O erro fatal da desindustrialização. Editorial do Le Monde. Selecção e tradução do Júlio Marques Mota.

Lembrem-se. Estávamos no início dos anos 80 e não foi assim há muito tempo. Em Washington, Ronald Reagan, com o seu ar de criança,  eem Londres Margaret Thatcher, com o seu ar todo senhoril de uma menina de escola mas um pouco desleixada davam-nos lições de economia. O curso chamava-se: as novas vias do liberalismo, ou como a indústria se tornou um sector fora de moda, sem interesse.


O futuro estava nos serviços e nas altas tecnologias. As economias avançadas, como a dos Estados Unidos e a da Europa, podiam deixar para os outros, para os países do Sul, segmentos inteiros das suas indústrias. Isso não teria qualquer importância, explicavam-nos quer o presidente americano quer Margaret Thatcher, como primeiro – ministro britânico.


O valor acrescentado, o verdadeiro valor acrescentado, estava noutro lugar, não na criação de objectos como – e à escolha, vestuários, sapatos, brinquedos, automóveis ou electrodomésticos… As nossas duas vestais do modelo neoliberal preconizam ao mesmo tempo livre troca comercial e financeira sem quaisquer obstáculos, sem quaisquer fronteiras, tudo isso justificado em nome da teoria das vantagens comparativas, um novo mapa geoeconómico se desenvolvia, assim.


Inúmeras eram as indústrias do Norte que se deslocalizavam para o Sul. Mais que outros, era a Ásia que se aproveitava, e dezenas de milhões, ou mesmo centenas de milhões de homens e mulheres assim saíram da mais extrema miséria.


Contudo, o Norte desindustrializava-se sem que os serviços viessem sempre compensar em salários, nem mesmo em número de empregos, o que a central sindical AFL-CIo então tinham chamado de “gigantesco sifão dos nossos posto de trabalho”.


A desenhar em grandes traços uma história que foi bem mais complexa, caricatura‑se sempre, é certamente assim. Mas é tudo isto um pouco mais ou menos o que aproximadamente se passou. E é sobre esta história que o jornal Le Monde retorna hoje este tema com uma série de três reportagens nos Estados Unidos. Estas reportagens ilustram ao mesmo tempo os efeitos da desindustrialização e os meios para a ultrapassar. problemática que está no centro da principal patologia das nossas sociedades desenvolvidas: o subemprego.

 

Porque, na frente do impacto do desemprego de massa, nomeadamente, há agora um consenso a Norte: o pêndulo foi demasiado longe. Nos Estados Unidos, a parte da indústria no valor acrescentado nacional deve situar-se actualmente na vizinhança dos 10% e pouco mais. Na Europa, a média está ainda em 22,4%, graças nomeadamente aos resultados da Alemanha (30% do valor acrescentado nacional é devido à indústria) e apesar das muito más notas da França e da Grã-Bretanha – ambos em cerca de 16%.


Porquê agora? Porque esta questão da desindustrialização é uma das chaves, se é que não é mesmo a única chave, do grande desequilíbrio estrutural que afecta a economia mundial: o Sul poupa (demasiado) e produz muito, enquanto o Norte não produz o suficiente e gasta demasiado. De uma certa maneira, é o tema do G20 de Cannes. E tudo isto, porque este desequilíbrio nas trocas mundiais explica em parte quer a crise financeira de 2007-2008, quer a crise das dívidas soberanas europeias.

 

L’erreur fatale de la désindustrialisation, Editorial do Le Monde, 3 de Novembro de 2011.

 

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