“NÃO ESCOLHAS O ESPELHO ERRADO DO DESGOVERNO PLANEADO” – Sérgio Godinho por Clara Castilho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 As canções de Sérgio Godinho têm-nos acompanhado há mais de trinta anos, em vários momentos de luta e de resistência. Muitas sabemos de cor, muitas as cantámos em conjunto, umas vezes com objectivos bem definidos, outras pelo prazer da sua ironia ou da sua ternura. As suas letras eram bem explícitas e com a sua música nos embalávamos na procura de caminhos. O seu novo disco – Mútuo consentimento – tem duas canções que penso terem algo a ver com o dia que amanhã – 24 de Novembro, greve geral –  irá ocorrer em Portugal. Aqui as deixo escritas, e cantada a única que encontrei.

FAZ PARTE (O RETORNO DAS AUDÁCIAS)

Quando assinas, e é de cruz

e a certeza

faz parte

e mais tarde vês ruir

a fortaleza

faz parte.

 

Faz parte

arte que tens em mentir

nem que seja a ti mesmo

(faz parte)

parte que tens por abrir

não querer mais do mesmo

(…)

Quando aos poucos

dás os flancos

e dás em justificar-te

frente ao espelho

e frente aos outros

de que fazias parte

 

Em que dia e porque foi

que viraste às avessas

(faz parte)

agarrado a um vão labor

juntar de novo as peças

 

Quando assinas, e é de cruz

e a certeza

faz parte

e mais tarde vês ruir

a fortaleza

faz parte

 e quando segues

cegamente um equivoco estandarte

e depois

de embandeirado

não sabes despegar-te

 

Quer amor, quer ódio

põe por ora tudo a zeros

faz parte

começa a contar, confere

o livro dos valores

(….)

O ACESSO BLOQUEADO

Adivinhar o futuro

é muito duro

é muito duro

sai sempre o calículo furado

 

Adivinhar o passado

é mais seguro

é mais seguro

se bem que às vezes também saia

errado

 

Mas entre o deve e o haver

entre o deve e o haver

sempre pões algum de lado

do défice descontrolado

 

Agora adivinhar o presente

mesmo se fosse vidente

isso…! È que é mais complicado

tem o acesso bloqueado

 tem o acesso blo-queado

 

Dar de barato o futuro

é prematuro

é prematuro

mas foi tudo mal contado

 

deixaste o fruto do passado

ficar maduro

ficar maduro

e agora podre por não ser usado

 

Mas entre o fazer, não fazer

entre o fazer, não fazer

sempre sobra algum trocado

do crédito mal-aparado

 

Agora adivinhar o presente

mesmo tão inteligente

isso…! Ficas todo baralhado

tem o acesso bloqueado

tem o acesso bloqueado

 

Estás à espera de um delete

agora ri-te

agora ri-te

do vaticínio reservado

 

vais ter que arranjar mais

memória

mesmo acessória

mesmo acessória

para o destino não passar ao lado

 

mas entre o ser e o parecer

entre o ser e o parecer

não escolhas o espelho errado

do desgoverno planeado

 

Agora adivinhar o presente

mesmo tão clarividente

isso…! Aí estás mais entalado

tem o acesso bloqueado

tem o acesso bloqueado

 

 

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