UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra, por Manuela Degerine. Série II, Capítulo 10.

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficamos por aqui ou continuamos?

 

 

Quando os portugueses emigram, em França, na Suíça, na Bélgica, isto é, logo que se vêem num contexto laboral estimulante, onde o esforço recompensa, revelam-se activos e empreendedores. Em Portugal os trabalhadores são olhados com desconfiança – pelos colegas – quando se esforçam; e assistem à promoção de quem não mexe uma palha.


Isto resulta de vários factores – um deles foi a legislação do pós 25 de Abril que tornava ruinoso ou impossível o despedimento dos nulos, sornas e perniciosos. Do varredor da minha rua, que passa os dias na tasca, ao professor universitário que, durante três anos, em cadeiras obrigatórias, não deu uma verdadeira aula. Os jovens portugueses têm pago com juros, de há vinte anos para cá, estes privilégios dos pais e avós; e a tão proclamada solidariedade entre gerações não chegará para os indemnizar. Eles têm que aguentar a precariedade, a competitividade e, ao mesmo tempo, na sua vida quotidiana, a ineficiência dos serviços. Todas as desvantagens são para eles.


A não valorização do mérito resulta igualmente dos privilégios de classe. Os conhecimentos. Os reconhecimentos. Houve a República, houve o 25 de Abril – as elites continuam as mesmas. De pouco servem diplomas, talentos e competências: o que determina a carreira é sobretudo a família. Os filhos doutorados de uns estão na caixa do supermercado, os filhos doutorados dos outros encontram oportunidades. Há portanto em Portugal um insensato desperdício de sonhos e saberes.


Esperemos que as actuais reformas tenham algumas consequências positivas – para além das negativas, que são as mais evidentes. Não é certo. Aumenta-se o tempo de trabalho no sector privado… Ora, como todos sabemos, no trabalho e não só, mais vale a qualidade do que a quantidade. Quarenta já são horas demasiadas… Depois do trabalho, há os trajectos; e deve sobretudo haver uma vida pessoal. De que servem três empregados num escritório, como eu vi, mais de uma vez, em lentos ziguezagues à procura de um papel? Não é um aumento do horário que os tornará produtivos. Nada muda enquanto não se exigir eficiência em vez de presença.

 

Resta a oportunidade de enfim, num contexto instável, as atitudes positivas se afirmarem. Mesmo nesta sociedade que entrava quem é activo e lógico e eficiente – muitos se obstinam em continuar a sê-lo. Bombeiros, professores, arqueólogos, enfermeiros, polícias, informáticos, cozinheiros… Distinguem-se pelo rigor e pelo primor. E numerosos são os que participam em projectos e associações. “Vamos Limpar Portugal”. “Renovar a Mouraria”. Por exemplo. Estes teimosos querem melhorar a sociedade de maneira concreta – e conseguem. Cada um de nós, na profissão, nas associações, na vida quotidiana, quando conduz, quando caminha, quando compra, quando separa o lixo, quando passeia o cão, quando exige facturas, quando reclama, quando sugere, pode – e deve – implicar-se na sociedade. Devemos interrogar-nos cada dia: que sociedade construí eu hoje? Acredito mais nesta democracia do que na participação em eleições livres. Não lancemos as culpas para cima dos políticos: somos todos responsáveis.

Leave a Reply