E se a Alemanha não fosse tão exemplar… Por Claire Gatinois et Frédéric Lemaître. Selecção e tradução de Júlio Marques


“Agora a Europa fala alemão. “Inábil, chocante, a afirmação do presidente do grupo parlamentar CDU-CSU, Volker Kauder, no Bundestag, na terça-feira 15 de Novembro, não fez, no entanto, mais do que ilustrar o estatuto que a Alemanha adquiriu oficiosamente nestes últimos meses.


São os mercados que assim consagraram esta ideia. Mas agora é também a opinião pública. E a partir daqui, a chanceler alemã, Ângela Merkel, pode dar lições e impôr os seus pontos de vista para resolver [a] “pior crise desde o pós – guerra “ da União monetária. Mito ou realidade?


Membro do clube muito fechado dos países notados AAA (o equivalente de um 20/20) pelas agências de notação, o país satisfaz à primeira vista todas as qualidades – ou quase todas – com as quais pode sonhar um chefe de Estado. Um défice público em baixa e que o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima a um valor inferior a 1,7% do produto interno bruto (PIB) em 2011. Um volume de dívida, certamente elevado de 82,6% do PIB, mas com tendência já a descer. Um desemprego contido ao nível de 6% da população activa (contra 9,5% que é a taxa prevista em França). E, por último, uma balança dos pagamentos correntes excedentária.


Mas, no entender dos peritos, Berlim não é assim tão exemplar. “O seu défice está vergonhosamente falsificado! “, denuncia Sylvain Broyer, economista do banco Natixis. E explica: depois do choque de 2008, o país recorreu a uma táctica legal, mas pouco ética, para contabilizar as dezenas de milhares de milhões de euros desembolsados (ou oferecidos em garantias) a fim de relançar a sua economia e salvar o seu sector financeiro.


Estes valores, continua Broyer, foram colocados num fundo especial“Sondervermögen” que contribuiu para fazer aumentar a dívida mas não é tida em conta no cálculo do défice público. Sem esta astúcia o défice alemão em 2009 não teria sido de 3,2% mas sim de 5,1 %, calcula Natixis. Um nível comparável ao da França… A fazer lembrar as afirmações de Jean-Claude Juncker, o presidente luxemburguês do Eurogrupo. “Na Alemanha, faz-se tudo muito frequentemente como se o país não tenha nenhum problema, como se a Alemanha esteja isenta de dívidas enquanto todos os outros estariam cheios de dívidas excessivas “, descaíu-se este recentemente. Uma contra verdade aos seus olhos : “A dívida na Alemanha é mais elevada que a dívida da Espanha. Simplesmente aqui ninguém quer saber disso. “

 

 

 

 

 

 

Redução de ritmos


De facto, de acordo com a Comissão Europeia, se olharmos para o rácio da dívida sobre o PIB, a Alemanha está mesmo menos bem que outros nove países da zona euro. E apesar de receitas fiscais em forte aumento (de 40 mil milhões de euros) em 2011 graças a um crescimento dinâmico, a dívida pública deveria crescer, em valor absoluto, este ano em  cerca de 25 mil milhões de euros. O rigor alemão será por conseguinte muito relativo ? Influentes economistas alemães, de sensibilidades diferentes, partilham o ponto de vista de Juncker.


“O nível da dívida alemã é inquietante, se se fazem projecções sobre o futuro”, julga Henrik Enderlein, dirigente do Hertie School of Governance. O declínio demográfico do país, que contribui para moderar a taxa de desemprego, traduzir-se-á em “uma baixa maciça das receitas do governo “, explicam-nos. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população vai fazer explodir os custos da segurança social e os custos da protecção na saúde. “. Em 2010 um estudo do Banco de Pagamentos Internacionais (BPI) calculava, de resto, que se iria verificar a explosão das despesas de saúde na Alemanha e a atingir cerca de 10% do PIB em 2035…


 “ A dívida está bem acima dos 60% que são estipulados pelo tratado de Maastricht. A Alemanha também não cumpriu a sua tarefa “, lamenta-se Hans-Werner Sinn. O muito influente presidente do Ifo prossegue: “A dívida já elevada mostra que a Alemanha não pode salvar ninguém sem perder a sua própria notação. “Por outras palavras, o país não estaria ao abrigo, ele também não, de uma degradação da sua notação que o levaria um dia a perder, o seu “AAA”, o abre-te sésamo para ir aos mercados financeiros levantar fundos a uma baixa taxa de juro. Através da sua participação no Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, suposta salvar os países em dificuldade na União monetária, “a Alemanha já colocou a sua notação gravemente em perigo. Os prémios de seguros sobre os empréstimos a dez anos do Estado alemão, os CDS, decuplicaram em relação ao que eram antes da crise “, precisa o economista eurocéptico.


Jochen Möbert, economista no Deutsche Bank, evoca “três riscos (que) poderiam ameaçar a notação alemã: uma recessão,, uma ajuda acrescida aos países periféricos e uma aversão dos mercados pelos empréstimos de Estado “. A Alemanha não está ameaçada de entrar em recessão. Mas, como para o conjunto da zona euro, está estimado uma redução do ritmo de actividade económica em 2012: os peritos admitem um crescimento de apenas 0,9% para o próximo ano contra 3% em 2011.


Actualmente, os mercados, que já não hesitam sequer em atacar a Bélgica ou a França, reservam para a Alemanha um tratamento de favor. Na zona euro, aliás, é Berlim que está a pagar a taxa de juro mais baixa nos seus empréstimos levantados junto dos mercados financeiros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas o “modelo alemão de estabilidade”, herdado em grande parte das reformas estruturais ( mercado de trabalho, sistemas de pensões de reforma) conduzidas pelo governo de Schroeder, ou seja, bem antes da crise, também já não constitui ele um muro de protecção inatacável. Pelo menos a acreditarmos no que nos dizem os economistas.


Claire Gatinois et Frédéric Lemaître

 

 

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