O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 46 – por Raúl Iturra

 

 

 

Anexo 1

Texto de Klein Le psychanalyse des enfants 1933.

Em Londres, Melanie Klein (Viena, 30 de março de 1882Londres, 22 de setembro de 1960) psicoterapeuta austríaca, geralmente tida como psicoterapeuta pós-freudiana, encontrou o seu lar intelectual. Dividia o seu tempo entre os psicanalistas britânicos que acolheram as suas (novas) ideias e que aderiram entusiasticamente à aprendizagem das suas técnicas, e o desenvolvimento, na Grã-bretanha, de uma escola ligada às novas correntes da psicanálise. Parte do seu tempo dedicou-o ao treino de futuros analistas do seu pensamento, teorias e técnicas psicanalíticas. A primeira inovação teórica de Klein foi a de incorporar a ideia do instinto de morte ao afirmar que o super ego se desenvolvia em tenra idade, ainda antes da formulação no inconsciente do complexo de Édipo. Esta ideia apresentava-se como um verdadeiro desafio à teoria de Freud do desenvolvimento do inconsciente, conjuntamente com a teoria dos jogos necessários à análise. Estava lançada a controvérsia entre os analistas britânicos e a Sociedade de Viena de Psicanálise, à qual Anna Freud pertencia, encontrando-se, ela própria, à época, a desenvolver a sua própria teoria sobre a psicanálise das crianças.

O simpósio de 1927 dedicado à Análise da Criança, publicado no International Journal of Psychoanalysis, foi o resultado do debate referido antes. Por outras palavras, o dos britânicos/austríacos, acima mencionado.

Klein, durante a década seguinte, contribui para o avanço/novas abordagens da psicanálise, através dos seus estudos continuou os seus estudos sobre crianças, como o seu mais importante debate durante a década seguinte.

 

No livro datado de 1932, A psicanálise das crianças, traduzido para a língua lusa, só em 1975, pela Editora Imago do Brasil, Volume II: A psicanálise das crianças, em inglês The Psychoanalysis of Children, Klein propõe que a criança tem, na mãe, a sua primeira relação objectiva, sentimento que, por pulsões agressivas, a orienta a desenvolver uma vida psicológica com imagens e fantasias sádicas. Como resultado destas descobertas escreveu um texto pioneiro, em 1935, reeditado em 1984, intitulado: “A contribution to the psychogenesis of manic depressive states”, em língua lusa, publicado pela mesma editora (acima referida), volume I: Amor, Culpa e Reparação ensaio publicado em língia lusa como:“Uma contribuição à psicogênese dos estados maníacos-depressivo, escrito num curto espaço de tempo – entre a morte do seu filho, em Setembro de 1934, com 27 anos de idade, num acidente de alpinismo – e a redacção do texto, inquire a relação entre o luto e os mecanismos de defesa primitivos. Neste texto, introduz a ideia da existência de duas fases fundamentais no desenvolvimento de doenças mentais: o posicionamento paranóide – esquizofrénico e a posição depressiva. As ideias de Klein acerca dos mecanismos de defesa esquizofrénica, produziram um imenso clamor e um duro debate entre os membros da Sociedade Britânica de psicanálise.

No período da 2ª Guerra Mundial, as discussões processavam-se em torno das ideias de Klein, identificadas por kleinianismo, consideradas por alguns tão divergentes das teorias de Freud, que seriam uma outra teoria, mas nunca psicanálise. Do debate resultou a criação/fundação de duas escolas/correntes diferentes: o Kleinianismo e o Froidismo. Klein, surge assim, como a primeira analista a desafiar a teoria de Freud sobre o desenvolvimento da psique.

Gostaria de salientar que já antes, na década de 20, Jung tinha feito um desafio semelhante, que lhe valeu a expulsão da Sociedade Vienense Analítica.

Alice Miller, lança novo desafio, nos anos 70, ao propor novas abordagens para a análise das crianças. O resultado foi idêntico, expulsão do, já organizado, Colégio de Psicanalistas. Desde então, vive na Suiça, de onde produz e envia os mais maravilhosos livros sobre crianças para o programa The Natural Child, ao qual tenho a honra de pertencer. Programa organizado por Alice Miller e assistentes.

