Pobre Galiza, não deves chamar-te nunca espanhola – Rosalia de Castro

Sempre Galiza!

Sempre Galiza!

 

 

 

Na ressaca das eleições no estado espanhol e dos resultados na Galiza, recordemos o poema de Rosalia de Castro, A Gaita Galega.

 

 

Pobre Galiza, não deves

chamar-te nunca espanhola

 

 

A GAITA GALEGA

 

Resposta ao eminente poeta D. Ventura Ruiz de Aguilera

 

 

I

 

Quando este cantar, poeta,

na lira gemendo entoas,

não sei o que por mim passa

que as lagriminhas me afogam,

diante de mim cruzar vejo

a Virgem-mártir que invocas,

cos pés cravados de espinhas,

coas mãos cobertas de rosas.

Em vão a gaita, tocando

uma alvorada de glória,

sons pelos ares espalha

que caem nas brandas ondas;

embalde baila contente

nas eiras a turba louca,

que aqueles sons, tal me afligem,

cousas tão tristes me contam,

   que eu posso dizer-che

   não canta, que chora.

 

 

II

 

Vejo contigo estes céus,

vejo estas brancas auroras,

vejo estes campos floridos

onde se arrulham as pombas,

e estas montanhas gigantes

que lá coas nuvens se tocam

cobertas de verdes pinhos

e de florinhas cheirosas;

vejo esta terra bendita

onde o bem de Deus transborda

e onde os anjinhos formosos

tecem brilhantes coroas;

mas, ai!, como também vejo

passar macilentas sombras,

grilhões de ferro arrastando

entre sorrisos de mofa,

em-que mimosa gaitinha

toque alvorada de glória,

   eu posso dizer-che

   não canta, que chora.

  

 

III

 

Falas, e o meu pensamento

mira passar temerosas

as sombras desses cem portos

que ao pé das ondinhas moram,

e pouco a pouco marchando,

frágeis e tristes e soias

vagar as naves soberbas

lá na imensidão traidora.

E, ai!, como nelas navegam

os filhos das nossas costas

com rumo à América infanda

que a morte com pão lhes doa,

desnudos pedindo em vão

à pátria misericórdia,

em-que contente a gaitinha

o pobre gaiteiro toca,

   eu posso dizer-che

   não canta, que chora.

 

 

IV

 

Pobre Galiza, não deves

chamar-te nunca espanhola,

que Espanha de ti se olvida

quando és tu, ai!, tão formosa.

Qual se na infâmia nasceras,

torpe, de ti se envergonha,

e a mãe que um filho despreza

mãe sem coração se mostra.

Ninguém por que te levantes

che alarga a mão bondadosa;

ninguém teus prantos enxuga,

e humilde choras e choras.

Galiza, tu não tens pátria,

tu vives no mundo soia,

e a prole fecunda tua

se espalha em errantes hordas,

mentres triste e solitária

tendida na verde alfombra

ao mar esperanças pedes,

de Deus a esperança imploras.

Por isso em-que em som de festa

alegre a gaitinha se ouça,

   eu posso dizer-che

   não canta, que chora

 

 

V

 

“Espera, Galiza, espera.”

Quanto este grito consola!

Pague-cho Deus, bom poeta,

mas é-che esperança louca;

que antes de que os tempos cheguem

de dita tão venturosa,

antes que Galiza suba,

coa cruz que o seu lombo dobra,

aquel difícil caminho

que o pé dos abismos toca,

quiçá cansada e sedenta,

quiçá que de angústia morra.

Pague-che Deus, bom poeta,

essa esperança de glória,

que de teu peito surgindo,

à Virgem-mártir coroa,

e esta recompensa seja

de amargas penas recônditas.

Pague-che este cantar triste

que as nossas tristezas conta,

que só tu,… tu entre tantos!,

das nossas mágoas se acorda.

Digna vontade dum génio,

Alma pura e generosa!

E quando a gaita galega

alô nas Castelas ouças,

ao teu coração pergunta;

verás que diz em resposta

   que a gaita galega

   não canta, que chora.

 

 

  Cantares Galegos

  Rosalia de Castro

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