«Malfadado fado!» era assim que o maestro Fernando Lopes – Graça se referia ao género musical que por muitos é considerado a «canção nacional», o que me parece exagerado, pois não reflecte a alma do povo português, como dizem os defensores desta designação. Reflecte e ajusta-se ao sentir das populações das grandes cidades. Considerar o fado um mero fenómeno lisboeta, parece-me ser o exagero inverso. O compositor e grande investigador sobre a música popular, considerava o fado o principal inimigo da música mais genuinamente popular. Outros intelectuais, como José Gomes Ferreira, partilhavam esta visão de Lopes-Graça.
Para além da discussão, sobre o carácter regional ou nacional, sobre o valor estético e o carácter popular do fado, há acerca das origens do género uma controvérsia acesa, apaixonada, que divide investigadores – a tese mais defendida, mais sustentada e documentada é a que coloca o nascimento do fado a partir do regresso da Corte a Lisboa, em 1821. No artigo anterior referi-me aos pontos fortes desta tese – algumas fontes primárias e abundantes fontes secundárias permitem estabelecer nexos entre os diferentes troços do percurso histórico do fado. Este parece-me ser o grande argumento desta tese – o não ter soluções de continuidade. Defender que o fado vem da poesia trovadoresca é ideia criativa, mas parece ser mero esforço de deduçãao sem qualquer apoio documental.
Não é, porém, questão em que me queira envolver. Apenas pretendo chamar a atenção para as afinidades entre o tango e o fado. Afinidades que têm sido frequentemente invocadas. Entre as vozes que se têm feito ouvir está a de Jorge Luis Borges. Não me parece defensável a tese de que têm uma origem comum. Mas faz todo o sentido pensar que o fado faz parte do código genético do tango. Há um trabalho organizado por dois investigadores do ISCTE-IUL, Helena Carreiras e Andrés Malamud, Do Fado ao Tango. Os Portugueses na Região Platina (Lisboa, 2010) que aprofunda os vestígios dessa influência.
O nascimento do tango não está envolto numa placenta de mistério como o do fado. A origem situa-se claramente no início do século XX, quando chegavam ao Rio de La Plata vagas de imigrantes europeus, amontoados na terceira classe dos grandes transatlânticos. Muitos portugueses, transportando guitarras, violas e a memória do fado, iam entre eles. Para além da opinião de Borges, há muitas outras e a influência do fado na evolução do tango é quase um dado adquirido.
Por exemplo, o guitarrista e compositor argentino Carlos Gutkin (1960) diz: «Não conheço dois géneros mais irmãos que o tango e o fado. O tango nasce na cidade portuária de Buenos Aires, nos bordéis e bares, “locais onde há uma grande fauna citadina de marinheiros, proxenetas e prostitutas, tal como os locais de origem do fado”» (…) ambos nasceram em meios pobres «onde os homens se refugiam para esconder a solidão e os dois géneros abordam essa realidade”. Tal como o tango, o fado “atraiu poetas eruditos e populares. Mas há sempre histórias relacionadas com essas personagens, com esse meio mais difícil”.
Gutkin poderá estar enganado quanto ao berço do fado, pois a acreditar na tese mais aceite, teria ido do Palácio de Queluz para as tabernas e alfurjas da Mouraria. A sua expansão em Portugal, a expansão que Lopes-Graça considerava excessiva e sufocadora da música popular, deve-se, em parte à importância da capital e ao eco que tudo o que ali se passa ressoar pelo País. Mas não é pacífico considerar o fado como fenómeno exclusivamente lisboeta. Ouçamos esta desgarrada, gravada em 2004, em que fadistas disputam amistosamente a prevalência do fado de Lisboa, do Porto ou de Coimbra.
Mas deve-se também ao facto de este género, que tenho relutância em considerar como «canção nacional», ao cantar a solidão, a infelicidade e a miséria, ter tido eco no coração de pessoas, amontoadas em bairros insalubres, trabalhando em condições desumanas e ganhando salário de miséria. A expansão do fado no mundo, tem uma explicação simples – Amália. O fado é cantado em todos os países de língua oficial portuguesa, mas não só. Ainda há dias pudemos, através do nosso Josep Anton Vidal, conhecer duas excelentes fadistas catalãs. O que talvez nem todos saibam é que no Japão se cultiva o fado, havendo mesmo fadistas e compositores japoneses. Havemos de voltar a falar no «fado japonês».
Não se sabe se o fado será ou não integrado no Património Imaterial da Humanidade. O tango, seu irmão mais novo, já lá está. Mas o tango tem vantagens sobre o fado – é mais vistoso e menos tradicionalista. Porém, se no dia 27 a decisão da UNESCO contrariar as pretensões da candidatura portuguesa, o fado continuará a ser o que tem sido, pelo menos de há cem anos a esta parte para os portugueses e para os que pelo mundo fora o cantam – o equivalente musical à intraduzível palavra saudade.
E podemos estar certos de que a UNESCO acabará primeiro.
