AVENIDA DA DA POESIA – Nicolas Boileau-Despréaux, José Saramago , Josep Anton Vidal e Hélia Correia

Nicolas Boileau-Despréaux

 

(Paris, 1636 – 1711)

 

A ARTE DE ESCREVER

(fragmento)

 

Há certos espíritos cujos sombrios pensamentos São como nuvem espessa, sempre emaranhados, O dia da razão não saberia atravessá-la.

Antes, pois, de escrever, aprendam a pensar.

Conforme a nossa ideia é mais ou menos escura Assim a expressão, ou menos nítida ou mais pura.

O que se concebe bem exprime-se claramente, E as palavras para o dizer chegam facilmente.

(…)

Gosto mais dum riacho que sobre a macia areia Num prado cheio de flores lentamente passeia, Do que duma torrente transbordante, tempestuosa, Correndo cheia de pedras, em terreno lamacento.

Acelerem lentamente e sem perder coragem, Vinte vezes empreendam a vossa obra:

Limpem-na sem cessar e tornem a limpá-la; Acrescentem algumas vezes mas outras eliminem.

 

(“Art Poétique”, 1674)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José Saramago

 

(Azinhaga, Golegã,  1922 — Tías, Lanzarote, 2010)

 

 

 

 

ARTE POÉTICA

 

Vem de quê o poema? De quanto serve

A traçar a esquadria da semente:

Flor ou erva, floresta e fruto.

Mas avançar um pé não é fazer jornada,

Nem pintura será a cor que não se inscreve

Em acerto rigoroso e harmonia.

Amor, se o há, com pouco se conforma

Se, por lazeres de alma acompanhada,

Do corpo lhe bastar a presciência.

 

Não se esquece o poema, não se adia,

Se o corpo da palavra for moldado

Em ritmo, segurança e consciência.

 

(Os Poemas Possíveis)

 

______________________

 

 

 

Josep Anton Vidal

 

(Barcelona, 1945 )

 

MOT A MOT

 

Veus l’horitzó i dius lluny, sents l’aire i dius presència,

sents la pluja i dius vida; veus la mar, dius remor,

veus els ulls d’un infant i dius tendresa,

veus la dona que infanta i dius dolor i amor, i dius misteri;

veus l’home i dius paraula, veus el pa i dius suor,

sents el vol d’un insecte i dius silenci,

mires els ulls del vell i dius record.

Veus els camins que han obert les petjades

i dius somnis i afanys i llibertat…

Veus el cel i dius tot i inabastable,

veus la volta estelada de la nit

i dius inconegut, dius infinit,

i dius immensitat, etern, petit…

Sents que et batega el cor i dius esforç,

dius coratge, dius lluita i ideals…

Et veus sol, i abatut, i miserable,

i dius jo, i dius tu, i dius nosaltres…

I veus les ombres créixer en el ponent del dia

i dius temps, i dius mort.

 

Així, mot rere mot, neix el poema

–allunyada presència, sorda remor de vida–,

il•lusió fugaç d’un món travat i fet,

un univers complet –i irreal, tanmateix–

on cada mot ocupa – vençut i dòcil, pulcre –

el lloc que li pertoca en un ordre aparent…

 

[La tendresa, l’amor, el dolor i el misteri,

el treball, la paraula, el silenci, el record,

els somnis i els afanys, la llibertat.

I el tot, inabastable. I el plural, impossible,

del jo, del tu, de l’altre.

I l’esforç obstinat, les idees, la història

–tanta sang, tants deliris, tants i tants crims, tants plors,

tantes vides desfetes per somnis miserables,

tants reis i tants messies, tants profetes i augurs,

tantes fes, tantes pors, tanta i tanta pregària,

tantes paraules buides, tants destins, tans amors,

tants camins que s’encreuen i tanta solitud,

tants savis, tants poetes, tants senyors i tants déus–]

 

…per teixir i desteixir sentits contra l’absurd,

per merèixer aquest temps d’atzar que en diem vida,

per ofegar el dolor de ser com som

–mesquins, inconsistents, fràgils, impurs–

i guanyar, mot a mot, la dignitat de viure.

 

PALAVRA A PALAVRA

(versão em português de Carlos Loures)

 

Fitas o horizonte e dizes longe, aspiras o ar e dizes presença,

sentes a chuva e dizes vida; vês o mar, dizes rumor,

vês os olhos de uma criança e dizes ternura,

vês a mulher parir

e dizes dor e amor, e dizes mistério;

vês o homem e dizes palavra, vês o pão e dizes suor,

ouves o voo do insecto e dizes silêncio,

fitas os olhos de um velho e dizes recordação.

Vês os caminhos abertos pelos passos

e dizes sonhos e desejos e liberdade…

Vês o céu e dizes todo e inatingível,

vês a abóbada estrelada da noite

e dizes ignorado, dizes infinito,

e dizes imensidão, eterno, pequeno…

Ouves bater o teu coração e dizes esforço,

dizes coragem, luta e ideais…

Vês-te só, abatido e miserável,

e dizes eu, e dizes tu e dizes nós…

E vês as sombras crescer ao pôr-do-sol

e dizes tempo e dizes morte.

 

Assim, de palavra em palavra, nasce o poema

– longínqua presença, surdo rumor de vida –

fugaz ilusão de um mundo feito e acabado,

um universo completo – e contudo irreal –

no qual cada palavra ocupa – vencida e dócil

o lugar que lhe cabe numa ordem aparente…

 

(A ternura, o amor, a dor e o mistério,

o trabalho, a palavra, o silêncio, a recordação,

os sonhos e os anseios, a liberdade.

E o todo, inatingível. E o plural, impossível,

do eu, do tu, do outro.

E o esforço obstinado, as ideias, a história

– tanto sangue, tantas quimeras, tantos e tantos crimes, tanto pranto,

tantas vidas desfeitas por sonhos miseráveis,

tantos reis e tantos messias, tantos profetas e augures,

tantas fés, tantos medos, tanta e tanta prece,

tantas palavras vazias, tantos destinos, tantos amores,

tantos caminhos que se cruzam e tanta solidão,

tantos sábios, tantos poetas, tantos senhores e tantos deuses.)

 

… para tecer e destecer sentidos contra o absurdo,

para merecer este tempo de acaso a que chamamos vida

para afogar a dor de ser como somos

– mesquinhos, inconsistentes, cobardes, impuros –

e ganhar, palavra a palavra, a dignidade de viver.

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Hélia Correia

 

 

(Lisboa, 1949)

 

 

ARTE POÉTICA

 

Que o poema tenha carne

ossos vísceras destino

que seja pedra e alarme

ou mãos sujas de menino.

Que venha corpo e amante

e de amante seja irmão

que seja urgente e instante

como um instante de pão.

 

Só assim será poema

só assim terá razão

só assim te vale a pena

passá-lo de mão em mão.

 

Que seja rua ou ternura

tempestade ou manhã clara

seja arado e aventura

fábrica terra e seara.

 

Que traga rugas e vinho

berços máquinas luar

que faça um barco de pinho

e deite as armas ao mar.

 

Só assim será poema

só assim terá razão

só assim te vale a pena

passá-lo de mão em mão.

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Ilustrações de Adão Cruz 

 

 

 

 

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