Anexo 2

O pater romano não era um “pai” no sentido moderno, e essencialmente ocidental, da palavra, mas um “chefe de família”, ou um chefe da domus (casa) familiar. Pater é, assim, um conceito diferente do de pai biológico, designado pelos romanos de Genitor. O poder do pater familias era chamado patria potestas (poder paternal). Potestas era diferente da auctoritas, também detida pelo pater. O poder do pater era sobre a sua familia iure proprio (não necessariamente baseada no parentesco, correspondendo, sim, a uma unidade política, económica e religiosa) e a sua família doméstica (baseada no parentesco e na co-residência). É da definição referida nesta linha que a ideia de poder paternal, potestade marital e Chefe de Família, foi retirada, a partir da Lei das Doze Tábuas, da República Romana, circa 462 antes da nossa era, ditada pelos Pontífices Romanos e os Patrícios – homens de posses e de famílias antigas, especialmente para gerir o trabalho dos plebeus, a maior parte da população romana: Os patrícios, cidadãos de Roma, constituíam a aristocracia romana, eram a sua elite. Desempenhavam altas funções públicas no exército, na religião, na justiça ou na administração. Eram grandes proprietários de terra e credores dos plebeus, os quais viviam sob a constante ameaça de se tornarem escravos. Os patrícios, descendentes das famílias mais antigas da cidade, ou seja, dos chefes tribais da região do período pré-romano, eram donos das maiores e melhores terras e os únicos a possuir direitos políticos. História completa em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Patr%C3%ADcio. Não foi em vão que referi, no texto central, o proletariado, as condições económicas e sociais são muito semelhantes, excepto a escravidão. Porém, um proletário vive do trabalho e do seu salário correndo o risco de encerramento da indústria ou de despedimento por causa provada, do proprietário dos meios de produção. Para os Pontífices, a história diz: Os primeiros sacerdotes eram obviamente os reis. A sua posição como mediadores entre os homens e os deuses dava-lhes um carácter sagrado. Com a sua expulsão, foi criado um sacerdote (o rei dos sacrifícios) herdeiro das atribuições religiosas, mas unicamente dessas, dado o pavor que os romanos tinham de adquirir um novo rei. Entre a monarquia e os primeiros tempos da república foram sendo criados uma série de sacerdócios, pois, entre os romanos, era considerada ser função do estado assegurar uma boa relação com os deuses. O colégio das vestais era um dos mais famosos. Na Roma Antiga, o termo latino Pontifex Maximus (“Sumo Pontífice“) designava o sumo-sacerdote do colégio dos Pontífices, a mais alta dignidade na religião romana de Rómulo e Remo. Historia completa em: http://roma-antiga.blogspot.com/2006/10/religio-romana-iii-os-primeiros.html

Anexo 3

                 Infância: Essa inexplorada fonte do saber.
Por Alice Miller, Ph.D.

Este tipo de textos de Alice Miller, faz-nos pensar no imaginário da criança. No seu livro de 1986: Bilder einer Kindheit, Suhrkamp Verlag, Franckfurt am Main, traduzido para inglês em 1995: Pictures of a Chilhood, com novo Prefácio da autora, editado por Virago Press, Londres, livro que tenho comigo, a psicanalista diz na página 7: “Ainda me lembro desses tempos em que queria ser uma pintora “real”, munida com as minhas ideias e técnicas, expondo e vendendo a minha obra…… o que estava oculto em mim, era esse desejo de identificação como artista. No entanto, o que realmente interessa é entender a história contada por essa criança nos seus desenhos.

                 Desde o início da civilização a humanidade debate-se sobre o surgimento do mal e de como poderá ser combatido. Parece-me ter existido sempre uma convicção difusa e intuitiva de instintos destrutivos dentro das crianças, isto é, que as sementes do mal, aliás, do demónio, podem-se encontrar nas crianças. A lei que domina esta triste ideia é a imaginação da existência, esta tendência de pensar que as sementes do Demónio, do mal entre as crianças, são congénitas. A manifestação de instintos destrutivos inatos pode ser corrigida em bondade, decência e nobreza de carácter, tratando-se a criança com uma boa quantidade, muito liberal, de castigos corporais.

Esta é a posição que frequentemente triunfa. No entanto, hoje em dia, ninguém pensa seriamente que o Mal tenha o poder de se intrometer entre as coisas, introduzindo desafios dentro do berço da criança. Maldade que nos obrigue a usar métodos punitivos para submeter este pequeno demónio às forças da ordem social. Apesar de tudo, ouvimos, a partir de vários universos sociais, a séria e severa proposta da existência de genes que predispõem crianças para a delinquência. A perseguição destes genes “marotos” tem inspirado vários e respeitáveis projectos, parte deles realizando, até, inquéritos. Apesar da hipótese por detrás desta ideia não ser suficiente para provar um número de factos em que se acredita. Os defensores da teoria da existência do “mal congénito”, deveriam explicar, por exemplo, porque é que 30 ou 40 anos antes do Terceiro Reich, o gene do mal parecia mostrar a sua hedionda cabeça, bem como o surgimento da imensidão de crianças com “genes perversos”, para que Hitler, mais tarde, tivesse uma desculpa para justificar a morte e humilhação de milhares de seres humanos.

