AVENIDA DA POESIA – Jean- Paul Sartre, António Sales, Miguel Torga e Natália Correia

 

Jean-Paul Sartre

 

(Paris,1905 -1980)

 

 

OS POETAS

 

Os poetas são homens que se recusam a utilizar a linguagem. Dado que é com e pela linguagem, concebida como uma espécie de instrumento que se pratica a busca da verdade, não é preciso imaginar que eles procurem descobrir o que é verdadeiro ou expô-lo. (…) Se o poeta conta, explica ou demonstra, a poesia torna-se prosaica; o poeta perdeu a partida.

 

(O que é a Literatura)

 

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António Sales

(Torres Vedras, 1936)

 

 

 

 

LETRAS

 

 

 

De letras compõem-se as palavras,

letras de muitas línguas

muitos mundos.

Sementes rituais

de cores inebriantes,

também ervas daninhas,

amargas, soluçantes.

 

De letras grandes e pequenas

fabricam-se as palavras,

com pernas e sem pernas,

gordas, magras,

altas, baixas,

todas elas, porém,

prontas a marchar.

 

 

Umas redondas, meigas,

esculpidas de beleza

perdidas de paixão, arrebatadas.

Letras obesas

sebosas e servis,

castradas de carácter

pobres e imbecis.

 

Há letras de chorar

e letras de sonhar,

luminosas

alegres de encantar,

brilhantes como estrelas

de mãos dadas a bailar.

 

Ai letras

minhas queridas letras!

Semeiam palavras

orvalhadas de sol.

 

 

 

 

Miguel Torga

 

 

(São Martinho de Anta, Sabrosa, 1907 — Coimbra, 1995)

 

 

ARTE POÉTICA


 

Fecho os olhos e avanço.

E começa o poema.

Rodeiam-me os fantasmas

Fugidios

Dos versos que persigo.

A regra é caminhar

E chegar sem saber.

De tal modo é cruzada

A encruzilhada

Onde o milagre pode acontecer.

 

Mas sendo, como é, de cabra-cega

O jogo,

E é um destino jogá-lo,

É sempre incerto que o principio.

Tacteio no vazio

Da expressão,

Vou seguindo

Seguindo,

E ganho quando sinto a salvação

No próprio gosto de me ir iludindo.

 

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Natália Correia

(Fajã de Baixo, São Miguel, 1923 — Lisboa, 1993)

 

A DEFESA DO POETA

 

 

Senhores jurados sou um poeta

um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto

 

 

Sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim

 

 

Sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes

 

 

Senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei

 

 

Senhores professores que pusestes

a prémio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição

 

 

Senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

sou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis

 

 

Senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além

 

 

Senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs na ordem ?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem ?

 

 

Senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa

 

 

Sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever

ó subalimentados do sonho !

a poesia é para comer.

 

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Ilustrações de Adão Cruz

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