ser não somente denunciada, mas superada com veemência crítica. Ainda assim, é das suas estruturas que o Brasil levará sempre adiante a sua modernidade, e esta tem de saber encontrar continuadamente os valores revolucionários a partir somente de si mesma, na mais profunda auto-contemplação: não a outros tempos e não a outros modelos nacionais. A modernidade brasileira deve confrontar-se com todos os limites e saber criar novas expressões de cultura e de liberdade política, até mesmo em modalidades aparentemente nascida fora da racionalidade.

 

por muitas razões, no plano da solidariedade internacional, privilegiamos o modelo americano. E o fazemos tantas vezes de maneira não correspondente àquela que deve ser a modernidade brasileira. O modelo americano vive numa intensa atividade futurível; mais que isso: produz futuro já no presente mais imediato, com claros riscos de crises, tudo em dimensões que não permitem ao homem identificar-se com o tempo em que vive. O modelo americano faz com que também nós, brasileiros, vivamos essa frenética corrida fora do tempo, num consumismo desolador porque atemporal.

 

o mundo moderno se distingue daquele do passado porque sabe abrir-se ao futuro; mas é por isso mesmo que o presente é aquele valor real que conhece o passado e sabe prever o futuro. Não deve ser um futuro, tão somente. E muito menos, não deve ser uma forma de consumo do futuro. E se num determinado momento presente explode a crise, necessita enfrentá-la frontalmente, tomando-a até mesmo como possível fator de imprevista, mas possível, forma de chegar a novos tempos feitos de progresso e de maiores justiças sociais.

 

((Continua)

 

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