Há hoje evidência científica suficiente e bem provada, para refutar a noção de que há certas pessoas que nascem com o “gene do mal”. Este mito absurdo encontra-se em várias culturas e tem sido investigado de forma efectiva. O mito tem sido aniquilado, todavia, entre a população, subsiste. Bem sabemos hoje em dia, que o cérebro com o qual nascemos, não é um produto acabado como se pensou em tempos. A estruturação do cérebro depende mais das experiências no decorrer da vida, especialmente nas primeiras horas do nascimento, dias, horas e semanas da vida de um indivíduo. O estímulo indispensável para desenvolver a capacidade de empatia, é a experiência de carinho amoroso. Ao faltar esse carinho ao longo do seu crescimento, a criança sente-se negligenciada, cheia de fome de emoções positivas e sujeita a crueldades físicas, pelo que ele ou ela, pode-se sentir confiscado de amor e desenvolver uma capacidade inata de crueldade.

Como sabemos, não nascemos limpos como a alvura. Todo o recém-nascido traz consigo a sua própria história. A história dos nove meses entre a concepção e o nascimento, para além da herança genética dos seus pais. Estes factos podem determinar o tipo de temperamento que a criança venha a ter no seu futuro, as suas inclinações, dotes e pré-disposições. Tudo depende se a pessoa recebe amor, protecção, ternura e compreensão nesses seus primeiros anos que a vão estruturando. Se fica exposta à rejeição, frieza, independência e crueldade, o seu carácter, no futuro pode ser negro e cruel.

Da imensidão de infantes que comete assassínios, normalmente, são crianças nascidas de pais adolescentes, ou de mães toxicodependentes ou aditas a drogas. A negligência, a falta de convívio afectivo e outro tipo de traumas, são as regras que governam estes comportamentos.

Os neurobiólogos, nos últimos anos, têm aprofundado as suas análises; dizem que crianças traumatizadas e negligenciadas, desenvolvem lesões neurológicas severas que afectam até 30% das áreas do cérebro que controlam as emoções. Traumas severos inflectidos nas crianças, que sofrem o escarafunchar/remexer dos pais nas suas emoções, incrementam a libertação de adrenalina, destroem as hormonas que controlam o stress acabando por aniquilar o sistema neuronal recentemente formado e as suas inter conexões. O dano cerebral é imenso.

O médico neurologista e psicanalista da infância, Dr. Bruce D. Perry, é um dos defensores destas descobertas que nos ajudam a estudar e a compreender o crescimento das crianças e o efeito retardado do trauma infantil, que aparece apenas na idade adulta. Os seus estudos vêm confirmar o que eu analiso no meu livro For Your Own Good. The roost of violence on Child-rearing escrito há pouco mais de 20 anos [em 1987], resultante da observação dos meus pacientes e das minhas pesquisas sobre estes casos. No trabalho supra, menciono diversos manuais que contêm a teoria do que eu denomino a pedagogia do envenenamento. Insisto na importância de refutar ou tamborilar princípios de obediência e de trato correcto para com os bebés, especialmente nos seus primeiros dias de vida. Este estudo tem-me ajudado a entender os indivíduos, como Adolf Eichmann, que funcionam como robots assassínios, sem a menor emoção pelos crimes cometidos. Pessoas como Hitler, têm que prestar contas pelo seu agrado em matar desde esse primeiro, até ao último morto. Foram pessoas que jamais prestaram contas pela falta de amor inflectidas sobre elas em crianças. O seu potencial destrutivo não corresponde ao que Freud denomina “síndrome de morte”. Era apenas a supressão, na sua vida de criança, de reacções emotivas naturais.

A monstruosa instrução sobre ser bons pais disseminada por educadores na Alemanha de 1860 teve pelo menos 40 edições. Este facto, levou-me a concluir que a maior parte dos pais leram esse manual escrito por docentes, leitura feita de boa fé. Pais que puniam os seus filhos, batiam-lhes desde o início das suas vidas, por serem ensinados que o castigo educava a ser bom cidadão. 40 Anos depois, esses filhos, já pais, fizeram o mesmo com os seus descendentes. Nem sabiam o que faziam. Nascidos 30 ou 40 anos antes do Holocausto, essas crianças mal tratadas e traumatizadas aderiram a Hitler, adularam-no e fizeram dele um guia. Isto é, a meu ver, o resultado de uma infância desgraçada/infeliz sentida desde muito cedo nas suas vidas. A crueldade experimentada foi transferida para seres emotivos coxos de afeição. Incapazes de desenvolver qualquer empatia pelo sofrimento dos outros. Passaram a ser bombas de tempo para matar, sem consciência, aguardando uma oportunidade para punir e matar, de transferir para outros a raiva que tinham por causa das suas tristes vidas. Hitler forneceu um bode expiatório legal. Podiam assim, agir para deitar fora os seus tristes sentimentos.

 

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