Na madrugada a seguir à Greve Geral, enviei uma “carta do leitor” ao “Diário de Notícias”, por duas vias: através do sítio do jornal na Net e por correio electrónico, para o endereço indicado na secção respectiva da edição impressa.
Considero que as observações constantes dessa carta são pertinentes e, nas circunstâncias, mesmo necessárias. É certo que contrario as opiniões expressas por uma “jornalista da casa” e por um Sr. General (por definição, gente importante). Mas, ainda vou tendo a esperança de que subsista, entre quem se intitula jornalista, não só uma noção da ética que deve reger a profissão, como também uma capacidade de análise suficiente para – sendo necessário optar, como há-de ser o caso nesta secção – ordenar a importância dos textos enviados e, até, o seu maior ou menor afastamento do que é, de ordinário, publicado – o que também pode(ria..) ser um factor decisivo na decisão a tomar.
Esperei dois dias (mais tempo tornará o texto – na opinião jornalística de hoje, não na minha – “desactualizado”). Não descurei a comparação com os textos publicados na referida secção nestes dois dias. Sempre me considerei capaz de uma distanciação mais do que suficiente para que nela não interfira o facto de estar em causa um texto meu.
Seria quase escusado dizer que o que escrevi não foi publicado.
O que tem mais importância do que possa parecer, por duas razões:
1 – Demonstra como é fácil manipular a informação, com o subjectivíssimo “critério jornalístico”, muito usado para justificar estas “inocentes” escolhas… Note-se que nada, no conjunto das peças publicadas pelo “DN”, põe em causa a incoerência da crónica da jornalista nem a pura imbecilidade das opiniões do Sr. General, muito menos pelo próprio jornalista que o entrevistou, cuja capacidade de pensar as respostas que recebe e, a partir delas, construir novas perguntas é nula, como vem acontecendo com a maioria dos profissionais actualmente em actividade…
2 – Dada a actualidade do tema da privatização de um canal da televisão pública, eis aqui desnudada uma das razões primordiais da sua manutenção e configuração, a qual se procura resguardar cuidadosamente do debate público: os operadores privados, sobretudo de um “media” que é – e continuará a ser por bastante tempo – o mais poderoso meio de contacto com a esmagadora maioria dos cidadãos, ficam com o caminho aberto, com a menorização do serviço público televisivo, para calarem uma boa parte da opinião pública e impedirem por completo o debate adequado e suficientemente informado dos temas mais prejudiciais aos seus interesses, em particular os que têm a ver directamente com a defesa da Democracia, como é o caso, fundamental, da circulação de ideias e do seu confronto, no espaço público, verdadeiramente livres.
Segue-se o texto que o DN não publicou:
NEURÓNIOS EM GREVE GERAL
A Greve Geral parece ter desencadeado uma greve parcial do raciocínio de parte dos que sobre ela se pronunciam.
Fernanda Câncio reforça os mais vulgares argumentos ideológicos da direita e acha que a situação actual é de “dá cá aquela palha”, pelo que convocar uma greve é desonrar uma herança de riscos e sacrifícios (a que suponho que não tenha assistido). Que propõe FC que os trabalhadores – os que ainda podem fazer greve (os inúmeros precários não podem…) – façam para acabar com a fúria espoliadora do actual Governo, que a jornalista não pode fingir desconhecer que só vai piorar a situação económica, já que não acrescenta ao plano de esbulho qualquer proposta séria de recuperação económica? Leia, umas páginas adiante, o José M. Pureza; e, ao longo da semana, outros cronistas do DN (não recomendo o César das Neves e assimilados, a não ser para assuntos ligados à castidade e à “defesa da vida”); mas, se não lhe chegar, há, em Portugal e no estrangeiro, muito mais alertas – em livros, revistas e jornais – de gente com credenciais científicas mais que suficientes, que explicam a que tipo de convulsões político-sociais – que a História descreve – circunstâncias semelhantes às que vivemos podem conduzir: a ascensão do nazismo é um exemplo…
O General Garcia Leandro quer responsabilizar os Sindicatos por futuros actos de vandalismo, por desencadearem “processos que não conseguem controlar”. O Sr. General errou a vocação, pois se há coisa que não se consegue controlar é uma Guerra, pelo que o melhor é não entrar em nenhuma… Ou quererá fazer dos Sindicatos polícias? O conjunto das forças de segurança do Estado é capaz de garantir que evita qualquer acto terrorista no País? Ou será o seu OSCOT “civil” quem o garante? Então, porque debita contra-sensos deste quilate?
Creio que estes dois exemplos de abordagens ligeirinhas, historicamente desfocadas ou ideologicamente condicionadas chegam, embora haja mais.
