COMPOSITORES DESCONHECIDOS – Frederic Mompou – por Paulo Rato

 

 

“— Escutem.

  — Escutamos o quê?

  Mas escutaram e o aviso de Schubert foi adquirindo sentido. À espera da próxima actuação, o pianista tinha embarcado na nave de uma música íntima, acordes lentos, pinceladas soltas em busca de uma harmonia final.

  — Que é que está a tocar?

  Toni Fisas tinha a resposta.

  — É um fragmento da Música callada de Mompou.”

                                           (Do romance “El Pianista”, de Manuel Vázquez Montalbán – I parte)

 

“ — (…) O próprio Milhaud escreveu que a música moderna espanhola requer dois ouvidos, um para escutar Falla e outro para escutar Mompou. Embora Falla tenha aqui mais público (…) os Faubourgs de Mompou também agradaram, mas pareceu-lhes um som demasiado civilizado para ser espanhol. Esses silêncios de Mompou que tanto te impressionam, Albert.”

                                                                                                                               (Ibidem – III parte)

 

Filho de pai catalão e mãe de ascendência francesa, Frederic Mompou ( Barcelona 1893-1987 ) estudou piano no Conservatorio del Liceo de Barcelona. Continuou os seus estudos deste instrumento, em Paris, com Ferdinand Motte-Lacroix e estudou harmonia com Marcel Samuel Rousseau. A crítica de Emile Vuillermoz, publicada no Le temps em 1921, consagrou-o internacionalmente.

 

Em Paris permaneceu durante 20 anos (de 1921 a 1941), aí escrevendo uma parte significativa da sua produção, como Dialogues, Souvenirs de l’Exposition, Charmes, Preludios I-VI, 3 variaciones, Canción y Danza números 3 e 4, Trois Comptines, 4 Melodies e Le nuage.

 

Foi nomeado Doutor Honoris Causa pela Universidade de Barcelona, em1979, eleito membro da Reial Acadèmia de Belles Arts de Sant Jordi e académico de honra da de San Fernando.

 

Foi ainda nomeado Officier d’Académie pelo Governo francês (1952) e Chevalier des Arts et des Lettres (1971). Foi-lhe concedida a Medalla d’Or da Generalitat de Catalunya (1980) e a Medalla de Oro ao Mérito em Belas Artes.

 

Mompou sentiu-se fortemente impressionado por Debussy e a nova escola francesa e foi claramente influenciado por Satie. A sua grande ambição era conseguir a máxima expressividade com um mínimo de meios, o que implicou a adopção de temas tradicionais e, virtualmente, a renúncia às modulações e desenvolvimentos. Mas toda a sua música nasce de um estudo profundo da sonoridade e, mais concretamente, da sonoridade pianística, já que toda a obra deste compositor surge através de uma busca, no teclado, de recursos de sonoridade que podem ser analisados harmónica e timbricamente, mas que obedecem a um primeiro impulso de pura sensibilidade sonora.

 

As obras pianísticas representam o núcleo mais importante da sua produção, incluindo as obras mais pessoais e intimistas – Impressions íntimes (1911-14), Pessebres (1914-17), Escenes d’infants (1915-19), Suburbis (1916-17), Cants màgics (1919), Fêtes lointaines (1920), 12 preludis (1927-51), 15 cançons i danses (1918-78), Paisatges (1942-60) ou o monumental ciclo em quatro cadernos Música callada (1951-67) – constituindo o corpus pianístico mais importante produzido em Espanha no século XX e um dos mais significativos da música europeia do seu tempo, de características extremamente singulares e inigualáveis. 

 

Mas importa não esquecer as notáveis obras para canto e piano, de que se destacam L’hora grisa (1915), Quatre melodías (1925-28), o belíssimo ciclo Combat del somni (1941-51) sobre textos de Josep Janés, Cantar del alma (1971) ou o extraordinário Cinc melodies sobre poemas de Paul Valéry (1965-73). Nem as obras para coro como a cantata infantil L’ocell daurat (1970) e o requintado oratório, Los Improperios, para coro misto, barítono ou baixo solista e orquestra (1963).

 

Talvez pela discrição que o caracterizava, a música de Mompou, nomeadamente para piano, manteve-se no conhecimento de um círculo restrito de admiradores, até ser  plenamente “redescoberta”, talvez há pouco mais de 20 anos e, a partir daí, interpretada e revelada por uma elite de pianistas, dando origem a um número considerável de gravações.

 

Muito antes, a etiqueta “Ensayo” ainda conseguiu que o próprio compositor gravasse essas obras, apesar da idade já bastante avançada e debilitado: apesar das imprecisões “técnicas” originadas por estas circunstâncias, os resultados – embora admita que se trate de uma preferência muito pessoal – , atingem, sobretudo em Música Callada, uma intensidade emocional quase inatingível por outros intérpretes.

 

Não resisto a apresentar como primeiro exemplo o segundo número do Primeiro Caderno de MUSICA CALLADA, na interpretação do compositor que foi o segundo e último indicativo do meu programa da Antena 2, “Os Sons Férteis”:

 

 

 

 

Proponho ainda a audição de duas canções.

A primeira, da famosa gravação de Carmen Bustamante com Miguel Zanetti no piano, de que já por aqui passou, pelo menos, “Aquella nit un mateix vent”. Do mesmo ciclo, Combat del somni, é “JO ET PRESSENTIA COM LA MAR”

 

http://www.youtube.com/watch?v=U1uXQtwpyDE&feature=related

 

A segunda, uma magnífica interpretação de “Cantar del Alma”, pelo meio-soprano Marisa Martins e o pianista Mac McClure, numa ocasião muito especial, com Carmen Bravo Mompou, viúva do compositor, na assistência.

 

http://www.youtube.com/watch?v=UfUqsn2iFZs&feature=related

 

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